
Quando o Amor Se Tornou um Inferno Vivo
Capítulo 2
Ponto de Vista de Aléxia:
Uma sombra caiu sobre mim. Ouvi um suspiro suave, depois uma voz.
"Aléxia? Meu Deus, o que aconteceu?"
Era Celeste. Sua voz estava carregada de preocupação, mas eu ouvi a leve ponta de nojo por baixo.
Pisquei, tentando limpar a névoa dos meus olhos. Minha boca tinha gosto de cobre. Vi a mão de Celeste se estender, seus dedos bem-cuidados pairando sobre meu braço. Eu me afastei, minha pele se arrepiando com seu toque.
"Não me toque", consegui sussurrar, minha voz rouca e crua.
Eu me levantei, lenta e dolorosamente, minha cabeça ainda girando. O quarto rodava. O sangue no chão era uma mancha nítida e feia.
A mão de Celeste caiu. Seu rosto se contorceu em uma expressão magoada.
"Eu só estava tentando ajudar. Você sempre me afasta. Parece que você me odeia."
Ela fungou, já se fazendo de vítima.
Do corredor, a voz de Gabriel soou, alta e exigente.
"O que está acontecendo aí? Celeste, por que você está gritando?"
Celeste se moveu rapidamente, quase rápido demais para alguém supostamente tão frágil. Ela correu para a cadeira de rodas de Gabriel, suas mãos imediatamente em seus ombros, a cabeça baixa como se estivesse angustiada.
"Ela... ela não está bem, Gabriel. Eu só tentei ajudar e ela gritou comigo."
Gabriel me fuzilou com o olhar, seus olhos frios e duros.
"Aléxia, qual é o seu problema? Não vê que a Celeste está tentando te apoiar? Você é sempre tão ingrata."
Ele nem notou o sangue na minha camisa, ou a mancha fresca no chão. Ele nunca olhava para mim, não de verdade.
Celeste, ainda agarrada a Gabriel, me lançou um sorriso rápido e triunfante por cima do ombro dele. Foi sutil, passageiro, mas eu vi. A malícia pura e absoluta em seus olhos. Ela se inclinou para perto de Gabriel, sussurrando algo que eu não consegui ouvir.
"Vá para o seu quarto, Aléxia", ordenou Gabriel, sua voz tensa de irritação. "Apenas... vá. Conversamos depois. Celeste, venha, vamos. Ela precisa se acalmar."
Ele deixou Celeste empurrar sua cadeira de rodas, sem olhar para trás uma única vez. Eles desapareceram no quarto, a porta se fechando com um clique suave que ecoou no silêncio repentino.
Fiquei sozinha na sala de estar, um espaço frio e vazio. Meus olhos se voltaram para o pequeno desenho de giz de cera colado na parede. Era uma imagem simples: uma família de bonecos de palito de mãos dadas, um sol brilhante no canto e um pequeno e trêmulo desenho de um homem em uma cadeira de rodas, com um grande coração desenhado ao lado dele. O desenho de Léo.
Ele o havia desenhado para Gabriel. Ele queria que seu papai ficasse bem. Ele queria que todos nós fôssemos felizes. Uma nova onda de dor, aguda e sufocante, me atingiu. Meu peito se contraiu. Era difícil respirar.
Léo nunca foi para a escola. Não tínhamos dinheiro. Ele não tinha amigos, nenhuma outra criança para brincar. Ele ficava sentado perto da janela, observando as crianças da vizinhança rirem e correrem umas atrás das outras, compartilhando salgadinhos coloridos. Ele apenas observava, seus grandes olhos tristes e cheios de desejo.
Meu coração se partiu mais uma vez. Lembrei-me do dia em que comprei para ele um pequeno saco de balas de goma caras. Foi um luxo raro, algo para o qual economizei por semanas. Ele agarrou o saco como se fosse ouro.
"Para o papai", ele disse, oferecendo o saco a Gabriel primeiro.
Gabriel, que estava "paralítico", o ignorou, absorto em seu celular. Léo então as ofereceu a Celeste, que pegou algumas das mais coloridas com uma mão delicada, mal olhando para ele. Léo, sempre tão doce, dividiu cuidadosamente o resto, deixando apenas um pedacinho para si. Ele guardou aquela bala por dias, mordiscando pedacinhos, mesmo depois que começou a endurecer.
Ele era um menino tão bom. Bom demais para este mundo. Bom demais para eles. Ele morreu acreditando que seu pai era um homem doente, acreditando que sua tia era uma figura gentil e solidária. Ele morreu pelas mentiras deles. Ele morreu correndo para buscar ajuda para a mulher que havia sacrificado tudo por ele, enquanto seu pai e sua tia provavelmente estavam...
Minha mente voltou à gravação. Suas risadas cruéis. Celeste desejando que Léo desaparecesse. A concordância arrepiante de Gabriel. O sangue na minha camisa parecia uma marca de ferro, queimando minha pele.
Desabei na pequena cama de Léo, o cobertor gasto ainda carregando seu cheiro fraco e doce. Enterrei meu rosto em seu travesseiro, as lágrimas que haviam sido contidas pelo choque agora escorrendo pelo meu rosto, quentes e intermináveis. Chorei até minha garganta ficar em carne viva, até meus olhos incharem e se fecharem.
A casa permaneceu em silêncio. Gabriel e Celeste não saíram. Não me chamaram. Não verificaram se eu ainda estava viva. Eles provavelmente estavam juntos, em seu quarto, como sempre estavam. As "sessões de reabilitação" que Gabriel supostamente precisava eram apenas um disfarce. Um disfarce para o caso deles. Para seu prazer doentio e distorcido.
Tudo se encaixou. A súbita "paralisia" de Gabriel. A falência rápida e inexplicável de sua empresa próspera. E então, Celeste, entrando em cena, "abnegadamente" se oferecendo para cuidar de seu irmão "doente". Eu tinha sido tão grata na época, tão aliviada. Pensei que tinha sorte de ter uma cunhada tão gentil.
Enquanto eu estava lá fora, sob o sol brutal, cavando terra, esfregando banheiros, encharcada pela chuva, eles estavam aqui. Nesta casa. Rindo de mim. Conspirando contra mim. Fazendo amor.
E a empresa. Aquela que Gabriel alegou estar falida? Não estava falida. Não de verdade. Foi transferida. Toda ela. Para Celeste. Ela era a dona agora. O império de tecnologia que Gabriel havia construído, aquele que ele jurou ser para o nosso futuro, para o futuro de Léo, era dela.
No dia em que Léo morreu, despedaçado por cães enquanto eu estava inconsciente na poeira e no calor, eles estavam juntos. Nesta casa. Provavelmente na cama de Gabriel. Enquanto meu filho dava seus últimos e agonizantes suspiros, eles estavam ocupados demais para se importar. Ocupados demais se deleitando em sua riqueza roubada e em seu segredo depravado.
Minhas lágrimas secaram. Uma determinação fria e dura se instalou. Minha dor se transformou em um inferno ardente. Eles iriam pagar por isso. Cada um deles.
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