
Quando o Amor Morreu, a Liberdade Começou
Capítulo 3
“Como você ousa?”, a voz de Alana era baixa, tremendo com uma fúria que ela não sentia desde seu renascimento.
“Eleonora te respeitava, mesmo que ninguém mais nesta família o fizesse. Heitor ficaria furioso se soubesse que você profanou a memória dela assim.”
Ela sabia que Heitor ainda mantinha uma reverência complexa por sua avó.
Jéssica riu, um som agudo e quebradiço.
“Heitor? Ele vai acreditar em qualquer coisa que eu disser. Ele sempre acredita.”
Ela se aproximou, seus olhos brilhando. “E Eleonora? Ela era uma velha tola. Assim como sua mãe, eu suponho. Mulheres fracas, ambas, agarrando-se a homens que não as queriam.”
A menção de sua mãe, que morrera de coração partido e sozinha anos atrás, foi uma facada deliberada e cruel.
Alana explodiu.
O som de sua palma atingindo a bochecha de Jéssica ecoou no pequeno nicho.
Jéssica ofegou, a mão voando para o rosto, os olhos arregalados de choque e, em seguida, fúria.
“Sua vadia!”, Jéssica gritou, avançando sobre Alana, as unhas estendidas.
Alana se esquivou, mas Jéssica, desequilibrada, tropeçou.
A mão de Jéssica se debateu, procurando apoio. Encontrou o mármore liso e frio da urna de Eleonora.
Com um estrondo horrível, a urna tombou, derramando as cinzas de Eleonora pelo chão em uma nuvem cinzenta e nauseante.
Alana congelou, o horror a invadindo.
Jéssica olhou para as cinzas espalhadas, seu rosto uma máscara de pânico.
“Oh, meu Deus”, ela sussurrou. “Oh, meu Deus, não.”
O estrondo, o grito de Jéssica – isso os fez correr.
Heitor foi o primeiro a chegar, seu rosto furioso. Seus tios e tias se aglomeraram atrás dele.
Ele avaliou a cena: Alana de pé, Jéssica no chão, lágrimas escorrendo pelo rosto, e as cinzas de Eleonora… por toda parte.
“Alana!”, Heitor rugiu, sua voz crua de dor e raiva. “O que diabos você fez?”
Ele não perguntou. Ele acusou. Instantaneamente.
Jéssica, sempre a atriz, explodiu em soluços teatrais.
“Heitor, oh, Heitor!”, ela chorou, apontando um dedo trêmulo para Alana. “Ela me atacou! Eu tentei impedi-la, mas ela… ela derrubou a urna da vovó! Ela disse… ela disse que Eleonora merecia por forçar você a se casar com ela!”
A mentira era monstruosa, mas entregue com uma histeria tão convincente que os espectadores ofegaram.
Alana abriu a boca para falar, para negar, mas nenhuma palavra veio. A audácia da mentira, a pura malícia, roubou-lhe o fôlego.
O clã Carvalho explodiu.
“Monstruoso!”
“Ela precisa ser punida!”
“Chame a polícia!”
Tia Carolina, seu rosto contorcido de raiva, apontou para Alana. “Na minha época, uma mulher como essa seria açoitada!”
O veneno em suas vozes era palpável. Eles sempre quiseram acreditar no pior dela. Jéssica acabara de lhes dar a justificativa em uma bandeja de prata.
Heitor caminhou em direção a Alana, seus olhos ardendo com um fogo frio que ela vira muitas vezes em sua vida passada.
“Você vai pagar por isso, Alana”, disse ele, sua voz perigosamente baixa.
Ele listou seus supostos crimes, sua voz ressoando com condenação: “Desrespeitar a memória da minha avó. Agredir Jéssica. Profanar este espaço sagrado.”
Ele agarrou seu braço, seus dedos cravando-se em sua carne. “Você é uma vergonha para esta família, para o nome de Eleonora.”
Ele nem mesmo considerou o lado dela. Ele nunca o fazia.
“Heitor, não, me escute”, Alana implorou, tentando libertar o braço. “Jéssica está mentindo! Ela quebrou a flor, ela-”
O rosto de Heitor endureceu. “Silêncio!”
Ele a empurrou, com força. Alana tropeçou para trás, sua cabeça batendo bruscamente na parede de pedra.
Estrelas explodiram atrás de seus olhos.
A dor foi imediata, intensa.
Através de uma névoa de tontura, ela viu Heitor se afastar dela.
Ele se ajoelhou ao lado de Jéssica, sua expressão suavizando instantaneamente.
“Você está bem, Jess?”, ele murmurou, gentilmente enxugando uma lágrima de sua bochecha. “Ela te machucou?”
Sua ternura para com Jéssica, mesmo enquanto a cabeça de Alana latejava, era uma ferida mais profunda do que qualquer golpe físico.
Aquele toque gentil, aquele olhar preocupado – era tudo o que Alana sempre desejara, e era direcionado à mulher que acabara de orquestrar sua humilhação total.
A injustiça de tudo aquilo era um comprimido amargo.
Alana deslizou pela parede, a força se esvaindo de seus membros.
O quarto girou.
A voz de Heitor, fria e distante, cortou a névoa. “Tirem-na daqui. Não quero ver o rosto dela de novo.”
Mãos rudes a ergueram.
Ela foi arrastada, sem cerimônia, do nicho, passando pelos olhares horrorizados e julgadores dos Carvalho.
A última coisa que ela viu antes que a escuridão a reivindicasse foi Heitor embalando a mão de Jéssica.
Alana acordou horas depois, sozinha, em um quarto de hóspedes que não reconhecia.
Sua cabeça latejava implacavelmente. Um hematoma grande e sensível estava se formando em sua têmpora.
A dor física era um lembrete gritante e brutal da crueldade de Heitor, de sua devoção cega a Jéssica e de seu completo isolamento dentro da família Carvalho.
Ela estava verdadeiramente, completamente sozinha nisso.
Mas uma resolução fria se instalou em seu coração. Esta foi a gota d'água. Não haveria mais chances, nem mais esperança para Heitor.
Seu telefone vibrou na mesa de cabeceira. Uma mensagem de um número desconhecido.
Era uma foto: Heitor e Jéssica, taças de champanhe erguidas, uma suíte de hotel luxuosa ao fundo.
A legenda: “Celebrando novos começos. Algumas pessoas simplesmente não conseguem lidar quando os outros estão felizes. ;) - J”
Outra mensagem se seguiu: “Heitor disse para te dizer que espera que você tenha aprendido a lição. Ele é tão fofo quando está protetor.”
Alana olhou para as mensagens, sem lágrimas, sem raiva. Apenas um vazio profundo e cansado.
Jéssica não pararia. Heitor não veria.
Alana se levantou, gemendo. Ela encontrou uma lata de lixo.
Um por um, ela começou a descartar os restos de sua vida passada com Heitor que ela ainda carregava, mesmo nesta vida renascida.
Uma pequena foto emoldurada deles no dia do casamento – Eleonora havia insistido. Alana quebrou o vidro e rasgou a foto ao meio.
Um delicado medalhão de ouro que Heitor lhe dera em seu primeiro (e único) aniversário, um presente superficial. Ela quebrou a corrente.
Cartas que ela havia escrito para ele, cheias de amor e esperança não expressos, nunca enviadas. Ela as rasgou em pedacinhos.
Cada ato era uma ruptura, um desapego.
A porta se abriu sem uma batida. Heitor estava lá, o paletó do terno retirado, a gravata afrouxada.
Ele examinou o quarto, os itens descartados, Alana perto da lata de lixo.
Um sorriso de escárnio tocou seus lábios. “Mais drama, Alana? Tentando me fazer sentir culpado destruindo suas pequenas bugigangas? Não vai funcionar.”
Ele pensou que isso era outro apelo por sua atenção, outro jogo manipulador.
Ele ainda não entendia. Ele nunca entenderia.
Alana olhou para ele, um sorriso genuíno, fraco, mas real, tocando seus lábios.
“Na verdade, Heitor”, disse ela, sua voz calma, quase leve. “Estou apenas arrumando as coisas.”
Ela o encarou diretamente. “Estou bastante ansiosa para que o divórcio seja finalizado. A ideia de estar completamente livre de você, de tudo isso… é bastante emocionante.”
O sorriso se alargou e, pela primeira vez, alcançou seus olhos, brilhando com um brilho frio e duro.
O sorriso de escárnio de Heitor vacilou. Ele deu um passo para dentro do quarto, seus olhos se estreitando.
“O que você disse?”, ele exigiu, agarrando seu braço, seu aperto firme.
Alana não vacilou. Ela olhou para a mão dele em seu braço, depois de volta para o rosto dele.
“Eu disse”, ela enunciou claramente, “Eu. Quero. Você. Fora. Da. Minha. Vida. Para. Sempre.”
Ela puxou o braço, não com força, mas com uma resolução quieta e inabalável que pareceu atordoá-lo momentaneamente.
“Ficou claro o suficiente para você, Heitor?”
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