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Capa do romance Quando O Amor Sangra

Quando O Amor Sangra

Ele era o marido ideal e ela a esposa exemplar, mas a fachada de perfeição escondia um pesadelo doméstico. Entre luxos e juras falsas, ela suportou abusos e se desintegrou em silêncio até que o sofrimento transbordou em um ato de violência extrema. Com o homem morto e a nação em choque, o crime se torna um mistério público. Resta descobrir se o assassinato foi motivado por um ódio profundo ou se foi a última e trágica prova de um amor que sangrou.
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Capítulo 3

Narrado por Celina

Eu estava um trapo de nervos. O coração batendo tão rápido que parecia querer saltar pela boca. Seria a minha estreia na área da saúde - e, pra completar, seria em grande estilo! Eu já tinha passado por todas as fases do processo seletivo, mas ainda faltava a parte mais temida: a entrevista com o chefão.

E pra quê? Até hoje eu não entendia. Aquele homem nem era da saúde! Era só um riquinho metido que tinha herdado o negócio da família e chegado cheio de ideias mirabolantes pra "modernizar" tudo.

O que um sujeito desses poderia entender de exames, curativos, pacientes e plantões pra se meter a entrevistar quem iria atender na clínica?

A verdade é que eu sempre fui assim: desconfiada de riquinhos. Talvez por ter nascido onde nasci, crescido como cresci. Na minha casa, a gente aprendeu desde cedo que se não fosse no suor, não vinha.

Minha mãe era faxineira terceirizada em hospitais, vivia com as mãos rachadas de produto de limpeza. Meu pai, motorista de transportadora, passava mais tempo na estrada do que em casa. Eu era a segunda de oito irmãos - e, olha, ser a segunda de oito é uma posição ingrata: você não é a mais velha, pra mandar, nem a caçula, pra ser mimada. É só quem sobra pra ajudar em tudo.

Meu irmão mais velho, o Aiden, serviu o exército e acabou seguindo carreira militar - orgulho dos meus pais, o exemplo que vivia pairando sobre todos nós. Eu tinha acabado de terminar o ensino médio e me enfiado no curso técnico de auxiliar de enfermagem. Desde pequena, vendo minha mãe chegando exausta de hospital, sempre me fascinava com aquele universo.

Sonhava ser médica, claro. Mas eu sabia que uma faculdade era um sonho distante. Enquanto morasse com meus pais, não tinha como.

Pra bancar o curso, fiz jovem aprendiz no McDonald's. Experiência que eu não recomendo nem pro meu pior inimigo. Muito trabalho, muita humilhação, salário miserável - e, mesmo assim, metade do que eu ganhava ia pra ajudar em casa.

Aiden, com dezoito, e Lorena, com dezessete, também trabalhavam e contribuíam com o que podiam. Os quatro menores ficavam responsáveis por manter a casa de pé: lavar, cozinhar e arrumar.

Era uma bagunça, mas uma bagunça cheia de amor. A gente brigava o tempo todo - principalmente nós, as cinco meninas que dividíamos o mesmo quarto. Era guerra por roupa, creme, escova de cabelo... mas no fim, sempre nos entendíamos.

Quando surgiu o boato de que a Mamioto Inc. estava abrindo vagas, foi um alvoroço. Até minha professora me olhou com pena quando comentei:

- Nem tente, Celina! O processo seletivo deles é rigoroso. O senhor Mamioto acabou de montar a clínica, tudo novinho, de ponta. Eles não vão querer uma auxiliar recém-formada mexendo nos equipamentos.

Aquilo me desanimou, confesso. Mas eu tinha uma aliada incondicional: minha mãe.

Ela sempre foi minha melhor amiga - e minha voz da razão. Vivia dizendo que eu era uma boba romântica, que via o mundo cor-de-rosa. E eu? Eu achava que ela tinha razão em partes. Eu realmente acreditava que tudo podia melhorar, que as coisas boas vinham pra quem não desistia.

Esperei ela chegar de um plantão puxado num domingo pra conversar:

- Você também acha que eu não deveria tentar, mamãe?

Ela tirou os sapatos, soltou um suspiro e me olhou com aquele jeito sereno dela.

- Desde quando a palavra "desisto" existe no nosso vocabulário, Celina? - perguntou, me encarando com um sorriso cansado. - Você sempre diz que eu devia ter parado no Aiden, mas seu pai queria mais um menino. Veio menina atrás de menina e eu não desisti até vir o Miguel. Eu não desisto, seu pai não desiste, seu irmão Paulo nunca desistiu. Por que você vai desistir de algo que deseja, sem nem tentar?

Fiquei em silêncio, mordendo o lábio.

- Dizem que eles não vão aceitar ninguém sem experiência, mãe.

- Bobagem. Empresários internacionais têm uma cabeça diferente. Sabem que esse papo de "sem experiência" é um erro. Como alguém vai adquirir experiência se ninguém dá oportunidade? Um bom CEO prefere moldar um funcionário do zero, sem vícios.

- Mas eu sou da área da saúde, mãe. O que aquele engomadinho dos computadores pode moldar na minha profissão?

Ela arqueou a sobrancelha.

- Celina, para com essa implicância com administradores. Sempre vai haver um grande CEO que paga seu salário, em qualquer profissão.

Revirei os olhos.

- Eu não gosto de filhinho de papai, mãe. Você sabe. Esses boyzinhos afeminados, acostumados a ter tudo na mão, me irritam. E me irrita mais ainda saber que um playboy que herdou a empresa pode decidir o meu futuro.

Ela me deu aquele olhar que já dizia tudo.

- Olha o preconceito, menina. Isso é feio pra qualquer um. Eu sempre te ensinei que existem pessoas boas e ruins de toda cor e classe. Os japoneses, por exemplo, são mais reservados, mas isso não os torna ruins. Faz o seguinte: se inscreve, dá o seu melhor e pronto. E, se chegar até a entrevista, pensa que é só uma vez. Você acha mesmo que um homem desse nível vai ficar checando o seu serviço?

Ela sempre sabia o que dizer. E, no fim, estava certa. Que idiotice seria desistir de uma das melhores vagas do mercado sem nem tentar!

No final do segundo semestre, os rumores aumentaram. A Mamioto estava mesmo implementando clínicas próprias pros funcionários - um modelo que só as grandes empresas públicas usavam.

Enquanto meus colegas torciam o nariz, eu comecei a me empolgar.

- Você é louca, Celina! - dizia uma colega. - Sair de hospital pra atender operário com dor de barriga e virose? Nunca!

Mas eu pensava diferente: se todo mundo achava ruim, minhas chances aumentavam. Pior que isso só seria trabalhar em clínica de repouso, trocando fralda de idoso e colocando dentadura de molho.

Quando meu nome saiu na lista de aprovados para as últimas fases, quase desmaiei. Tinha terminado o curso fazia um mês, o Coren ainda nem tinha chegado, e lá estava eu - convocada para a entrevista final com o tal senhor Yuki Mamioto.

No dia marcado, acordei antes do sol, preparei o cabelo, passei o batom mais discreto que tinha e vesti minha roupa mais "profissional".

O coração parecia uma escola de samba. Lembrava das palavras da minha mãe repetidas como um mantra: "Engole o preconceito com administradores, Celina."

Mas, sinceramente, eu não sabia se conseguiria. O "administrador" em questão não era apenas um playboy que ganhou uma empresa para brincar de chefe. Era também um asiático - e, na minha cabeça de menina ignorante e cheia de pré-conceitos, o povo mais fechado, sério e mal-humorado do planeta.

Tudo isso mudou no exato instante em que entrei naquela sala.

O ar pareceu desaparecer. Ele estava ali, sentado atrás de uma mesa de madeira escura, com um laptop à frente e o olhar fixo em mim. Devia ter uns dez anos a mais do que eu, no máximo.

Sério. Bonito demais.

A boca carnuda, o cabelo perfeitamente cortado com uma mecha rebelde caindo sobre a testa, e os músculos desenhando o tecido da camisa clara.

O tipo de homem que não precisava dizer nada pra te deixar sem ar.

Eu juro... juro que molhei as calcinhas.

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