
Quando o Amor É Uma Farsa
Capítulo 2
A celebração do décimo aniversário de casamento de Ana e Marcos foi o evento social do ano, um testemunho do que todos consideravam uma união perfeita, o restaurante de Marcos, premiado com três estrelas Michelin, serviu de palco para a festa, e cada detalhe refletia a imagem de sucesso e felicidade que construíram juntos. Ana, uma artesã de azulejos cujo talento era tão discreto quanto notável, observava tudo com um sorriso sereno, sentindo que seu maior sonho, o de ter uma família, havia se realizado plenamente.
Ao seu lado, Marcos, o chef carismático e aclamado, era a imagem do marido perfeito, e a filha deles, Sofia, uma garota de nove anos com um talento prodigioso para o piano, completava o quadro, sua música enchia o salão, um som que para Ana era a própria trilha sonora da felicidade.
"A mamãe é a mulher mais sortuda do mundo" , Sofia disse a um dos convidados, com a inocência que só uma criança possui.
Ana sentiu o coração aquecer, puxou a filha para um abraço e beijou o topo de sua cabeça, tudo parecia perfeito, exatamente como ela havia sonhado durante anos.
Foi então que uma mulher entrou no salão, sua presença mudou a atmosfera instantaneamente, ela era alta, elegante, com um sorriso que parecia ao mesmo tempo caloroso e calculado, mas o que fez Ana prender a respiração foi o rosto dela, era quase um espelho do seu. Os mesmos olhos amendoados, o mesmo formato do queixo, o mesmo cabelo escuro e liso, era uma semelhança perturbadora, quase irreal.
Marcos, que estava rindo com um grupo de amigos, congelou, seu sorriso desapareceu e uma expressão complexa tomou conta de seu rosto, uma mistura de choque, nostalgia e algo mais, algo que Ana não conseguiu decifrar.
"Clara" , ele sussurrou, o nome saindo de seus lábios como um fantasma.
Sofia, por outro lado, pareceu instantaneamente encantada, ela parou de tocar e olhou para a recém-chegada com uma curiosidade intensa, como se estivesse vendo uma celebridade.
Clara caminhou diretamente até Marcos, ignorando todos os outros, "Marcos, querido, quanto tempo."
Sua voz era suave, mas carregava um peso que preencheu o silêncio que se formara ao redor deles, ela o abraçou, um gesto íntimo e demorado que fez o estômago de Ana revirar.
Ninguém precisou dizer a Ana quem era aquela mulher, ela era a famosa ex-namorada, a designer de interiores de quem Marcos raramente falava, mas cuja sombra sempre pareceu pairar sobre o relacionamento deles, o "primeiro amor" , a história não resolvida.
O choque inicial de Ana deu lugar a uma dor aguda quando ela ouviu um cochicho vindo de uma tia de Marcos, que estava perto.
"Meu Deus, ela é a cara da Clara quando era mais nova, agora eu entendo tudo."
As palavras atingiram Ana com a força de um soco, de repente, dez anos de sua vida foram reescritos sob uma luz terrível e humilhante, cada gesto de carinho de Marcos, cada palavra de amor, cada momento de felicidade compartilhada, tudo se tornou uma farsa, uma imitação barata. Ela não era a escolhida, era a substituta.
A festa continuou, mas para Ana, a música havia parado, a comida perdeu o sabor e os sorrisos ao seu redor pareciam máscaras grotescas.
Alguns dias depois, a rachadura na fachada de sua vida perfeita se aprofundou, era o aniversário de Sofia, e a menina, que sempre amou os presentes artesanais que Ana fazia para ela, desta vez parecia indiferente ao conjunto de azulejos pintados à mão que a mãe lhe deu. Em vez disso, seus olhos brilhavam para a caixa grande e brilhante que Clara havia enviado.
Dentro, havia um teclado eletrônico de última geração, muito mais sofisticado do que o piano antigo que Sofia usava.
"É incrível! A tia Clara sabe exatamente do que eu gosto!" , Sofia exclamou, correndo para abraçar o pai.
Ana sentiu uma pontada no peito, "Mas, querida, eu pensei que você gostasse das coisas que eu faço."
Sofia deu de ombros, "Isso é legal, mamãe, mas... isso é muito melhor."
Ana olhou para Marcos, esperando que ele dissesse algo, que defendesse o valor do presente dela, que explicasse para a filha o amor contido naquelas peças de cerâmica.
Mas Marcos apenas sorriu para Sofia, afagando seu cabelo, "Ela é só uma criança, Ana, deixe-a aproveitar o presente novo."
A displicência em sua voz era mais dolorosa do que qualquer grito, ele não estava apenas defendendo a filha, estava defendendo Clara, estava validando a intrusão dela em suas vidas, estava, mais uma vez, colocando Ana em segundo plano.
A prova final da nova ordem das coisas veio uma semana depois, de forma brutal, Ana estava na cozinha, preparando o jantar, quando sentiu uma tontura súbita, ela tinha uma alergia severa a amendoim, e sentiu o gosto familiar e perigoso em um petisco que Marcos trouxera para casa, sua garganta começou a fechar, sua respiração ficou difícil.
Ela tropeçou na sala, buscando ajuda, e caiu no chão, lutando para respirar, Marcos estava no telefone, sua voz baixa e íntima. Ana conseguiu ouvir o nome de Clara.
"Marcos!" , ela ofegou, a voz um sussurro rouco.
Ele a olhou, a irritação clara em seu rosto por ter sido interrompido, "O que foi, Ana? Estou ocupado."
Então ele viu o estado dela, o pânico começou a aparecer em seus olhos, mas sua reação foi lenta, como se seu cérebro estivesse processando duas realidades conflitantes, ele disse algo rápido ao telefone e desligou, mas a hesitação, aquele segundo em que ele pesou a importância da ligação contra a emergência de sua esposa, foi um veredito.
Enquanto ele se atrapalhava para encontrar o antialérgico, a mente de Ana, turva pela falta de ar, focou em uma única coisa, o som de uma notificação suave que só ela podia ouvir.
Era o Sistema, uma entidade guia que a acompanhava desde que ela chegou àquele mundo, uma voz que quantificava o imensurável.
[Afeto de Marcos por você: 100%.]
A notificação brilhou em sua visão periférica, uma contradição cruel e absurda à realidade de seu corpo lutando pela vida no chão da sala, enquanto seu marido demorava a agir por causa de outra mulher.
Como podia ser 100%? Como o amor podia ser medido por dados frios quando as ações dele gritavam o contrário?
Naquele momento, caída no chão, Ana entendeu que sua dor, sua desilusão e sua luta eram invisíveis para os números, e talvez, para o homem com quem ela havia passado uma década. A perfeição era uma mentira, e a verdade estava começando a matá-la.
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