
Quando o Amor Morre na UTI
Capítulo 2
Na noite em que o meu filho morreu, o meu marido estava a salvar a ex-namorada dele.
Ela tinha uma constipação.
Ele disse-me ao telefone:
"Inês, a Sofia está com febre, não posso deixá-la sozinha."
Eu olhei para o nosso filho, o Pedro, deitado na cama do hospital, o seu pequeno peito mal se movia.
A máquina ao lado dele apitava num ritmo lento e fraco.
"Miguel," a minha voz tremia, "o Pedro não está a respirar bem. O médico disse que é grave."
"Chama a tua mãe! Ela não pode ajudar? A Sofia não tem ninguém aqui, eu sou tudo o que ela tem."
A voz dele era fria, distante.
Desliguei.
Não havia mais nada a dizer.
Liguei para a minha mãe, mas ela não atendeu. Mais tarde, soube que ela estava num voo para visitar o meu irmão, que tinha tido um acidente de carro.
A vida parecia uma piada cruel.
Sentei-me ao lado do Pedro, segurando a sua mãozinha fria.
Ele tinha apenas cinco anos.
O seu corpo era tão frágil.
A febre que começou de manhã tinha-se transformado num monstro à noite.
Pneumonia grave, disse o médico.
O hospital estava caótico, cheio de pessoas a tossir e a gemer.
Eu estava sozinha no meio da multidão.
O telefone do Miguel estava desligado.
Provavelmente, ele estava a dar sopa à Sofia, a medir-lhe a febre, a contar-lhe histórias para ela dormir.
Ele sempre foi assim com ela.
Cuidadoso, atencioso.
Quando nos casámos, ele prometeu que tinha acabado com ela.
Eu acreditei.
Fui estúpida.
As horas passaram como uma tortura lenta.
O apito da máquina tornou-se uma linha reta.
Os médicos correram para o quarto.
Eles tentaram.
Gritaram ordens.
Usaram o desfibrilador.
O pequeno corpo do Pedro saltou na cama.
Uma vez.
Duas vezes.
Mas o coração dele não voltou a bater.
Um médico pôs a mão no meu ombro.
"Lamento muito."
O mundo ficou em silêncio.
Eu não chorei.
Apenas olhei para o rosto pálido do meu filho.
O meu menino.
O meu Pedro.
Tinha desaparecido.
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