
Quando o Amor Morreu, a Liberdade Começou
Capítulo 2
As semanas seguintes passaram em um borrão de distanciamento calculado para Alana.
Heitor e Jéssica ostentavam seu romance renovado, agora desobstruído, pelo Instagram.
Fotos deles em restaurantes exclusivos, escapadas de fim de semana para Campos do Jordão, galas de caridade onde Jéssica se agarrava ao braço de Heitor, radiante.
Cada post era uma performance de felicidade cuidadosamente curada, sem dúvida projetada para provocar uma reação de Alana.
Em sua vida passada, ela teria se desmanchado em lágrimas, ligado para seus poucos amigos para lamentações frenéticas, talvez até encenado um confronto público.
Agora, Alana simplesmente bloqueou as contas deles.
Seus amigos, Sara e Bruno, notaram a mudança imediatamente.
“Você está… calma”, disse Sara, perplexa, durante um café. “Ele está estampando a Jéssica por toda a internet, e você está apenas… tomando seu latte?”
Alana deu de ombros. “Ele pode postar o que quiser. Não tem mais nada a ver comigo.”
Ela se concentrou em sua arte, esboços se acumulando, ideias para uma linha de moda, um negócio têxtil, coisas que ela sonhara, mas suprimira.
O processo de divórcio avançava lentamente, deliberadamente de sua parte. Ela não queria laços, nem emaranhados financeiros persistentes.
A gala anual da Fundação Carvalho, em homenagem ao legado filantrópico de Eleonora Carvalho, era um evento que Alana sempre temera.
Em sua vida passada, era uma noite de humilhação pública, de Heitor a ignorando deliberadamente enquanto prodigalizava atenção a Jéssica, que sempre conseguia comparecer como “acompanhante” de alguém.
Este ano, a Alana renascida decidiu comparecer.
Não como a esposa sofredora de Heitor, mas como a nora de Eleonora, para anunciar uma bolsa de estudos de arte em nome de Eleonora – algo que ela sempre quis fazer.
Ela escolheu um vestido preto simples e elegante, um contraste gritante com os vestidos brilhantes favorecidos pelo círculo dos Carvalho.
Jéssica Torres já estava lá, é claro, praticamente fundida ao lado de Heitor, parecendo radiante em um vestido carmesim.
Os Carvalho mais velhos, tios e tias de Heitor, que sempre trataram Alana com desdém polido, cumprimentaram Jéssica com um calor efusivo.
“Jéssica, querida, você está deslumbrante!”, tia Carolina elogiou, dando-lhe beijos no ar. “Tão bom ver você com o Heitor, onde você pertence.”
Alana sentiu uma pontada familiar de se sentir uma estranha, mas era distante, observacional.
Ela não estava mais competindo pela aprovação deles.
Tio Ricardo, um homem corpulento com uma voz retumbante, avistou Alana perto da entrada.
“Alana? O que você está fazendo aqui?”, ele perguntou, seu tom acusatório. “Pensei que você teria a decência de ficar longe, dadas as… circunstâncias.”
Sua esposa, uma mulher coberta de diamantes, fungou. “Sinceramente, algumas pessoas não têm vergonha na cara.”
Os sussurros começaram, uma onda de desaprovação entre os convidados reunidos.
Alana manteve a compostura, sua expressão serena.
Jéssica, sentindo uma oportunidade, deslizou até ela, com Heitor como uma sombra relutante.
“Alana”, disse Jéssica, sua voz pingando falsa doçura. “Estou tão surpresa em vê-la. Você está… esperando uma reconciliação? Heitor foi tão claro.”
Seus olhos, no entanto, continham uma centelha de triunfo, um brilho malicioso familiar.
Este era o palco dela, e Alana era a intrusa indesejada.
No passado, Alana teria mordido a isca, com uma réplica afiada, uma defesa chorosa.
Heitor finalmente falou, sua voz fria, desprovida de qualquer emoção.
“Alana, este é um evento de família. Talvez fosse melhor se você fosse embora.”
Ele não olhou para ela, seu olhar fixo em algum lugar sobre o ombro dela.
Suas palavras, destinadas a ferir, mal registraram. Ele ainda estava jogando pelas regras antigas, esperando as reações antigas.
Ele não entendia que o jogo havia mudado porque um dos jogadores havia desistido.
Outros membros da família intervieram, suas vozes um coro de condenação.
“Ela só está tentando causar uma cena.”
“Eleonora ficaria tão desapontada.”
“Heitor merece ser feliz, finalmente.”
O julgamento banhou Alana. Ela já tinha ouvido tudo isso antes, em seus pesadelos e em sua vida desperta.
Desta vez, era apenas ruído.
Alana finalmente falou, sua voz calma e clara, ecoando surpreendentemente bem na súbita calmaria.
“Estou aqui para honrar Eleonora”, disse ela, olhando diretamente para o tio de Heitor, depois para o retrato de Eleonora que dominava o salão. “Ela foi muito gentil comigo. Vou anunciar a Bolsa de Estudos de Arte Eleonora Carvalho esta noite.”
Um lampejo de surpresa, depois consternação, cruzou seus rostos. Esta não era a reação que esperavam.
Heitor olhou para ela então, uma expressão estranha e indecifrável em seus olhos.
Mais tarde, Alana se encontrou no nicho silencioso e privado onde a urna memorial de Eleonora estava exposta.
Ela colocou uma única gardênia branca, a favorita de Eleonora, ao lado dela.
“Sinto muito, Eleonora”, ela sussurrou, lágrimas finalmente picando seus olhos. “Eu não pude ser o que você queria que eu fosse para ele. Mas vou tentar honrar sua memória à minha maneira.”
Uma sensação de paz, frágil, mas real, se instalou sobre ela.
Ela construiria sua própria vida, seu próprio legado.
O suave farfalhar de tecido anunciou a chegada de Jéssica.
“Comovente”, zombou Jéssica, sua voz afiada, toda a pretensão de doçura desaparecida. Ela pegou a gardênia.
“Eleonora sempre teve um fraco por vira-latas.”
Antes que Alana pudesse reagir, Jéssica deliberadamente quebrou o caule da gardênia e depois deixou a flor quebrada cair no chão de mármore polido.
“Ops”, disse Jéssica, um sorriso cruel brincando em seus lábios. “Que desastrada.”
Alana olhou para a flor quebrada, depois para Jéssica. A paz se estilhaçou.
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