
Quando o Amor Vira Fogo
Capítulo 2
A dor aguda no meu ventre me despertou.
Abri os olhos, confusa. A luz do sol entrava pela janela do nosso quarto, o quarto que eu dividia com Pedro.
Meu coração martelava no peito, um ritmo frenético de pânico.
As memórias vieram como uma enxurrada. O salão de festas, o anúncio de Pedro, a dor do parto, os seguranças me arrastando, o porão escuro e úmido, o sangue, o choro fraco de um bebê e o silêncio mortal do outro.
Minha morte.
Eu toquei minha barriga. Estava grande, redonda e pesada. Meus filhos... eles ainda estavam aqui. Os dois.
Eu respirei fundo, o ar enchendo meus pulmões. Eu estava viva. Eu tinha voltado.
Voltei para o dia do baile de gala. O dia em que meu mundo desabou.
Um soluço escapou dos meus lábios, uma mistura de alívio e pavor. Eu tinha uma segunda chance. Uma chance de salvar meus filhos.
"Joana? Você está bem, meu amor?"
A voz de Pedro veio do banheiro. Aquela voz que eu amei com toda a minha alma, a mesma voz que me condenou à morte.
Forcei um sorriso quando ele saiu, enrolado em uma toalha, o cabelo molhado. Ele era lindo, carismático, o magnata do agronegócio que todos admiravam. O monstro que se escondia por trás daquele rosto.
"Estou ótima," menti, a voz trêmula. "Acho que os bebês estão agitados hoje."
Ele sorriu, aquele sorriso que costumava derreter meu coração, e se aproximou, ajoelhando-se ao lado da cama para beijar minha barriga.
"Meus herdeiros estão ansiosos para a festa de hoje à noite," ele disse, os olhos brilhando.
Herdeiros. Na minha vida passada, eu não entendia a obsessão dele. Agora, eu sabia. Ele era infértil, uma condição rara que o impedia de ter filhos. Meus gêmeos não eram a surpresa que eu pensava. Eles eram um milagre que ele acreditava ser impossível.
E ele já tinha um herdeiro. Ou pelo menos, achava que tinha.
"Mal posso esperar para ver a cara de todos," continuei, testando as águas. "Principalmente quando anunciarmos sobre os gêmeos."
Ele endureceu por um instante, um flash de algo escuro em seus olhos antes que o sorriso voltasse.
"Sim, claro. Vai ser uma grande noite."
Ele estava mentindo. Ele já sabia que Patrícia, a influenciadora digital com quem ele tinha um caso, daria à luz seu "primeiro filho". Ele tinha contratado várias mães de aluguel pelo Brasil, prometendo a vasta fortuna da família para aquela que lhe desse um filho primeiro.
Ele não me contou sobre sua infertilidade. Ele me deixou acreditar que éramos um casal normal, construindo uma família. Que traição cruel.
Levantei-me, a decisão se formando em minha mente. Na minha vida passada, eu fui ingênua. Fui uma vítima. Fui arrastada para o inferno sem lutar.
Desta vez, seria diferente.
Eu não iria fugir. Eu não iria me esconder. Eu iria àquele baile. Mas não como uma esposa amorosa planejando uma surpresa.
Eu iria como uma guerreira.
Passei o dia me preparando. Ignorei as ligações da minha mãe, ignorei as mensagens dos meus amigos. Meu foco era um só.
Lembrei-me do porão. O frio do chão de cimento contra as minhas costas. A escuridão total. A dor lancinante das contrações, sozinha. O som do meu próprio grito ecoando nas paredes.
Lembrei-me de dar à luz ao meu primeiro filho, um menino forte. E depois, a dor de novo, a exaustão, e o nascimento da minha menina, tão pequena, tão frágil. Lembrei-me do seu silêncio.
Eu a segurei junto ao meu corpo, tentando lhe dar meu calor, mas ela já estava fria. Eu chorei até não ter mais lágrimas, meu corpo partido, minha alma destruída.
Pedro nunca veio.
Quando seus homens finalmente abriram a porta, eu já estava morta, abraçada aos meus dois filhos. Um vivo, outro morto.
Essa memória era meu combustível. A dor, a raiva, a perda. Elas me davam uma força que eu não sabia que possuía.
Eu iria àquele baile e enfrentaria Pedro. Eu não deixaria que ele me humilhasse. Não deixaria que ele me destruísse.
E acima de tudo, eu protegeria as duas vidas dentro de mim. Custe o que custar.
Escolhi meu vestido com cuidado. Não o branco que eu usei na vida passada, o vestido de uma sonhadora. Escolhi um vermelho sangue. A cor da raiva. A cor da guerra.
Quando Pedro me viu, ele ficou sem fôlego.
"Joana... você está... deslumbrante."
"Eu sei," respondi, minha voz fria.
Ele franziu a testa, desconcertado pela minha mudança de atitude, mas não disse nada.
O caminho até o salão de festas foi silencioso. Eu podia sentir o nervosismo dele. Ele achava que estava no controle. Ele não tinha ideia do que estava por vir.
Ao entrarmos no salão luxuoso, todos os olhos se voltaram para nós. O casal poderoso. O rei e a rainha da alta sociedade de São Paulo.
Uma farsa.
Eu mantive minha cabeça erguida, minha mão protetoramente sobre minha barriga. Respirei fundo. O show estava prestes a começar.
E desta vez, eu não seria a única a sangrar.
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