
Reconstruindo Minha Vida
Capítulo 3
No dia seguinte, a raiva deu lugar a uma determinação gelada. Eu precisava olhar nos olhos do homem que ajudou a destruir meu casamento. Não foi difícil encontrar Pedro Silva. Uma busca rápida online revelou que ele trabalhava como "consultor financeiro" em um pequeno escritório no centro da cidade, uma fachada para o que eu logo descobriria ser uma vida de pequenos golpes e grandes dívidas.
Parei meu carro em frente ao prédio comercial sem graça. Quando entrei no escritório minúsculo, o encontrei atrás de uma mesa de madeira barata, falando ao telefone com uma intimidade que me revirou o estômago. Ele sorria, a voz macia. Era óbvio que estava falando com Ana.
Quando me viu, seu sorriso vacilou por um segundo antes de se transformar em um esgar de arrogância. Ele encerrou a ligação.
"Pois não?"
"João. O marido da Ana", eu disse, sem rodeios.
Ele recostou-se na cadeira, tentando parecer relaxado, superior.
"Ah, o marido. Imaginei que você apareceria em algum momento. E daí? Veio fazer uma cena?"
"Não. Cena é o que vocês dois fizeram ontem à noite. Eu vim apenas para entender uma coisa."
"Entender o quê? Que ela não te ama mais? Que ela sempre me amou? Algumas coisas são simples, cara. Supere."
A calma dele era irritante. Ele agia como se tivesse todo o direito, como se eu fosse um mero obstáculo a ser removido. Enquanto ele falava, uma sensação estranha percorreu meu corpo, uma espécie de zumbido elétrico atrás dos meus olhos. Uma tela azul translúcida, como uma interface de computador, piscou na minha frente, sobrepondo-se à imagem do escritório mofado.
`[Sistema de Vingança Ativado]`
`[Analisando Alvo: Pedro Silva]`
Eu pisquei, achando que o estresse estava me causando alucinações. Mas a tela continuava lá, nítida e estável.
`[Alvo: Pedro Silva]`
`[Status: Amante da Esposa do Anfitrião]`
`[Análise Financeira: Dívida Total - R$ 527.480,30]`
`[Fontes da Dívida: Agiotas, Empréstimos Bancários Não Pagos, Cartões de Crédito Estourados]`
`[Motivação Principal: Aproximar-se de Ana para obter acesso ao seu patrimônio (avaliado incorretamente como sendo dela) e quitar dívidas pessoais.]`
Tudo ficou claro. O queixo de Pedro, a sua pose de vencedor, tudo não passava de uma farsa. Ele não era um rival apaixonado, era um parasita. Um oportunista desesperado. A raiva que eu sentia se transformou em um desprezo profundo.
Eu sorri, um sorriso genuíno pela primeira vez em muito tempo.
"Você tem razão", eu disse, minha voz mudando, agora cheia de uma nova confiança. "Algumas coisas são bem simples. Por exemplo, uma dívida de mais de quinhentos mil reais. Isso é bem simples de entender, não é?"
A arrogância no rosto de Pedro se desfez como um castelo de areia. Seus olhos se arregalaram, a cor sumiu de seu rosto.
"Do que... do que você está falando? Eu não sei do que você está falando."
"Ah, você sabe sim, Pedro. Agiotas, bancos, cartões de crédito... Deve ser difícil dormir à noite, não é? Imagino que a Ana seja sua grande esperança. A salvação financeira. Você acha que o dinheiro dela, que na verdade é meu, vai resolver todos os seus problemas."
Ele se levantou de um salto, derrubando uma pilha de papéis da mesa. O pânico estava estampado em seu rosto.
"Quem é você? Como você sabe disso? Você andou me investigando?"
"Digamos que eu tenho minhas fontes. Fontes que me dizem que você é só um aproveitador barato, vendendo uma história de amor eterno para uma mulher tola o suficiente para acreditar. Mas o jogo acabou, Pedro. A fonte de dinheiro secou."
Ele me olhou, o medo se misturando com o ódio. Ele abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu. Ele parecia um peixe fora d'água, buscando ar. Sem dizer mais uma palavra, ele me empurrou para o lado, correu para fora do escritório e desapareceu escada abaixo, como o rato que ele era.
Eu fiquei parado no meio da sala vazia, o cheiro de desespero ainda no ar. A tela azul na minha frente piscou novamente.
`[Alvo Amedrontado. Missão Inicial Concluída.]`
`[Análise da Situação: Traição motivada por ganância e nostalgia mal resolvida. Potencial de Vingança: Elevado.]`
Saí do prédio e voltei para o meu carro. O plano inicial era simples: me divorciar e esquecê-los. Mas o sistema, fosse lá o que fosse aquilo, me deu uma ideia muito melhor. Uma ideia muito mais justa. Eu não ia apenas me livrar deles. Eu ia dar a eles exatamente o que eles achavam que queriam, e assistir enquanto isso os destruía.
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