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Capa do romance Quando o Amor É Uma Farsa

Quando o Amor É Uma Farsa

No aniversário de dez anos de casada, a vida de Ana desmorona ao descobrir que foi apenas uma substituta para Clara, o antigo amor de seu marido, Marcos. Enquanto sua filha a ignora e Marcos prioriza a rival grávida, um sistema de RPG revela dados contraditórios sobre o afeto dele. Após quase morrer por uma armadilha de Clara, o Sistema de Ana desperta, drenando suas emoções. Fria, ela decide abandonar a farsa da década passada e retornar ao seu verdadeiro mundo.
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Capítulo 3

A memória veio sem ser convidada, nítida e dolorosa, enquanto Ana se recuperava no sofá, com o coração ainda acelerado pelo susto da reação alérgica, ela se lembrou de cinco anos atrás, quando o restaurante de Marcos estava à beira da falência. Uma crítica negativa de um influente crítico gastronômico e uma série de investimentos ruins o deixaram desesperado, prestes a perder tudo o que havia construído.

Na época, Ana tinha seu próprio ateliê de azulejos, um espaço pequeno, mas que era seu santuário, o lugar onde sua arte ganhava vida, ela havia recebido uma oferta generosa de uma grande galeria de arte de São Paulo, uma oportunidade que poderia lançar sua carreira a um novo patamar.

Mas ela viu o desespero nos olhos de Marcos, a forma como o sonho dele se desfazia, e sem hesitar, ela recusou a oferta da galeria e vendeu seu amado ateliê, junto com todo o seu estoque de peças prontas, ela pegou cada centavo da venda e entregou a ele.

"Use isso para salvar o restaurante" , ela disse, colocando o cheque em sua mão, "Seu sonho é o meu sonho."

Marcos chorou, a abraçou e prometeu que nunca esqueceria o que ela fez por ele, por eles, e por Sofia. Com o dinheiro, ele conseguiu renovar o restaurante, contratar um novo publicitário e reverter a situação, o sacrifício dela foi a base sobre a qual ele reconstruiu seu império.

Agora, deitada no sofá, a lembrança desse sacrifício tinha um gosto amargo, ela não se arrependia de tê-lo ajudado, mas se perguntava se ele se lembrava do preço que ela pagou.

O som suave do Sistema a tirou de suas memórias.

[Analisando a dúvida da usuária. O mecanismo de medição de 'Afeto' é baseado em uma compilação de dados biométricos do alvo: frequência cardíaca, liberação de dopamina e ocitocina, dilatação da pupila e instintos de proteção subconscientes quando a usuária está presente.]

A voz do Sistema era, como sempre, neutra e factual.

[Com base em todos os parâmetros mensuráveis, o afeto de Marcos por você permanece em 100%. Os dados não mentem. O amor dele é real.]

Ana fechou os olhos, uma dor de cabeça começando a pulsar em suas têmporas, "Dados..." , ela murmurou para si mesma, "Mas os dados não medem a história, não medem a memória, não medem a razão por trás do afeto."

Ela começou a entender a terrível verdade, talvez o Sistema estivesse certo, talvez os dados biométricos de Marcos realmente disparassem quando ele estava com ela, talvez ele sentisse um amor genuíno, mas por quem? Por Ana, a artesã que vendeu seu ateliê por ele? Ou pela imagem de Clara que ele via nela? O amor dele era real, mas era para a pessoa errada, era um amor roubado, um eco de um sentimento antigo.

A constatação era uma ferida aberta em seu peito, um tipo de dor que nenhum dado poderia quantificar.

Marcos e Sofia voltaram para a sala, seus rostos uma mistura de culpa e preocupação, Sofia segurava um desenho, uma representação infantil dela, de Marcos e de Sofia de mãos dadas sob um sol sorridente.

"Mamãe, me desculpa" , disse a menina, com os olhos marejados, "Eu não queria te empurrar."

Marcos se ajoelhou ao lado do sofá, sua expressão era de puro remorso, "Ana, meu amor, me perdoe, eu... eu entrei em pânico, eu nunca quis te deixar esperando, a ligação não era nada, eu juro."

Ele pegou a mão dela, e o toque que antes a confortava agora parecia estranho, frio, ela aceitou o desenho de Sofia e forçou um sorriso, abraçou a filha e disse a Marcos que estava tudo bem, que ela entendia.

Uma paz frágil se instalou na casa naquela noite, eles jantaram juntos, assistiram a um filme como a família feliz que costumavam ser, Marcos era atencioso, servindo-a, certificando-se de que ela estava confortável, Sofia ficou perto dela o tempo todo, como se para se certificar de que ela não desapareceria.

Mas por baixo da superfície calma, a confiança de Ana estava em pedaços, era como olhar para um vaso lindamente restaurado, você podia admirar a forma, mas sabia que por dentro ele estava cheio de rachaduras, pronto para se quebrar ao menor toque. O amor dele podia ser 100% nos gráficos do Sistema, mas em seu coração, uma porcentagem muito mais importante, a da confiança, havia caído para zero.

Mais tarde naquela noite, incapaz de dormir, Ana se levantou, uma ideia desesperada se formando em sua mente: ir embora, ela caminhou silenciosamente até o quarto, pegou uma pequena mala do armário e começou a colocar algumas roupas dentro, suas mãos tremiam. Para onde ela iria? O que faria? Ela não tinha mais seu ateliê, sua antiga vida.

Mas a dor era tão grande que qualquer lugar parecia melhor do que aquela casa cheia de mentiras.

Quando estava prestes a fechar a mala, ouviu vozes vindas do quarto de Sofia, ela parou, a curiosidade superando sua necessidade de fugir.

Ela se aproximou da porta, que estava entreaberta, e espiou, Marcos estava sentado na cama de Sofia, falando ao telefone em um sussurro.

"Sim, ela adorou o teclado... Não, não se preocupe, a Ana vai superar... Amanhã? Sim, podemos ir ao parque de diversões, ela vai amar... Mas escute, Sofia" , ele se virou para a filha, que estava deitada na cama, ouvindo atentamente, "Este é o nosso segredinho, ok? Não conte para a mamãe, ela ficaria triste por não poder ir."

Sofia assentiu, um sorriso cúmplice no rosto.

O sangue de Ana gelou, a mala em sua mão pareceu de repente pesar uma tonelada, ela recuou da porta, o som do zíper da mala ecoando em sua mente como o som de sua vida se desfazendo, não era apenas Marcos, agora Sofia também era cúmplice na traição, sua própria filha, guardando segredos para a mulher que estava destruindo sua família.

A breve e frágil paz havia se quebrado, e desta vez, Ana sabia que não havia como juntar os pedaços.

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