
Quando o Silêncio do Marido Mata
Capítulo 3
O rosto da minha mãe ficou pálido.
Ela tentou responder, mas a tosse a interrompeu.
"Pedro, por favor..."
"Por favor, o quê? A sua filha está destruindo a minha família! O João está arrasado, a Beatriz não para de chorar, e a Helena está com a pressão alta por causa do estresse que a Sofia causou! Vocês só trazem problemas!"
Ele desligou.
Minha mãe olhou para mim, os olhos cheios de uma dor que eu conhecia muito bem.
A dor de ser culpada por algo que não fez.
"Mãe, não se preocupe com eles," eu disse, a voz mais firme do que eu me sentia. "Vamos sair daqui."
"Mas, filha... o divórcio..."
"É a única solução," eu a interrompi. "Eu não posso mais viver assim."
Ela não discutiu. Apenas assentiu, as lágrimas finalmente escorrendo por seu rosto cansado.
Ela sabia que eu estava certa. Ela viveu um inferno parecido com meu pai.
Na manhã seguinte, um advogado que minha mãe conhecia veio ao hospital.
Ele era um homem baixo, calvo, mas com olhos gentis. Chamava-se Sr. Almeida.
Expliquei a situação. O abandono, a negligência, a chantagem emocional.
"E o bebê?" ele perguntou, cauteloso.
"Eu perdi o bebê," eu disse, as palavras saindo sem emoção. "Por causa do incêndio. E por causa da negligência dele."
O Sr. Almeida anotou tudo, o rosto sério.
"Isso muda tudo, Sofia. Isso é negligência grave. Podemos processá-lo por danos morais e materiais."
"Eu não quero o dinheiro dele," eu respondi. "Eu só quero o divórcio. Rápido."
"Entendo. Mas você tem direito a uma compensação. Pelo apartamento, pelos seus ferimentos, pela perda do seu filho."
Eu hesitei. Pensar em dinheiro parecia sujo.
Mas então pensei na minha mãe. Ela tinha perdido tudo no incêndio também. A casa dela era no mesmo prédio.
"Ok," eu disse. "Faça o que for preciso."
Dois dias depois, recebemos alta.
Não tínhamos para onde ir. Nosso prédio era uma pilha de cinzas.
O Sr. Almeida nos arranjou um pequeno apartamento alugado, pago com um adiantamento do processo.
Era pequeno, simples, mas era nosso. Era um refúgio.
No primeiro dia no novo apartamento, meu celular tocou.
Era um número desconhecido.
Atendi.
"Sofia?"
A voz era de João.
Meu estômago revirou.
"O que você quer?"
"Eu... eu soube do bebê," ele disse, a voz embargada. "Sinto muito."
Sente muito?
Era só isso?
"Onde você soube?" eu perguntei, fria.
"Meu pai... ele ligou para o hospital."
Claro. Ele não se deu ao trabalho de ligar para mim, mas mandou o pai dele investigar.
"Se é só isso, estou desligando."
"Não, espere!" ele gritou. "Sofia, por favor, me perdoe. Eu não sabia. Eu estava... sobrecarregado. A Beatriz..."
"Não ouse falar da Beatriz para mim," eu o cortei. "Você me deixou para morrer, João. Você deixou nosso filho morrer."
"Não é verdade! Eu não sabia que era tão sério!"
"Eu te liguei dezoito vezes! Eu gritei que o prédio estava pegando fogo! O que mais você precisava saber?"
O silêncio do outro lado era a única resposta.
"Eu te amava, João," eu continuei, a voz quebrando pela primeira vez. "Eu teria te perdoado por qualquer coisa. Mas não por isso. Nunca."
Desliguei o telefone e o bloqueei.
Sentei no chão da sala vazia e, finalmente, chorei.
Chorei pelo meu filho. Chorei pela minha vida destruída.
E chorei pela mulher estúpida que eu tinha sido.
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