
Quinze Anos, Depois Uma Foto
Capítulo 2
— Cansada? — Ele pareceu surpreso. — Está tudo bem, Eli?
— Só um dia longo — menti, subindo as escadas.
— Bem, deixe-me melhorar isso — ele disse, sua voz baixando para um ronronar baixo e sugestivo. Ele me seguiu, sua mão buscando a minha.
Eu me esquivei do seu toque.
Ele parou, um lampejo de algo — irritação? confusão? — em seus olhos.
— Ok. Entendi. Tenho trabalhado muito. Vamos ter um encontro amanhã à noite. Só nós dois. Podemos ir àquele lugar que você adora, no Guarujá.
— Tudo bem — eu disse.
Ele sorriu, aliviado.
— Ótimo. Tenho uma surpresa para você também.
— Eu também tenho uma para você — eu disse, pensando na caixa de veludo cinza lá em cima.
Seu sorriso se alargou.
— Ah, é? Já é meu aniversário?
A pergunta era uma piada amarga. Meu próprio aniversário tinha sido na semana passada. Ele havia esquecido. Mandou uma mensagem de uma reunião em Tóquio. *'Feliz niver, amor. Super ocupado. Comemoramos quando eu voltar.'* Ele nunca mais tocou no assunto.
— Não — eu disse. — Só porque sim.
Ele se aproximou, tentando me beijar. Virei a cabeça, e seus lábios encontraram minha bochecha.
— Ok — ele disse, recuando, parecendo um pouco magoado. — Te vejo de manhã.
Deitei na cama naquela noite, olhando para o teto, ouvindo sua respiração constante ao meu lado. Isso era uma performance agora. O último ato de uma peça de longa duração. E eu sabia minhas falas.
Na noite seguinte, ele era todo charme, abrindo a porta do carro para mim, sua mão na base das minhas costas.
Ele tagarelou durante todo o caminho até o restaurante, falando sobre um novo negócio, um membro difícil do conselho, o fracasso de uma empresa rival. Eu fiz os sons certos, assentindo e sorrindo nos lugares certos.
Quando ele parou na fila do manobrista, algo no chão do lado do passageiro chamou minha atenção. Um único e longo fio de cabelo loiro.
O cabelo de Jéssica.
Olhei para ele, depois desviei o olhar. Não o peguei. Não o apontei.
Não havia mais sentido em lutar. Você não discute com um fantasma. E ele já era um fantasma para mim.
O restaurante era onde ele me pedira em casamento. Situado em um penhasco com vista para o oceano, as ondas quebrando abaixo. Era para ser o nosso lugar.
Naquela noite, seria o lugar onde tudo terminaria.
Enquanto entrávamos, uma mulher em uma mesa próxima ofegou.
— Meu Deus, é o Ricardo Almeida!
Ele lhe deu um aceno gracioso, o rei da tecnologia em seu elemento.
Ele tinha acabado de ligar para o trabalho, uma "emergência rápida". Ele estava a alguns metros de distância, de costas para mim, sua voz baixa e urgente.
— Desculpe, amor, preciso sair rapidinho — ele disse, virando-se para mim, o rosto uma máscara de arrependimento. — Surgiu um imprevisto no escritório. Um data center no quadrante quatro caiu. É uma bagunça.
— Vá — eu disse.
— Serei super rápido. Vinte minutos, no máximo. Não saia daí, ok? Peça uma garrafa daquele vinho bom para nós. — Ele piscou.
Uma mulher na mesa ao lado suspirou sonhadoramente.
— Ele é tão dedicado. E tão apaixonado pela esposa.
Eu sabia para onde ele estava indo. Ele não estava falando com seu chefe de engenharia. Ele estava falando com Jéssica. O "data center" era o apartamento dela. A "emergência" era ela.
Voltei para o carro. Disse ao manobrista que tinha esquecido meu xale.
O segundo celular dele, o que ele achava que eu não conhecia, estava no porta-luvas. Estava desbloqueado.
As mensagens estavam bem ali.
Jéssica: *'Soube que você tá num encontro com a velha. Que tédio.'*
Ricardo: *'Tenho que manter as aparências. Chego em 10 min. Usa aquela lingerie vermelha que eu gosto.'*
Jéssica: *'Anda logo. Tenho uma surpresa pra você.'*
Depois, uma foto. Jéssica, fazendo beicinho para a câmera, usando uma lingerie de renda vermelha. Na mesa de cabeceira atrás dela, havia uma pequena caixa azul da Tiffany.
Meu estômago se revirou. Senti uma necessidade violenta e visceral de vomitar. As ostras perfeitamente preparadas que eu acabara de comer ameaçavam reaparecer.
Ele voltou vinte e cinco minutos depois, parecendo satisfeito consigo mesmo.
— Tudo resolvido. Viu? Eu disse que seria rápido.
Forcei um sorriso, os músculos do meu rosto protestando.
— Você está bem? — ele perguntou, vendo meu rosto pálido. — Parece um pouco enjoada.
— Só... as ostras — consegui dizer. — Talvez não estivessem muito boas.
— É isso — ele disse, o rosto se fechando. — Vou ter uma conversa com o gerente. Este lugar caiu muito de qualidade.
— Não, Ricardo, não faça isso — eu disse. — Está tudo bem.
Ele olhou para mim, a testa franzida.
— Sabe, eu estava pensando no que você disse. Sobre o meu aniversário. Eu sei que esqueci o seu. Eu sou um idiota. Sinto muito, Eli.
O pedido de desculpas, tão tardio, tão vazio, pairou no ar entre nós.
— Vou compensar você — ele disse, a voz sincera. — Eu prometo.
Pensei na lingerie de renda vermelha. Na caixa da Tiffany. No data center no quadrante quatro.
Senti o vômito subir pela minha garganta. Levantei-me da cadeira e corri para o banheiro, mal conseguindo chegar à cabine antes de passar mal.
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