
Quando o Amor Morre na UTI
Capítulo 3
Saí do hospital quando o sol estava a nascer.
As ruas estavam vazias, a cidade ainda a dormir.
Eu sentia-me oca, como se tivessem tirado tudo de dentro de mim.
Fui para casa.
A nossa casa.
A casa que eu e o Miguel tínhamos construído juntos.
Agora parecia o túmulo das minhas esperanças.
Abri a porta.
O Miguel estava sentado no sofá, a dormir.
A sua cabeça estava encostada para trás, a boca ligeiramente aberta.
Ele parecia cansado.
Ao lado dele, no chão, estava uma tigela de sopa vazia e uma caixa de medicamentos.
Para a Sofia, claro.
Caminhei até ele e toquei-lhe no ombro.
Ele acordou sobressaltado.
"Inês? O que se passa? Porque é que a tua cara está assim?"
Ele olhou para o relógio.
"Já é de manhã? Eu adormeci. A Sofia finalmente conseguiu dormir."
Eu olhei para ele.
Não havia dor nos seus olhos, apenas cansaço e irritação.
"O Pedro morreu," disse eu.
A minha voz era plana, sem emoção.
Ele franziu a testa, como se não tivesse entendido.
"O quê? Do que estás a falar? Morreu? Como assim?"
"Ele parou de respirar. O coração dele parou."
O Miguel levantou-se de repente.
"Isso é impossível! Era só uma febre! Tu exageras sempre!"
"Os médicos disseram que era pneumonia grave."
Ele passou as mãos pelo cabelo, andando de um lado para o outro na sala.
"Merda! Porque é que não me ligaste mais vezes? Porque é que não me disseste que era assim tão sério?"
"Eu liguei. Tu desligaste o telefone."
"Eu estava ocupado! A Sofia estava a arder em febre, ela podia ter tido uma convulsão! Ela estava sozinha e assustada!"
Sozinha e assustada.
E eu? E o nosso filho?
"Ela é uma mulher adulta, Miguel. O nosso filho era uma criança."
Ele parou e olhou para mim, a sua cara vermelha de raiva.
"Estás a culpar-me? É isso? Estás a dizer que a culpa é minha?"
"Eu não estou a dizer nada. Estou a constatar um facto. O nosso filho morreu, e tu não estavas lá."
"Eu não podia estar em dois sítios ao mesmo tempo!" gritou ele.
"Tu fizeste uma escolha."
Ele aproximou-se de mim, o seu dedo apontado para a minha cara.
"Não te atrevas, Inês. Não te atrevas a pôr a culpa em mim. Nós vamos superar isto juntos, como uma família."
Família.
Que piada.
Olhei para o rosto dele, o rosto que eu já amei tanto.
Agora, só sentia nojo.
"Não há 'nós'," disse eu calmamente. "Eu quero o divórcio."
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