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Capa do romance Quando O Amor Sangra

Quando O Amor Sangra

Ele era o marido ideal e ela a esposa exemplar, mas a fachada de perfeição escondia um pesadelo doméstico. Entre luxos e juras falsas, ela suportou abusos e se desintegrou em silêncio até que o sofrimento transbordou em um ato de violência extrema. Com o homem morto e a nação em choque, o crime se torna um mistério público. Resta descobrir se o assassinato foi motivado por um ódio profundo ou se foi a última e trágica prova de um amor que sangrou.
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Capítulo 2

Yuki Narrando

Eu tinha 19 anos e era um rapaz muito introspectivo, fechado em meu mundo. Segundo ano da faculdade, era criado e treinado para assumir o lugar dos meus pais nas empresas. O meu universo era pequeno e rígido como um templo: estudo, responsabilidade, caminho traçado. A solidão disso tudo vinha embrulhada em protocolos e expectativas.

Faz 15 anos que estávamos no Brasil, mas fui criado na cultura japonesa. Meus pais saíram de Tóquio comigo pequeno, e a educação que recebi veio com a severidade do Japão - regras, horários, silêncio nos momentos certos, respeito como dever. Montaram uma empresa de produtos alimentícios aqui e, quinze anos depois, era uma potência. Eu já falava japonês, inglês, coreano, árabe, francês e português, claro - línguas como ferramentas afiadas para abrir portas que meu coração ainda não sabia atravessar.

Sempre gostei da cultura brasileira; havia nela um calor, um caos, uma musicalidade que me atraía. Queria que meus pais entendessem: estávamos no Brasil e as coisas aqui eram diferentes do que se ensinava em Tóquio. Mas não - eu não tinha permissão para ir a festas, para um happy hour depois da faculdade, para beber com amigos. Não tinha permissão nem para ter amigos brasileiros. Tudo era observado, regulado, pensado como parte de um grande plano.

O intuito era claro: me preparar para passar a direção da empresa quando eu terminasse a faculdade. Tudo estava milimetricamente planejado pra eu estar pronto quando o momento chegasse. A tradição dos Mamioto no Japão é simples e implacável: cria uma empresa gigantesca, trabalha duro para ela crescer cada vez mais e cria o filho no rigor, para quando ele se formar assumir o lugar na direção e sustentar os pais na velhice. Era a honra da linhagem, o preço do nome.

- Entenda Yuki: brasileiro não tem visão de futuro. Eles gastam tudo o que ganham com festas, bebidas e mulheres, depois pedem dinheiro emprestado aos bancos e pagam juros abusivos, para terem mais para gastar com festas e bebidas! Esse povo tem o pensamento pequeno e não são companhia para você!

A voz do meu pai ainda reverbera na minha cabeça como um mantra que me domestica e me empurra para dentro. Eu me perguntava, às vezes com raiva contida, às vezes com uma dor surda no peito, como alguém poderia desprezar tanto o lugar onde vivia e ao mesmo tempo, tão friamente, calcular cada passo da minha vida.

- Papa, se você despreza tanto o brasileiro, porque resolveu vir montar sua empresa aqui? - disparei uma vez, quebrando o silêncio ritual.

- Porque só tem uma coisa que brasileiro gosta mais do que promiscuidade e bebida alcoólica, Yuki. Comida! Esse povo barulhento tem como sinônimo de diversão, reunir os cinco ou mais filhos que cada família costuma ter, com suas esposas e maridos e a renca de netos em volta da mesa! Preparam vários pratos diferentes, comida para um batalhão, sempre um não gosta disso, o outro não gosta daquilo, acabam consumindo álcool, discutindo, as vezes sai até pancadaria, até a Mama da família colocar a sobremesa na mesa e a paz reina! E quanto mais pobre, mais qualidade exige nos produtos que vai usar. Com o investimento certo e o uso dos incentivos fiscais, tudo que você produzir neste país que é de comer, vende!

Era uma explicação prática, quase pragmática - um mapa de oportunidade. Para ele, o Brasil era um mercado de abundância, um terreno fértil onde tradição japonesa e empreendedorismo podiam se encontrar. Para mim, era um campo de contradições: o orgulho da empresa e a negação do povo que a consumia.

Assim foi minha criação. Aprendi que eu era superior aos brasileiros, que não tinham visão de futuro. Nossa empresa tinha incentivos fiscais por conta da geração de empregos no país; tínhamos fábricas em todas as regiões, várias distribuidoras. Em cada cidade desse imenso país, a gente tinha nossos produtos. De cada dez famílias, pelo menos oito consumiam nossa marca; pela qualidade, estávamos exportando como empresa brasileira. E mesmo assim, meus pais consideravam o brasileiro a ralé. Uma contradição que me acompanhou como sombra - orgulho pelo legado e envergonhado por amar o lugar que nos mantinha grandes.

Na faculdade, alguns colegas começaram a me provocar. Me chamavam de nerd, filhinho de papai. Havia um rapaz, filho de japoneses também, que um dia me disse uma coisa que me fez pensar diferente:

- Quando a gente era menor de idade e estudava no colégio, nossos pais conseguiam nos controlar totalmente! Eu sentia que até meus pensamentos eram controlados por eles! Mas agora estamos na faculdade, somos considerados adultos. Se você desmanchar a cara amarrada, sorrir, flertar com umas gatas, dar uns beijos no intervalo, ninguém vai correndo contar para seus pais. Você não vai para a diretoria, aguardar seu pai vir te buscar!

Aquele conselho parecia uma chave. Aos poucos, comecei a me soltar. Nos tornamos amigos e eu comecei a ver a vida com uma lente mais leve. Ri mais, fui me enturmando, ficando mais bem-humorado. Senti uma liberdade miúda que me aquecia por dentro, um sopro de vida que cedo ou tarde me faria tropeçar.

O dia em que tudo mudou foi banal: avisaram que o prédio não poderia prestar atendimento, então não haveria aulas. O pessoal combinou de irem em um clube privê. Lembrei do meu amigo me dizendo que ninguém mandaria uma notificação para o meu pai avisando que não haveria aulas. Foi fácil sucumbir ao calor crescente do grupo e fui com eles.

Naquela festa - e não quero romantizar, só descrever o acontecido - perdi minha virgindade com uma morena de cabelo liso até a bunda. Lindíssima. A sensação foi simultaneamente libertadora e punidora. Peguei o contato dela, e comecei a procurá-la fora da vista do mundo, contratando seus serviços sempre que podia. Menino bobo, cabação - acabei me apaixonando. E foi a primeira vez que desafiei meu pai - e apanhei na cara. Ele fez a moça desaparecer, passou a controlar meus gastos com uma mão de ferro e me sobrecarregou no escritório. Aquilo me sufocou.

Eu não conseguia nem respirar com tudo o que tinha que fazer. Não tinha permissão para gastar absolutamente nada que ele não autorizasse com antecedência, nem de falar com ele levantando a cabeça.

- Você vai virar um homem, Yuki! Vai conhecer uma boa moça para se casar e eu vou ter que aprovar! Quando você tiver casado, formado, consolidado na vida, vou saber que cumpri minha obrigação! Volto para minha casa e deixo você fazer o que quiser, e vou saber que vai tomar as melhores decisões, porque não estou permitindo tomar decisões vazias agora, sem pensar no futuro!

As palavras vinham empilhadas, firmes como tijolos. E eu, naquele momento, era só um operário construindo o que dele se esperava.

Assim eu passei todos os anos finais da faculdade: pressa, censura, vontade reprimida. Quando me formei, quis começar a procurar minha esposa logo. Imaginava despachar meu pai pro Japão, respirar, viver, deixar de ser o robô que me moldaram. Mas não foi simples. Ele também não permitiu - por muito tempo. Foram três anos viajando, assinando contratos, adiando minha liberdade como quem adia um pagamento.

Quando resolvi me fixar no escritório, percebi um problema estrutural que nossa empresa tinha. Fui apontar uma solução e abrir uma porta.

- Pai, a lei no Brasil agora, é que cada contratação ou demissão de funcionários, tenha um exame físico.

- Eu sei, pra garantir que o funcionário tenha capacidade laboral ou que, ao ser demitido, não tenha adquirido doenças laborais. Estamos cumprindo essa exigência, não sei porque você está falando disso.

- Estou falando, papai, porque não é inteligente nem econômico a gente pagar uma clínica pra fazer esses exames pra gente! Temos um grande fluxo de funcionários em nossas empresas. Então, eu sugiro termos nossa própria clínica.

- Você acha que vale a pena?

- Muito, papai. Isso é gerir bem nossos recursos.

- Manter uma clínica só pra fazer exames admissionais e demissionais? Isso não seria dispendioso?

- Não se usarmos esse recurso para reduzir o absenteísmo também!

- Não entendi isso!

- Pai, eu estudei e vi modelos por todo o mundo. E sei que funciona. Nós montamos nossa clínica, só nas capitais, onde tem maior fluxo de colaboradores e também de absenteísmo. Por ter nossa própria clínica, não precisamos fornecer planos de saúde para os funcionários, mas entra como benefício, que podemos descontar uma pequena parcela mensal deles. O montante desses descontos é que vai pagar a manutenção da clínica e os profissionais.

- E os que não quiserem aderir?

- Não tem problema, não é obrigatório. Mas não aceitamos atestados e declarações de horas que não forem emergências.

- Entendi. Assim, os funcionários que vão atrás de atestados na segunda-feira por conta de ressaca ou preguiça, vão deixar de faltar!

- E os que acordam atrasados e vão para os postos de saúde atrás de declaração de horas também.

- Isso é legal? Não vamos ter problemas com a justiça trabalhista?

- De forma nenhuma! Vamos ter até mais alguns incentivos. Assistência médica para todos os funcionários, desde o chão da fábrica até os executivos, é uma ação pioneira e humanitária. Vai desafogar os postos de saúde e hospitais para atendimento da população que realmente precisa. E nossos funcionários que tiverem realmente necessidade de atendimento, nossa clínica vai encaminhar. Esses atestados não podemos evitar. Mas sabemos que pagamos o justo!

- Então mete bala.

O "mete bala" do meu pai ecoou curto e decisivo. Levei oito meses para estruturar tudo: planejar a obra, calcular gastos, desenhar escala de pessoal, prever os fluxos. Foi um trabalho árduo, prazeroso por ser meu e por finalmente me permitir tomar decisões. Quando a estrutura ficou pronta, chegou o momento de começar a contratar. Já tinha dois médicos clínicos gerais para a equipe de São Paulo, nossa primeira clínica. Iríamos trabalhar essa unidade e, dependendo dos resultados, replicar nas outras capitais.

Passei dias entrevistando enfermeiros e auxiliares ao lado dos médicos. Estava cansado e um tanto entediado, repetindo perguntas, avaliando currículos, um processo mecânico que eu conduzi pela primeira vez com autonomia. Até que, finalmente, ela entrou.

A loira linda e sorridente que veio para a entrevista estava visivelmente nervosa. Havia tremor nas mãos, o rosto corado, mas nos olhos havia uma candura que me pegou desprevenido. Era um detalhe pequeno - a maneira como ela guardava o cabelo atrás da orelha - que, naquele instante, fez meu mundo corporativo vacilar. Não esperava sentir nada; ainda assim, sentir foi inevitável. E ali, naquele escritório iluminado por lâmpadas frias e pilhas de papéis, uma nova história começava a apontar para mim, imprevisível, humana e difícil de controlar.

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