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Capa do romance Quem É o Pai?

Quem É o Pai?

Faltam sete meses para o meu nascimento, mas decidi contar nossa história. Mamãe esconde minha vinda, deixando o papai confuso diante de sua aparente frieza. Embora ela o ame profundamente, ele jamais disse que a ama, mesmo após a noite intensa que me gerou. Sei que os dois precisam se ajustar, pois bebês trazem esperança. Como fruto dessa união, meu único desejo é que eles superem as incertezas e alcancem, enfim, o esperado final feliz em família.
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Capítulo 3

Jéssica ouviu o ruído de um carro na alameda. Prendeu a respiração, esperando que desse meia-volta e se afastasse.

O único inconveniente de morar no final da avenida à bei¬ra-mar era aquele. Muitos motoristas costumavam manobrar o automóvel na entrada da mansão para fazerem o retorno.

Era ingenuidade ficar apreensiva, preocupada com o veículo. Tolice achar que o motorista tinha alguma coisa a ver com ela.

Mas Jéssica era assim e continuaria sendo assim: ingênua. Muitas vezes, até um pouco irracional, apesar da aparente sensatez. E grávida, então, tornara-se um poço de sensibilidade e de imaginação fértil.

Ora, era apenas um carro. Nada que justificasse os arrepios de alarmes e as reviravoltas no estômago muito frágil.

Só que aquele automóvel não fez a manobra para o retorno. Jéssica ouviu o ruído do motor cessar e as batidas aceleradas de seu coração. Depois, ouviu a porta se fechando.

Não era um bom sinal.

Maddy? Podia ser. Afinal, ela e Joe tinham voltado da lua-de-mel. Seria natural que a irmã, ignorando seus apelos para deixarem-na sozinha, aparecesse para invadir sua solidão, que no início parecera-lhe uma boa idéia, mas que agora a estava enlouquecendo.

Não podia ser Allie, A avó nunca ia para a praia antes do final de setembro, quando a maioria dos turistas já retornara para seus lares, deixando a praia vazia o suficiente para ela aproveitá-la.

Se Allie não irrompera logo nos primeiros dias, decerto, não o faria agora, uma semana depois. Esse não era seu estilo.

Quem seria, portanto?

Ryan? Não, Ryan não. Sem Jéssica para ajudá-lo, ele estaria atolado no trabalho. Além disso, Ryan nunca se divertia.

Como Jéssica, o irmão era um Chandler sério, com uma dose bem pequena de senso de humor, ao contrário da avó e da irmã caçula. Abelhas operárias, assim eram Jéssica e Ryan. Allie e Maddy eram as abelhas-mestras. Jéssica apertou a taça de sorvete.

O processo de eliminação deixava-a com um nome, uma pes¬soa, e não sabia se ficaria contente ou furiosa por vê-lo, se o mandaria embora ou se cairia nos braços dele.

Jéssica gostaria de poder olhar para Matthew, de lembrar o que acontecera, sem mergulhar num mar de amor, confusão e culpa.

Antes que tivesse tempo de considerar as possíveis reações, Matthew apareceu no jardim, caminhando apressado em dire¬ção à entrada. Não parecia estar melhor do que ela.

Acostumada a vê-lo sempre vestido com roupas formais, com ternos e camisas impecáveis, Jéssica até sentiu um certo as¬sombro ao deparar-se com Matthew de calça esporte e camiseta.

Jéssica gostava dos cabelos dele, pretos como as noites sem luar, mas nunca os vira tão desarrumados e compridos.

Havia alguma coisa diferente nos passos sempre seguros dele, como se Matthew tivesse vindo para cumprir uma missão. Jéssica lamentou não poder ver através dos óculos escuros que cobriam-lhe as íris azuis, duas turquesas que ela considerava serem as janelas da mente calma, fria, controlada, às vezes crítica, de Matthew Garvey.

Não, Jéssica não conseguia ler nos olhos dele. Podia apenas ver os lábios comprimidos, os passos largos, fazendo diminuir a distância entre ambos. Ela inclinou a cabeça. Era impressão sua, ou Matthew parecia zangado?

Quem era ele para ficar bravo?!

Jéssica endireitou os ombros e ergueu o queixo, pronta para a batalha. Afinal, Matthew aparecera sem ser convidado, inva¬dindo a privacidade dela... mais sexy e irresistível do que nunca...

Droga! O queixo não ficava firme, insistindo em tremer. As lágrimas, tão comuns de uns tempos para cá, assomaram, anuviando a visão.

Abandonada pela coragem, traída pelas incontroláveis rea¬ções emocionais a todos os estímulos, desde um sorvete até ao canto matinal de um sabiá, Jéssica fez algo brilhante. Virou-se e saiu correndo em direção à porta.

— Jéssica, espere! Por favor, Jessie!

Na certa, foi o "por favor" que a deteve. Ou talvez, o tom cansado, ainda que esperançoso, da voz de Matthew. De costas, ela indagou:

— O que quer, Matt? Se estiver sentindo necessidade de desculpar-se de novo, saiba que perdeu a viagem. Não quero mais ouvir isso.

Quando ele falou, já estava bem atrás dela. Jéssica podia sentir o calor do corpo dele, a respiração morna em sua nuca.

— E se eu pedir desculpas só por pedir? Adianta? — Matthew sentiu um arrepio ao ouvir as próprias palavras, que soaram meio irreverentes, petulantes. Mas estava sendo sincero.

Jéssica assumiu sua postura usual e perfeita. Depois, se voltou, encarando-o.

— Você sabe como me senti, Matt?

— Péssima. Posso imaginar. — Ele a segurou pelo cotovelo, tentando conduzi-la para dentro de casa.

Jéssica soltou-se, afastando-o.

— Péssima?! Você disse "péssima"?!

Algumas pessoas que retornavam da praia olharam para ver o que estava acontecendo na varanda da mansão. Ao per¬ceber a audiência inesperada, Jéssica entrou e foi direto para a cozinha, seguida por Matthew.

— Sabe de uma coisa? Essa é a palavra exata. Péssima. Fizemos amor. Na manhã seguinte, você me confessou seu arrependimento. O que você esperava? Como eu devia ter ficado depois disso? Lisonjeada?

— Eu sei, Jéssica, eu sei. — Estava encantado com rubor que cobriu as faces pálidas, com a chama que inflamava seu olhar sempre sereno, com as mechas caindo-lhe no rosto.

Ela parecia... desalinhada. Matthew nunca a vira assim. Jéssica estava ainda mais placidamente bonita. E vulnerável. Matthew gostou do que viu.

— Por favor, Jéssica, deixe-me explicar. No momento em que falei aquilo, percebi que fizera bobagem. Expressei-me mal, acredite. Quis pedir desculpas por ter me aproveitado de você, de sua amizade, de seu apoio... e acabei estragando tudo, como um perfeito idiota.

— Não me diga! — Jéssica exclamou, contente com a nova sensação de liberdade que a invadia. A liberdade de ficar furiosa e poder extravasar essa fúria. Talvez, alguns daqueles novos e latentes hormônios não fossem assim tão maus. — Não po¬deria ter escolhido melhor os termos quando disse que aquilo não tornaria a acontecer.

Ela colocou a taça de sorvete na pia.

— "Bebi demais, estava carente, então agarrei a primeira mu¬lher que se ofereceu para mim, a que estava mais à mão, e usei-a"— zombou Jéssica com expressão séria. — Acredita mesmo que eu poderia ser usada, Matthew Garvey? Que concordaria com algo assim? Tem idéia do quanto isso é insultante?!

Matthew abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Jéssica interrompeu-o, sabendo que ele diria algo parecido com "Sinto muito, Jessie". E ela não suportaria ouvir isso de novo.

— Sabe de uma coisa, amigo? Eu não lamento o acontecido. Nem um pouco. E agora? O que me diz, Matt?

Matthew sorriu.

— Obrigado? — ele arriscou, com ar angelical.

De imediato, a ira de Jéssica evaporou-se como o orvalho numa manhã de verão.

— Bobo! — resmungou, abrindo um dos armários e pegando dois copos. — Quer limonada? São duas horas e meia de Allentown até aqui. Você deve estar com sede.

— Hoje é sábado, Jéssica, dia em que todo o mundo resolve ir à praia. Saí de casa antes das seis e dirigi quase quatro horas. A estrada estava repleta de vans e peruas lotadas de gente, ba¬gagens e bicicletas. Mas, como só ontem descobri que você estava aqui, não tinha outra opção senão enfrentar o transito.

— Que doçura... — Jéssica entregou-lhe um copo de suco. Depois, sentou-se diante da enorme mesa de pinho. — Não sei se você percebeu, mas não perguntei quem lhe deu a informação.

Matthew riu, relaxando ainda mais. Estava ali, junto de Jéssica, e ela não o matara. Quanta sorte para um só dia!

— Como é mesmo que as crianças falam? Vou lhe dar três chances, mas não vale adivinhar nas duas primeiras. Não é isso mesmo?

— Allie. Diga-me, vovó lhe forneceu um mapa também?

— Não foi preciso. Lembre-se, eu já estive aqui.

Jéssica retesou-se, e Matthew desejou ter mordido a língua. "Seu tonto! De novo, falando besteiras. Dois passos para a frente, dois para trás", pensou ele. Sim, Matthew já estivera no chalé de praia dos Chandler. Com Maddy, logo depois do anúncio do noi¬vado. Na verdade, a grande festa de comemoração acontecera ali.

— Oh, sim.. — Jéssica disse, após um breve momento. — Tinha esquecido. Maddy e Joe já voltaram, não?

— Chegaram logo que você veio para cá, bronzeados e felizes, abrindo as dezenas de caixas que trouxeram na viagem. Não sei qual será o estilo da decoração da residência deles, mas decerto trouxeram tantos objetos de arte e antigüidades, que poderiam até vender.

Jéssica achou graça. Conhecia o gosto eclético da irmã, que ia desde as peças mais requintadas até as mais estranhas, como abajures feitos de sucata.

— Eu diria que a decoração será bem democrática. E sou capaz de apostar como Maddy levou tudo o que encontrou pela frente em matéria de livros de receitas e utensílios de cozinha. Joe não sabia, mas se casou com a rainha do lar. Se ele não se cuidar, daqui a seis meses estará redondo como uma moeda.

Logo o sorriso de Jéssica desapareceu, e perguntou:

— Como está enfrentando, Matt? Deve ser embaraçoso ver Maddy e Joe juntos, não?

Esse era o momento ideal para a verdade. A hora de revelar a Jéssica o que o irmão dela, Ryan, já adivinhara. O que Allie, de alguma forma, descobrira meses atrás. Tanto que tratara de trazer Joe de volta à cena.

Deveria confessar a Jéssica que ele estava a ponto de romper o noivado quando Maddy revelou que amava Joe O'Malley.

Não. A ocasião certa teria sido aquela, no mirante. Se tivesse dito a verdade naquela noite, Jéssica teria percebido que Matthew não aceitara a entrega dela, porque estava com o coração partido.

Já deveria ter tido coragem para revelar seus sentimentos semanas, meses, anos atrás. Antes de, num impulsivo mara¬vilhoso, ter feito amor com ela.

Agora, não. Não, com Jéssica carregando um filho seu no ventre.

Ela não acreditaria nele. Pensaria, sim, que Matthew se aproveitara dela. De fato, não era muito agradável imaginar que ele aceitara a docilidade de Jéssica sem revelar seu amor.

Jéssica imaginaria que Allie contara-lhe sobre a gravidez e, por esse motivo, Matthew a procurara, fingindo estar apai¬xonado, querendo casar-se por uma questão de obrigação, de pena ou de culpa.

Sabendo que Ryan jamais o trairia, e rezando para Maddy não abrir a boca, ele fez a coisa mais óbvia. A mais lógica. A mais correta, acima de tudo.

Mentiu descaradamente.

— Estou ótimo, Jessie. Começo a achar que Maddy tomou a decisão mais adequada.

Jéssica mordeu o lábio.

— Sei. Sempre bancando o cavalheiro, não é mesmo? Maddy esperou até as vésperas do casamento para dizer-lhe que amava outro homem. Um milionário; quase bilionário, se as revistas estiverem certas. Se bem que Joe era um ilustre desconhecido quando Maddy o conheceu.

Inclinando a cabeça para um lado, Jéssica o fitou com os olhos semicerrados.

— O dinheiro de Joe não tem importância para Maddy. Importa para você?

— Jéssica, temos mesmo de falar sobre isso? Não tem nada a ver conosco e...

Com um gesto de mão, ela pediu-lhe silêncio.

— Você está começando a achar que Maddy tomou a decisão certa? O que isso significa, Matt? Não se trata de escolher entre carne ou peixe, ou entre vinho branco ou tinto, e sim de um casamento entre duas pessoas que se amam, percebeu?

— Nós tínhamos muito em comum, Jéssica. — Matthew entrou no caminho da verdade, pelo menos parcial, consciente de que o que dizia fazia-o parecer lógico, calculista demais para um noivo apaixonado. — Tínhamos as mesmas metas.

— Metas? Que romântico! Você amava minha irmã, ou esse enlace seria assim uma espécie de parceria comercial? Agora, que ela o trocou por outro melhor, você está começando a achar que Maddy fez o movimento certo, a fusão certa? É patético! Ora, Matthew, o que é isso? Será que estou sendo irracional por começar a acreditar que suas razões para casar-se com minha irmã eram patéticas? E minha preocupação por seus sentimentos, minha iniciativa de segui-lo até o mirante naquela noite, foram piores do que isso? Meu Deus! Maddy sabe a sorte que teve ao escapar de seu conceito de matrimônio?

Matthew a fitou por um longo momento, tentando lembrar que Jéssica estava grávida e que mulheres grávidas poderiam ser irracionais.

Só que Jéssica Chandler nunca fora assim. Ela sempre se mostrara ponderada e comedida. Mesmo naquele momento, esta sendo racional, de uma forma meio distorcida, usando o intelecto e as emoções para chegar às conclusões lógicas que o faziam parecer menos terrível.

— Não vou responder a essas últimas perguntas, Jessie. — Matthew colocou o copo vazio na pia, deixando a água correr sobre ele, para a polpa do limão não grudar nas bordas. Suas mãos tremiam de leve. — Na verdade, não direi mais nem uma palavra, neste momento. Porque, se eu disser, acabaremos dis¬cutindo, e não foi por isso que vim até aqui. Mas quero dizer-lhe que, o que parecia ser boas razões para Maddy e eu nos casarmos, de repente perdeu o sentido. Maddy rompeu o noivado porque o amor por Joe era muito maior do que o sentido de segurança e conforto que tinha comigo. Maddy está feliz, e eu me congratulo por ela. Fim da história. Agora, diga onde é meu quarto, certo?

— Seu... seu quarto? Quem disse que vai ficar aqui?

Ele gostou do tremor na voz dela.

— Allie, Ryan e Maddy. — Sorriu. — Como vocês têm par¬ticipação igual no imóvel, você foi voto vencido. Bem democrá¬tico, não?

Jéssica conteve-se para não atirar o copo direto na cabeça de Matthew. Porém, se o fizesse, teria de limpar a sujeira e o ferimento dele. Então, preferiu não fazê-lo.

— Não o quero aqui, Matt. Isso conta?

Ele fingiu refletir.

— Não, acho que não. Você não deveria ficar sozinha... — Quase acrescentou "no seu estado". Mas calou-se a tempo. — Além disso, uma vez que eu não tive lua-de-mel, creio que mereço umas férias. A propósito, tenho o mês todo livre. Nada mal, sendo o patrão.

— Um mês? Vou subir e fazer minhas malas.

Matthew deixou-a dar três passos em direção ao hall, de¬pois disse:

— Fugindo de novo, Jessie? Não combina com você. É bem contrário a seu caráter.

Jéssica parou e voltou-se, enfurecida.

— Não diga! O que sabe a meu respeito?

— O suficiente para saber que você não está aqui em férias, Jéssica. Está fugindo. De mim, de meus telefonemas, do que aconteceu entre nós. Sei também que não pode continuar fu¬gindo, porque vou segui-la, Jessie, acredite, até o fim do mundo, se for preciso. Nada de melodramas. Você e eu vamos resolver este assunto, de um modo ou de outro.

— Resolver? Não estou entendendo.

Matthew encostou-se na pia.

— Sou o melhor amigo de Ryan. Quase casei com sua irmã. Freqüento a mansão Chandler há uns cinco anos. Fiz amor com você no mirante da família. Temos de assumir esse último fato. Ou colocamos uma pedra sobre tudo, ou então, enfrenta¬mos a realidade, juntos. Faço parte da família Chandler, e pretendo continuar fazendo. E sendo parte de sua vida.

Jéssica baixou o olhar.

— Mesmo que eu não o queira?

— Mesmo que você pense que não me quer. Nós partilhamos algo muito especial, Jéssica. Raro, intenso, quase surreal. Não tem curiosidade de entender por que aconteceu?

— Já sei. Você bebeu demais depois de ser rejeitado por Maddy. Então, ficou ali, bancando o cavalheiro ofendido, mas resignado. Aconteceu, porque eu senti... pena, e resolvi confor¬tá-lo, e nós... Bem, fomos arrastados pelo momento. Foi um erro, Matt, um grande erro.

— Entendo. — Suspirando, Matthew afastou-se da pia. — Quan¬do você conseguir dizer tudo isso olhando dentro dos meus olhos...

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