Capa do romance Quatro Anos Construídos Sobre Falsidade

Quatro Anos Construídos Sobre Falsidade

9.6 / 10.0
Augusta viveu quatro anos convicta de que Damião enfrentava a fúria do avô por amor a ela. Contudo, a descoberta de um documento revela que os sacrifícios dele eram uma farsa para encobrir sua devoção à assistente, Cíntia. Diante da traição e da mentira arquitetada, Augusta percebe que foi apenas um peão em um jogo emocional. Ao ser abandonada novamente, ela decide deixar São Paulo para recomeçar, jurando jamais aceitar ser a segunda opção de alguém.

Quatro Anos Construídos Sobre Falsidade Capítulo 1

Por quatro anos, eu acreditei que meu noivo, Damião, estava lutando por nós. Eu o vi suportar os castigos cruéis de seu avô — exílio, ruína financeira, humilhação pública — tudo porque o velho supostamente se recusava a aprovar nosso casamento. Eu esperei, acreditando que seu sacrifício era a prova máxima de seu amor.

Então, encontrei o documento verdadeiro escondido em seu escritório. Não era uma rejeição. Era uma aprovação, carimbada e datada, com um minúsculo "não" falsificado, rabiscado com uma tinta diferente.

A luta de quatro anos inteira era uma mentira.

Quando o confrontei, ele desmoronou. Ele fez isso por sua assistente obsessiva, Cíntia.

"Ela não consegue viver sem mim, Augusta", ele implorou. "Ela precisa de mim."

Meu mundo desabou. A devoção dele não era para mim; era uma encenação para agradar outra mulher. Todos os seus "sacrifícios" eram apenas uma forma cruel de me manter esperando enquanto ele bancava o herói para outra pessoa.

Então, quando ele me abandonou uma última vez para correr para o lado de Cíntia, eu fiz minha escolha. Arrumei minhas malas, deixei São Paulo e comecei uma nova vida, determinada a nunca mais ser a segunda opção de ninguém.

Capítulo 1

Meu coração se partiu em mil pedaços no momento em que vi o documento verdadeiro. Não aquele que Damião me mostrava todo ano, não a recusa educada de seu avô, mas a verdadeira aprovação, carimbada e datada, escondida. Não era uma rejeição. Era uma mentira. Quatro anos da minha vida, quatro anos esperando pacientemente, quatro anos acreditando na luta dele por nós — tudo construído sobre uma mentira.

Eu sempre me considerei forte. Como arquiteta, eu construía estruturas, não apenas de aço e vidro, mas de confiança e amor duradouro. Damião e eu, deveríamos ser uma dessas estruturas. Sólida. Inquebrável. Estávamos juntos desde crianças, nossas vidas entrelaçadas, um futuro meticulosamente planejado. Todo ano, nos últimos quatro anos, apresentávamos nosso pedido de casamento ao patriarca da família dele, Horácio Almeida. Todo ano, era publicamente "rejeitado". Eu via Damião carregar o fardo, o via aceitar as duras punições corporativas que seu avô distribuía. Projetos impossíveis, bônus confiscados, humilhações públicas. Ele fazia tudo, aparentemente por nós, por nosso amor.

"É só o vovô", ele dizia, seus olhos cansados, mas determinados. "Ele é teimoso. Ele quer me testar, ter certeza de que sou digno de você, digno do nome da família. Mas eu não vou desistir. Nunca."

Eu acreditei nele. Eu esperei. Eu o apoiei. Minha família, eles estavam preocupados, mas eu os tranquilizava. "Ele está lutando por nós", eu sussurrava, até para mim mesma, precisando ouvir as palavras, acreditar nelas. Cada rejeição era uma ferida, mas sua suposta devoção era o bálsamo. Eu dizia a mim mesma que era um teste para o nosso amor, uma provação que superaríamos juntos.

A primeira punição foi a mais brutal. Ele foi exilado, enviado para supervisionar uma mina de cobre falida em Minas Gerais. Sem sinal de celular, sem contato por meses. Eu contava os dias, agarrava-me à sua última carta como se fosse uma tábua de salvação. Quando ele voltou, magro e cansado, mas triunfante, eu fiquei tão orgulhosa. Pensei: *Isso é amor. Isso é sacrifício.*

No segundo ano, foi financeiro. Todo o seu bônus anual, reservado para a casa dos nossos sonhos, foi confiscado. Ele não reclamou. Apenas olhou para mim, seus olhos cheios de arrependimento, e disse: "Tudo bem. Vamos recuperar. Juntos." Eu o vi trabalhar mais, por mais horas, levando-se ao limite. Admirei sua resiliência, seu compromisso inabalável.

No terceiro ano, foi humilhação pública. Horácio o fez supervisionar um projeto desastroso que terminou em um pesadelo de relações públicas. Damião assumiu a culpa, seu nome arrastado na lama, sua reputação manchada. Ele se manteve firme, quase desafiador, diante de tudo. "Vale a pena", ele sussurrou para mim, segurando minha mão com força, "se isso significa que finalmente posso me casar com você." Meu coração se encheu de orgulho. Eu tinha tanta certeza. Tão absoluta, completamente certa.

Então veio a quarta tentativa. O ritual foi o mesmo. A antecipação, a tensão, a esperança silenciosa que eu tentava esconder. Damião entrou, saiu com aquela mesma expressão cansada, mas resoluta. "Ele disse não de novo", ele me disse, sua voz pesada. "Outro projeto impossível. Mas eu vou fazer, Augusta. Por nós."

Naquela noite, eu estava em seu escritório particular, levando o jantar para ele. Sua assistente, Cíntia, não estava lá. Ela estava sempre lá, uma presença fantasma, uma sombra em sua periferia. Ele estava debruçado sobre plantas de projetos, sua mente a quilômetros de distância. Eu vi um arquivo, meio escondido sob uma pilha de papéis, um documento de aparência oficial. Meu nome estava nele. O nome dele estava nele. O selo da família Almeida.

A curiosidade, ou talvez uma premonição, me puxou. Eu o deslizei para fora. Era o formulário de aprovação de casamento. O deste ano. Meus olhos percorreram a página, procurando pelo familiar "não aprovado". Mas não estava lá.

Em vez disso, uma única palavra, digitada em negrito: "Aprovado".

Minha respiração falhou. Minha visão embaçou. Pisquei, reli. Aprovado.

Então, meus olhos captaram um detalhe pequeno, quase imperceptível. Uma marca d'água fraca, uma fonte diferente. E ao lado de "Aprovado", um minúsculo "não" rabiscado à mão, inserido antes da palavra, com cuidado, quase invisivelmente, com uma caneta diferente. Era uma falsificação. Uma falsificação meticulosa e cruel.

Ouvi seu zumbido suave do outro lado da sala. Ele ainda estava perdido em seu trabalho, totalmente inconsciente. Minha mente girava. Aprovado. Tinha sido aprovado. Todas as vezes.

"Augusta? O que você está fazendo?" Sua voz cortou a névoa. Ele estava olhando para mim, um lampejo de preocupação em seus olhos.

Eu levantei o papel, minha mão tremendo tanto que pensei que iria rasgá-lo. "Isso... isso diz 'aprovado'." Minha voz era um sussurro, um fantasma de si mesma.

Seu rosto perdeu a cor. As plantas escorregaram de suas mãos, espalhando-se pelo chão. Ele olhou para o documento, depois para mim, sua fachada cuidadosamente construída desmoronando diante dos meus olhos.

"Augusta, eu posso explicar", ele começou, sua voz de repente rouca, cheia de uma urgência em pânico que eu nunca tinha ouvido antes.

"Explicar o quê, Damião?" As palavras rasgaram minha garganta, cruas e quebradas. "Explicar quatro anos de mentiras? Quatro anos me fazendo acreditar que seu avô era o vilão? Quatro anos vendo você se 'sacrificar' por nós, quando ele já tinha nos dado sua bênção?"

Seus olhos dispararam pelo cômodo, pousando na porta. Ele parecia um animal encurralado. "Não, não é assim. Ele rejeitou. Nas primeiras vezes, ele realmente rejeitou. Mas então... então eu tive que fazer parecer que ele ainda estava rejeitando."

"Por quê?" A única palavra estava carregada de gelo, com cada grama de dor que eu sentia.

Ele passou a mão pelo cabelo, sua compostura perfeita desaparecida. "Cíntia. Ela... ela não consegue viver sem mim, Augusta. Ela disse que faria algo drástico se eu a deixasse."

Cíntia. O nome dela pairava no ar, um sussurro venenoso. Sua assistente pessoal. A mulher que tinha sido sua sombra por oito anos. A mulher que eu sempre descartei como inofensiva, um mero inconveniente.

"Você quer dizer", minha voz estava perigosamente baixa agora, "que você sabotou nosso casamento por Cíntia Miller? Você a escolheu em vez de mim? Em vez de nós?"

"Não, Augusta, não é assim!" Ele deu um passo em minha direção, sua mão se estendendo. Eu recuei como se estivesse queimada. "Ela está comigo desde que eu não era nada. Ela é dedicada. Ela precisa de mim. Ela não tem mais ninguém."

A dor profunda da traição se contorceu em meu estômago. Não era apenas a mentira sobre a aprovação. Era toda a fundação do nosso relacionamento, desmoronando em pó. A devoção dele não era para mim, mas para um sentimento de pena descabido por Cíntia. Ele não estava lutando por nós; ele estava lutando para nos manter separados, enquanto me fazia acreditar que ele era um mártir.

Olhei para o documento alterado novamente. O minúsculo e insidioso "não". Um testamento de sua covardia, de seu engano. Minha respiração ficou presa, um soluço rasgando meu peito. Este não era o homem que eu amava. Este era um estranho, um mentiroso, um covarde. A percepção me atingiu como um golpe físico. O homem que eu amava, o homem em torno do qual eu construí meu futuro, não passava de uma miragem. E Cíntia Miller, sua assistente obsessiva, foi a arquiteta de sua destruição, embora com sua participação voluntária. Meu mundo saiu do eixo, e eu soube, com uma certeza arrepiante, que nada jamais seria o mesmo.

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