
Quem É o Pai?
Capítulo 2
Considerado o balneário das famílias mais tra¬dicionais do país, Ocean City tinha vida pró¬pria e intensa, durante o ano inteiro.
Além de residências, escolas, igrejas, comuns em todas as ci¬dades do mundo, havia hotéis e pousadas suficientes para receber muitos turistas de verão. E, ultimamente, os visitantes tinham outra opção. Por toda a ilha, proliferavam os condomínios de luxo, de prédios ou casas, alugados por semana, mês ou temporada.
Muitas residências antigas tinham sido demolidas, sacrifi¬cadas em nome da construção do maior número possível de imóveis num pedaço mínimo de terra. Assim, as ruas compridas eram ladeadas por vários edifícios altos, ultramodernos, com vista fantástica para o oceano Atlântico.
Ali e acolá, algumas residências antigas de veraneio que, tei¬mosas, resistiam à febre do progresso e da especulação imobiliária.
Existiam também as mansões dos primeiros residentes de ve¬rão, construídas anos atrás, até mesmo antes da Segunda Guerra Mundial. Algumas delas, ao norte da ilha, eram mais deslum¬brantes do que a maioria das modernas e inovadoras construções de três andares com janelas panorâmicas de frente para o mar.
A mansão Chandler era uma dessas jóias raras, um dos doze bastiões de uma era áurea. Conservava o projeto inicial e original, com exceção da reforma da cozinha e dos banheiros, e a colocação do sistema de ar-condicionado. Tinha duas salas de visitas, uma de jantar e escritório, no térreo. No segundo andar, cinco dormi¬tórios, transformados em suítes, com móveis de cerejeira e tapetes orientais. No terceiro ficavam os aposentos de hóspedes.
A casa era rodeada por uma cerca viva, que floria quase o ano inteiro. Os registros giratórios dos esguichos eram abertos duas vezes ao dia para umedecer aquele oásis no meio de areia e cimento. A alameda curva levava à garagem para quatro carros, e o terreno um tanto elevado permitia uma vista pri¬vilegiada, o que, por si só, fazia com que o valor do imóvel chegasse aos milhões de dólares.
Nem por isso os Chandler pensavam em vender aquele pa¬raíso de verão, que lhes pertencia fazia seis décadas.
Sentada na varanda, segurando um copo com leite, Jéssica chorava.
Estava sozinha. Muito mesmo. Acreditara que lá encontraria um refúgio natural. Mas não. A casa imensa, vazia, só acen¬tuava sua solidão.
— Sou uma grande idiota. — Bebeu o restante do copo e fez uma careta. — Uma grande idiota que odeia leite.
Pelo menos, podia ser sincera consigo. Afinal, não tinha ninguém por perto para ouvi-la.
Ninguém...
E esse era o problema. Jéssica pedira aos familiares que a deixassem só, e todos obedeceram.
Para muitas famílias, isso faria sentido. Alguém faz um pedido razoável, e todos reagem de uma forma razoável.
Mas a dela? A avó? Deixar Jéssica partir e ainda ajudá-la a fazer as malas?! E depois, não telefonar todos os dias, não visitá-la duas vezes por semana, nem fazer-lhe mil e uma perguntas?
Allie nunca se preocupara em arrumar desculpas para te¬lefonemas, visitas... Seria comum que chegasse, se sentasse na varanda e, sem preâmbulos, perguntasse:
— E então? Disposta a falar ou terei de arrancar as palavras com saca-rolhas?
Não. Jéssica não aceitava isso. Não deveria estar sozinha, mesmo depois de afirmar que queria solidão.
E pensar que sempre acreditara que os parentes a amavam...
Pelo visto, enganara-se.
Allie deveria estar ocupada com Joe e Maddy, que na certa teriam voltado da lua-de-mel. Afinal, até mesmo os milionários, proprietários de grandes empresas, precisam voltar ao traba¬lho, um dia.
Joe e Maddy moravam na residência vizinha à mansão. De¬certo, Allie estaria se metendo na vida deles. Isso até o casal cansar-se de palpites e decidir colocar o imóvel à venda...
Jéssica meneou a cabeça. Pelo menos, Joe e Maddy tinham a atenção de alguém.
Mas ela estava abandonada à própria sorte. E se, de repente, caísse na cozinha e ficasse impossibilitada de alcançar o tele¬fone para pedir ajuda? E se tivesse sofrido um acidente na estrada? Ninguém ficaria sabendo. Ninguém!
Não, a família não pensara em nada disso. Ninguém ligara uma única vez, desde que ela chegara a Ocean City.
Uma semana. Sete dias. Sete noites.
Jéssica foi para a cozinha. Deixou a velha porta de madeira bater com estrondo a sua passagem.
Esquecida. Ignorada. Negligenciada. Era muito triste. So¬bretudo porque sempre fora uma boa menina. Nunca causara problemas, nem desgostos, nem aborrecimentos.
Olhou a geladeira repleta de comidas saudáveis. Depois, observou o freezer cheio de sorvetes de vários sabores.
— Não é um derivado de leite? — justificou-se, servindo-se de uma porção de sorvete de chocolate.
Voltou à varanda e sentou-se no parapeito. Na rua, algumas pessoas seguiam em direção à praia. Gente alegre, conversando e rindo.
Os olhos de Jéssica encheram-se de lágrimas. Era bom ver pessoas felizes. Lembrou-se da infância, quando, de mãos da¬das, ela e Maddy seguiam Ryan por aquele mesmo caminho. Allie e o avô vinham logo atrás, carregando cadeiras, guarda-sóis e brinquedos.
Mesmo quando os pais eram vivos, eram os avós quem os levavam à praia, ensinando-os a pular ondas, auxiliando-os a construir castelos de areia.
Dias de liberdade, verões fantásticos. Depois, os pais deles morreram num desastre aéreo. Apesar da tragédia, as crianças não ficaram traumatizadas, nem tiveram o futuro comprome¬tido, protegidos pelo amor e o carinho de Allie e do avô.
Agora, o avô também partira. E Allie, graças aos cosméticos modernos e às cirurgias milagrosas, parecia mais jovem a cada ano que passava.
Maddy estava casada e radiante. Ryan dirigia com sucesso os negócios da família e, pelo jeito, não pretendia casar-se tão cedo.
E Jéssica? Suspirou, colocando a mão no ventre.
Oh, sim. Jéssica não podia ser esquecida...
Jéssica Chandler, vinte e oito anos, quase vinte e nove, logo trinta.
Uma confusão hormonal, com o estômago sensível e a mente fervilhando com pensamentos que nada tinham a ver com seu modo de encarar a existência.
Jéssica, a menina bem comportada, estava prestes a tor¬nar-se mãe solteira.
Comeu outro bocado de sorvete, deixando-o derreter na boca. Mais cedo ou mais tarde, teria de contar a todos que ia ser mãe.
Sorriu, triste. Isso os obrigaria a acreditar que a filha do meio também era capaz de causar-lhes aborrecimentos.
Matthew atravessou a ponte e entrou em Ocean City, ainda ensaiando o discurso, corrigindo frases, eliminando parágrafos e incluindo outros.
Estava difícil condensar aquela novela de explicações, desculpas, justificativas. Isso se Jéssica lhe desse oportunidade para recitá-la.
E, com tudo o que ele tinha a dizer, com tudo o que tinha a explicar, não podia falar a única coisa que prenderia a atenção de Jéssica.
Na véspera, Matthew saíra do escritório de Ryan direto para a mansão Chandler. Encontrou Allie que estava jogando tênis com a governanta e inimiga cordial, a sra. Ballantine. A empregada levou-o até a quadra.
A indiscrição de Ryan, deixando escapar que a avó reco¬mendara-lhe para revelar o paradeiro de Jéssica, dera-lhe co¬ragem para procurar a sra. Chandler. Matthew tinha certeza de que havia algo mais no desaparecimento de Jéssica, além da misteriosa "crise existencial" que ela enfrentava.
Matthew não acreditara nessa versão. Jéssica Chandler era uma mulher consciente, responsável e racional. Jamais ficaria re¬clusa em casa ou sairia em férias, deixando as Indústrias Chandler de lado, em pleno ano fiscal. Não precisava ser um gênio, ou um mago, para perceber que havia alguma coisa errada. Muito errada.
Não que Matthew não soubesse disso. Afinal, era ele o cau¬sador de tudo.
Errara, sim. O primeiro erro fora apaixonar-se por uma mulher que, a exemplo de sua própria irmã, estava totalmente comprometida com a carreira. E Matthew queria uma esposa, filhos, família.
O noivado com Maddy fora o segundo erro. Ele e Maddy pareciam ter os mesmos objetivos, os mesmos sonhos. Acredi¬tara que seria suficiente fazer parte da adorável e aconchegante família Chandler.
Contudo, não contar a Jéssica que sentira-se aliviado quando Maddy rompera o noivado, ter permitido que Jéssica o confor¬tasse e que esse conforto atingisse níveis de maior intimidade... Bem, isso poderia colocá-lo em segundo lugar no concurso de Idiota do Ano.
O pedido de desculpas, na manhã seguinte, por ter feito amor com ela, sem sombra de dúvida, o levaria ao pódio, com coroa de folhas de louro e tudo.
O engraçado foi que, ao vê-lo, Almira interrompera o jogo e, lançando um olhar significativo para a sra. Ballantine, fora ao encontro dele. Parecia ansiosa para conversar.
Matthew se lembrava com uma clareza impressionante cada sílaba que trocaram, como se estivesse revivendo tudo naquele exato instante.
— Querido Matt, há quanto tempo! — Allie era uma maravilha. Setenta anos confessos e aparência de cinqüenta. Talvez, trinta. Era muito mais do que avó de três netos. Era amiga de verdade, a pessoa que os ensinara sobre amor e respeito. E também a não se sentirem ridículos por amarem e respeitarem.
— Desculpe-me por não ter vindo antes, Allie. — Matthew ofereceu-lhe o braço para entrarem na casa. — Foi o aviso de "Entrada proibida" que Jéssica colocou no jardim que me man-teve a distância.
— Você deveria sentir-se envergonhado por tê-la atendido. — Almira encostou a cabeça no ombro dele. — Mas, obediente, você tem seus limites. É sempre bom confirmar o que eu já sabia há muito tempo. Confio muito em você, Matt. Ryan contou onde Jessie está? E deixou escapar que eu disse que era para contar-lhe?
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