
Quatro Anos Construídos Sobre Falsidade
Capítulo 3
O apartamento parecia uma jaula depois que saí do hospital. Cada canto guardava uma memória, um fantasma do futuro que eu imaginei com Damião. O ar estava denso com o peso da minha confiança estilhaçada. Vaguei sem rumo, minha mente repassando suas palavras, suas desculpas, seu descarte casual de nosso relacionamento de uma década. "Um mal-entendido." A frase ecoava, zombando de mim.
Eu precisava escapar. Precisava de espaço para respirar, para pensar, para simplesmente sentir sem que sua presença me sufocasse. Peguei as chaves do meu carro e dirigi, as luzes da cidade um borrão. Eu não sabia para onde estava indo, apenas que tinha que ser para longe dele. Longe das mentiras.
De volta ao meu apartamento, o silêncio era ensurdecedor. Desabei no sofá, as lágrimas que eu segurara finalmente vindo. Elas queimavam, quentes e raivosas, em minhas bochechas. Minhas mãos se atrapalharam com uma almofada, e uma pequena caixa de veludo caiu, rolando para o chão. Dentro, aninhado em cetim, estava o anel de noivado que ele me dera há dois anos. Aquele que eu ainda usava, apesar das rejeições anuais.
Lembrei-me do dia em que ele me pediu em casamento. Em um terraço com vista para a cidade, banhado pelo brilho de um pôr do sol. "Augusta", ele sussurrara, ajoelhando-se, "Você é meu tudo. Case-se comigo." Lembrei-me da alegria, da certeza absoluta de que nosso futuro estava finalmente ao nosso alcance. Agora, a memória era uma piada cruel. O anel parecia pesado, um símbolo de uma promessa quebrada muito antes de poder ser cumprida.
Eu não conseguia mais olhar para ele. Não conseguia viver cercada por essas lembranças de um amor que nunca foi verdadeiramente meu. Minha decisão se solidificou. Era hora de tirá-lo da minha vida, pedaço por pedaço doloroso. Comecei com as fotos, depois suas roupas, seus livros, cada item que carregava sua presença. Foi mais difícil do que eu esperava. Cada objeto era uma memória, um pequeno fragmento da vida que quase tivemos, cortando meus dedos enquanto eu tentava descartá-lo.
O processo levou dias. Dias de lágrimas, de raiva, de profunda exaustão física e emocional. Embalei tudo em caixas, com a intenção de enviá-las para o escritório dele. Eu não queria vê-lo. Eu não podia.
Então veio a decisão maior. Este apartamento, nosso apartamento, estava cheio demais de fantasmas. Liguei para um corretor de imóveis. "Quero vender", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "O mais rápido possível." O corretor pareceu surpreso, mas concordou. Eu sabia que era drástico. Mas eu precisava de um recomeço. Uma nova vida.
Mergulhei no trabalho, na logística de vender, mudar e recomeçar. A atividade constante mantinha o peso esmagador do meu coração partido à distância, pelo menos por algumas horas de cada vez. Ignorei as ligações e mensagens implacáveis de Damião. Meu celular vibrava constantemente, uma mosca persistente e irritante. Eu não atenderia. Eu não podia.
Uma noite, meu celular tocou novamente. Era Damião. Meu dedo pairou sobre o botão de ignorar, mas então hesitei. Eu precisava cortar os laços de forma limpa. Isso precisava ser um fim definitivo, não um desvanecimento lento e doloroso. Preparei-me e atendi.
"Augusta? Você atendeu! Graças a Deus." Sua voz estava cheia de alívio. "Saí do hospital. Estou indo te ver. Tenho uma surpresa planejada. Uma grande. Algo especial para nós."
Uma surpresa? Meu estômago revirou. Ele ainda estava completamente alheio, completamente envolvido em sua própria narrativa de redenção. "Damião", comecei, minha voz fria, "não se incomode."
"Não, não, você vai adorar isso", ele continuou apressadamente, ignorando meu tom. "Eu arranjei para revisitarmos nosso antigo lugar. O lugar onde tivemos nosso primeiro encontro de verdade. Até consegui que eles recriassem o menu. Vai ser perfeito. Esteja pronta em uma hora." Ele desligou antes que eu pudesse responder.
Meu maxilar se contraiu. Ele ainda achava que podia consertar isso com um gesto romântico. Ele ainda achava que eu era a mesma garota ingênua que cairia por sua devoção performática. Mas aquela garota se fora. Enterrada sob quatro anos de suas mentiras. Eu sabia o que tinha que fazer. Esta era minha chance de acabar com tudo, de uma vez por todas. Cara a cara.
Uma hora depois, ouvi seu carro parar. Respirei fundo, preparando-me. A campainha tocou. Abri a porta. Ele estava lá, um sorriso largo e esperançoso no rosto, segurando uma venda de seda.
"Feche os olhos, meu amor", ele disse, sua voz suave, provocante. "É uma surpresa, lembra?"
Olhei para ele, entorpecida. A palavra "amor" parecia uma língua estrangeira em seus lábios. Fechei os olhos lentamente, deixando-o amarrar a venda. A intimidade forçada parecia uma violação. Ele me levou para o carro, sua mão quente em meu braço. O calor não fez nada para derreter o gelo em minhas veias.
A viagem foi silenciosa. Ouvi o zumbido do motor, o tráfego familiar de São Paulo. Minha mente vagou. Lembrei-me do nosso primeiro encontro naquele pequeno restaurante italiano. As risadas nervosas, os sonhos compartilhados, a crença ingênua no para sempre. Aquela memória parecia uma relíquia de outra vida.
Paramos. Ele gentilmente desamarrou a venda. "Surpresa!", ele sussurrou, sua voz cheia de antecipação.
Estávamos de volta. O mesmo restaurante pitoresco, mal iluminado, o aroma de alho e ervas enchendo o ar. Havia uma pequena mesa, posta para dois, perto da janela. Rosas vermelhas a adornavam, assim como naquela noite.
"Feliz aniversário, Augusta", ele disse, seus olhos brilhando. "Nosso quinto aniversário de... quase nos casarmos." Ele riu, um som autodepreciativo. "Eu sei que é um pouco cedo, mas eu queria torná-lo especial. Para te mostrar o quanto eu ainda quero isso. O quanto eu ainda quero nós."
Aniversário. Quinto aniversário. As palavras pairavam no ar, um soco no meu estômago. Hoje não era nosso aniversário. Hoje era o aniversário de Horácio. O mesmo dia que Damião escolheu para alterar os documentos de aprovação, quatro anos atrás. O dia em que seu avô supostamente nos rejeitou. O dia em que ele escolheu Cíntia em vez de mim.
Seu grande gesto, sua suposta surpresa, foi construído sobre outra camada de engano. Ele havia esquecido. Ou não se importava. Ele estava recriando uma memória, mas era apenas uma performance. Uma performance para uma mulher que ele pensava que ainda podia enganar.
"É lindo, Damião", eu disse, minha voz plana. Meu coração parecia uma pedra. Olhei ao redor, absorvendo a cena. As rosas pareciam um pouco murchas. As velas não estavam bem retas. A toalha de mesa tinha uma mancha fraca. Estava tudo um pouco... estranho. Desarticulado. Como se tivesse sido montado às pressas por alguém que não se importava de verdade com os detalhes.
Ele franziu a testa ligeiramente, notando minha falta de entusiasmo. "O que há de errado? Você não gostou?"
"Não, está tudo bem", menti. "É que..."
Antes que eu pudesse terminar, um garçom se apressou, parecendo agitado. "Sr. Almeida, sinto muito, senhor! As rosas vermelhas que pedimos não chegaram. A Cíntia insistiu em trazer estas ela mesma. Ela disse que eram 'mais autênticas para a época'." Ele gesticulou vagamente para o buquê de aparência um pouco triste. "E o menu especial... ela reorganizou alguns dos pratos também. Disse que 'melhoraria a precisão histórica'." O garçom estava claramente aterrorizado, seus olhos arregalados.
O rosto de Damião escureceu. Ele lançou um olhar furioso para o garçom. "Cíntia? O que ela estava fazendo aqui?"
"Ela supervisionou toda a montagem, senhor", o garçom gaguejou, encolhendo-se sob seu olhar. "Disse que sabia exatamente o que o senhor iria querer."
Meu coração, já uma paisagem árida, sentiu outra brisa fria. Cíntia. Sempre Cíntia. Mesmo em sua tentativa de me reconquistar, sua sombra pairava grande. Ela não apenas esteve presente; ela havia orquestrado. Sabotado sua tentativa. Ou talvez, ela não o tivesse sabotado. Talvez ele tivesse pedido a ela, dando-lhe uma desculpa para se envolver, para controlar.
Damião virou-se para mim, um sorriso forçado no rosto, tentando salvar o momento. "Não é nada, Augusta. Apenas a Cíntia sendo... excessivamente zelosa. Eu vou cuidar disso. Ela será punida."
Punida. As palavras soaram vazias. Ele a repreenderia, depois a perdoaria, e então ela estaria de volta, agarrada a ele, mais indispensável do que nunca. Eu conhecia seu padrão. Eu o via há anos.
"Não há necessidade, Damião", eu disse, minha voz calma, resoluta. A última centelha de esperança, de anseio pelo homem que eu conhecera, finalmente morrera. "Não importa o que a Cíntia fez. Isso... isso não vai funcionar."
Ele olhou para mim, um lampejo de medo em seus olhos. "Do que você está falando? Augusta, pode funcionar. Podemos consertar a gente."
Nesse momento, seu celular vibrou. Ele olhou para a tela, uma expressão preocupada cruzando seu rosto. Eu vi o nome de Cíntia piscar no identificador de chamadas. Ele hesitou, depois olhou para mim, um pedido de desculpas silencioso em seus olhos, como se pedisse permissão.
"Vá em frente", eu disse, minha voz distante. "Atenda." Eu sabia que ele atenderia. Ele sempre atendia. Ele sempre a escolhia, de alguma forma pequena e insidiosa, em vez de mim.
Ele atendeu, de costas para mim. Sua voz era baixa, em tons sussurrados. "Cíntia? O que foi? O que há de errado?" Seu rosto empalideceu, seus olhos arregalados de alarme. "O quê? Você está falando sério? Estou indo. Fique aí." Ele desligou, suas mãos visivelmente trêmulas.
Ele se virou para mim, seus olhos frenéticos. "Augusta, eu tenho que ir. A Cíntia... ela está em apuros. Ela disse que está no cais abandonado, e não está segura."
O cais abandonado. Seu melodrama, sua manipulação, sempre tão perfeitamente cronometrados. Meu maxilar se contraiu. Era isso. A gota d'água. Ele estava me deixando, de novo, por ela. Na noite em que supostamente estava tentando me reconquistar.
"Vá", eu disse, minha voz vazia. "Vá para ela."
Ele hesitou, um olhar fugaz de confusão em seu rosto. "Augusta, eu juro, volto logo. Podemos terminar o jantar, conversar sobre nós..."
"Não, Damião", interrompi, minha voz desprovida de qualquer calor. "Não existe mais 'nós'. Não existe há muito tempo." Meu olhar encontrou o dele, inabalável. "Acabou."
Seus olhos se arregalaram, o choque dando lugar à dor crua. Ele abriu a boca para protestar, mas a chamada frenética de Cíntia já havia cortado o último fio entre nós. Ele se virou, saindo correndo do restaurante sem outra palavra, deixando-me sozinha na mesa com as rosas tristes e a verdade fria e dura. Uma profunda sensação de finalidade me invadiu, pesada, mas também libertadora.
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