
Quinze Anos, Depois Uma Foto
Capítulo 3
Fiquei no banheiro por um longo tempo, jogando água fria no rosto, meu reflexo um estranho pálido e assombrado no espelho.
Ricardo estava me esperando, o rosto gravado de preocupação.
— Tem certeza de que está bem? Podemos ir para casa.
Como ele podia ser tão bom nisso? Nas mentiras, na performance. Uma parte de mim se perguntava se ele ainda sabia que estava fazendo isso. Se a linha entre o marido amoroso e o canalha traidor havia se tornado tão tênue em sua própria mente que ele não conseguia mais vê-la.
O ar fresco da noite no caminho para casa clareou minha cabeça. A náusea diminuiu, substituída por uma calma fria e clara.
— Estou me sentindo melhor — eu disse, enquanto ele estacionava na garagem.
— Que bom — ele disse, a mão no meu joelho. — Porque eu ainda tenho aquela surpresa para você.
— Amanhã — eu disse. — Vamos deixar as surpresas para amanhã.
Ele pareceu desapontado, mas assentiu.
— Ok. Amanhã.
Uma pequena ideia perversa surgiu em minha mente. Um golpe final, de despedida.
— Na verdade — eu disse, virando-me para ele. — Estive pensando. Você tem razão. Precisamos de mais tempo juntos. Por que você não tira o dia de amanhã de folga? Podemos passar o dia inteiro juntos. Aqui. Em casa.
Ele pareceu surpreso. Depois um pouco em pânico. Um dia inteiro. Um dia inteiro em que ele não poderia escapar para ver Jéssica.
— Eu... eu não sei, Eli. Tenho aquela apresentação importante...
— Reagende — eu disse, com a voz doce. — Por mim.
Ele mordeu o lábio, encurralado.
— Ok — ele disse finalmente, forçando um sorriso. — Por você. Qualquer coisa.
Fomos para a cama. Ele adormeceu quase instantaneamente. Esperei até que sua respiração estivesse profunda e regular, então saí do quarto.
Fui ao escritório dele. O notebook do trabalho estava em sua mesa. Ele usava a mesma senha para tudo. Nosso aniversário de casamento. A ironia era tão densa que chegava a sufocar.
Encontrei o que procurava na pasta de itens excluídos. Ele não era tão esperto quanto pensava.
Um vídeo. Jéssica, de novo. Desta vez, ela estava no escritório dele, empoleirada em sua mesa, vestindo nada além da camisa social dele.
— Ricardo, meu amor — ela arrulhou, passando a mão pela coxa. — Quando você vai largar ela? Ela é tão velha e sem graça. Eu sou muito mais divertida.
Ele não respondeu, mas pude ouvir sua risada baixa fora da câmera.
Fechei o notebook, minhas mãos firmes. A dor era um eco distante agora. Tudo o que eu sentia era um nojo profundo e sem fundo.
Voltei para o nosso quarto. Ele havia se virado durante o sono, um braço jogado sobre o meu lado da cama, me procurando.
— Eli? — ele murmurou, meio adormecido.
— Estou aqui — eu disse, minha voz um sussurro.
Ele suspirou e voltou a dormir.
De manhã, o celular dele começou a vibrar às 6 da manhã. Vibrou de novo. E de novo. Um ritmo implacável e insistente.
— Droga — ele gemeu, virando-se e pegando-o da mesa de cabeceira. — O que diabos ela quer agora?
Ele se levantou da cama, entrando no banheiro adjacente para atender a ligação. Ele achava que eu não podia ouvir. Ele estava errado.
— O que foi, Jéssica? — ele sibilou. — Eu disse que vou tirar o dia de folga... Não, você não pode vir aqui... Porque a Eliana está aqui, é por isso... Olha, apenas resolva isso. Te ligo mais tarde.
Ele voltou para o quarto, parecendo irritado. Eu o vi colocar o celular no bolso do roupão.
— Trabalho? — perguntei, fingindo sonolência.
— É — ele resmungou. — Emergência estúpida. Eu resolvi.
Ele desceu. Alguns minutos depois, o cheiro de café e bacon encheu a casa. Ele estava fazendo o café da manhã. Um grande gesto.
Ele subiu com uma bandeja carregada de comida. Panquecas, ovos, bacon, suco de laranja espremido na hora. Um banquete.
— Eu estava pensando — ele disse, colocando a bandeja na cama. — Você faz tanta coisa por aqui. Talvez devêssemos contratar uma governanta. Uma cozinheira, até. Para tirar um pouco da pressão de você.
Ele queria me substituir. De todas as maneiras.
— Não, obrigada — eu disse. — Gosto de cuidar da nossa casa. — Minha casa. Não por muito mais tempo.
Belisquei a comida, meu apetite havia sumido.
— Então — eu disse, olhando para ele por cima da minha xícara de café. — Estamos bem, você e eu?
Ele pareceu assustado.
— Claro que estamos bem. Por que você perguntaria isso?
— Por nada — eu disse.
Ele estendeu a mão sobre a bandeja e pegou a minha. A mão dele era quente e forte. Parecia a de um estranho.
— Eliana — ele disse, a voz carregada de sinceridade. — Eu te amo. Você sabe disso, certo? Eu nunca, jamais faria nada para te machucar. Você é o meu mundo.
Olhei em seus olhos, um azul profundo e sincero. Ele era um mentiroso fenomenal. Ou talvez ele mesmo acreditasse nisso.
— Eu morreria antes de te trair — ele disse.
Eu quase ri.
— Bom saber — eu disse, puxando minha mão. Levantei-me e caminhei até o armário. — Vou me vestir.
Ele pareceu aliviado, a conversa terminada.
Enquanto eu vestia um suéter, perguntei, casualmente:
— Então, onde você colocou meu presente de aniversário?
Ele congelou.
— Seu... presente?
— Da semana passada — eu disse, virando-me para encará-lo. — Você disse que tinha um para mim.
Ele era um cervo pego pelos faróis. Ele não tinha nada. Ele havia esquecido completamente.
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