
Quase Morri, Mas Voltei Mais Forte
Capítulo 3
Os comentários sobre Murilo e seus "mimos" para Cecília continuaram, cheios de admiração e inveja.
"Você viu o presente que ele deu a ela no fim de semana?" uma colega sussurrou. "Um carro novo! E aquela bolsa de grife! Ele realmente a adora."
"Shhh," outra colega interveio, olhando para mim. "Laís está aqui."
Todos ficaram em silêncio por um momento, me olhando com pena ou constrangimento.
"Desculpe, Laís," uma delas disse, a voz cheia de falsa simpatia.
Eu apenas acenei com a cabeça, sem dizer nada. Meus olhos se fixaram na caixa de doces na mesa. Bolo de cenoura com cobertura de cream cheese. Sem lactose, sem glúten. Exatamente o que Cecília amava.
Eu entendi. Aquela caixa de doces não era um gesto de bondade para os funcionários. Era uma declaração pública de Murilo para Cecília, uma forma de mostrar o quão atencioso ele era com ela, o quão bem ele a conhecia. E o quanto ele a valorizava.
Uma pontada de amargura me atingiu. Ele se lembrava dos gostos dela, das suas restrições alimentares. Por um momento, senti uma tentação de pegar um pedaço, apenas para ver a reação dele, para ver se ele percebia o quão insensível ele estava sendo. Mas eu sabia que não me faria bem. Eu era alérgica a lactose. Eu não gostava de bolo de cenoura.
Lembrei-me de como Murilo costumava ser atencioso comigo, no início do nosso relacionamento. Ele me escrevia poemas, me trazia flores sem motivo, me levava para jantares românticos. Ele sabia de todas as minhas alergias, de todos os meus gostos. Ele me protegia.
Uma vez, tive uma forte gripe e ele passou a noite acordado, fazendo sopa e cuidando de mim. Lembro-me dele me entregando um comprimido para dor de cabeça, escondido em um morango, porque eu odiava o gosto de remédio. Ele era meu porto seguro.
Agora, o escritório parecia um palco para o novo romance dele. Cada risada, cada sussurro, cada olhar de admiração para Murilo e Cecília era uma facada.
Eu sabia que o amor dele não era mais meu. Havia mudado de endereço. E eu não podia fazer nada para recuperá-lo, nem queria. Eu estava cansada de lutar por algo que não existia mais.
Eu me forcei a voltar ao trabalho, tentando ignorar a dor. Eu tinha que me concentrar. Eu precisava terminar o projeto. Eu queria sair dali com a cabeça erguida.
Eu trabalhei sem parar, dia após dia, noite após noite. Minha mesa estava empilhada com documentos, meu computador piscava com e-mails não lidos. Meus olhos ardiam, meu corpo doía. Eu estava exausta, mas a adrenalina me mantinha em pé.
Eu sabia que teria que trabalhar até tarde de novo hoje. Olhei pela janela. A cidade estava coberta por um manto de escuridão, as luzes dos prédios piscando como estrelas distantes.
Um movimento na porta me fez levantar a cabeça. Murilo estava ali, parado, me observando.
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