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Capa do romance Quando o Amor Deixa de Ser Nosso

Quando o Amor Deixa de Ser Nosso

Clara abdicou de seus sonhos por Arthur, mas cinco anos de dedicação ruíram ao flagrar sua traição. Diante da proposta dele por um casamento aberto, ela aceita como parte de um plano de libertação. Ao retomar sua carreira, reencontra Henrique, um antigo apaixonado agora poderoso, que lhe oferece um novo caminho. Enquanto Clara floresce, Arthur se afunda em ciúmes e culpa após uma tragédia com sua amante, forçando-a a escolher entre o peso do passado e sua nova vida.
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Capítulo 2

A casa ainda cheirava a comida fria.

As velas haviam se apagado há horas, deixando um rastro de cera sobre a toalha branca. O vinho seguia intocado na taça, refletindo as luzes suaves da sala.

Clara estava sentada no sofá, imóvel. O mesmo vestido preto, o cabelo já meio solto, o rosto sem expressão. Não havia lágrimas, só um cansaço profundo, quase silencioso.

O relógio marcava quase meia-noite quando ela ouviu o som da chave girando na fechadura.

Arthur entrou devagar, como quem teme o próprio eco.

— Clara… — ele chamou, a voz rouca, insegura.

Ela não respondeu. Apenas levantou o olhar e o encarou.

Por um instante, o silêncio pareceu uma punição. Ele fechou a porta, respirou fundo e se aproximou, os passos pesados no piso de madeira.

— Eu posso explicar… — começou, hesitando. — Não é o que você pensa.

Clara soltou um riso curto, sem humor.

— Não é o que eu penso? Você estava jantando com outra mulher no lugar onde a gente comemorava o nosso amor, Arthur. O que mais eu preciso pensar?

Ele passou a mão pelos cabelos, nervoso.

— Eu errei, tá? Eu… eu não queria que você descobrisse assim.

— Então o erro não foi trair — foi eu ter visto, é isso?

Arthur fechou os olhos por um instante.

— Eu não sei o que aconteceu. Eu me senti… preso, sufocado. A rotina, o trabalho, tudo igual. Eu te amo, Clara, mas eu preciso respirar.

Ela o olhou, sem raiva, sem gritar. E isso o desarmou mais do que qualquer ataque.

— Você precisava respirar, e por isso escolheu outra mulher?

— Eu não escolhi — respondeu rápido. — Aconteceu. As coisas acontecem.

— Não — ela corrigiu, calma. — As coisas não “acontecem”. Você escolhe. Você decidiu mentir pra mim, decidiu sair com ela, decidiu me enganar.

Arthur ficou em silêncio. Caminhou até o aparador e serviu um pouco de whisky, tentando parecer no controle, mas a mão tremia.

— Eu só queria que você me entendesse — disse, sem encará-la. — Que entendesse que eu não quero perder o que a gente tem.

Clara o observava com uma serenidade quase cruel.

— E o que a gente tem, Arthur?

Ele demorou a responder.

— Uma história. Uma vida. Cinco anos juntos. Eu não quero jogar isso fora. Eu só… — engoliu em seco — eu só quero liberdade.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Liberdade?

Arthur se virou, os olhos marejados.

— Talvez o que esteja faltando pra gente seja… abrir o casamento.

A frase caiu no ar como uma pedra.

Clara piscou devagar, tentando entender se ele realmente tinha dito aquilo.

— Um casamento aberto? — repetiu, em voz baixa.

— Sim — ele disse, com firmeza repentina. — Tem casais modernos que fazem isso, que se permitem viver outras experiências sem que o amor acabe. Eu te amo, Clara. Só acho que a gente precisa… se reinventar.

Ela ficou em silêncio.

Ele interpretou o silêncio como choque e tentou avançar:

— Seria um acordo. Um recomeço. Eu juro, eu quero continuar com você.

Clara levantou-se devagar. O som do tecido do vestido deslizando contra o sofá pareceu amplificar o momento. Ela caminhou até ele, devagar, os olhos fixos nos dele.

— Você quer um casamento aberto, Arthur?

— Quero que a gente tenha espaço pra respirar. Que possamos ser livres sem acabar um com o outro.

Clara o observou por longos segundos.

Então, para total surpresa dele, ela assentiu.

— Está bem.

Arthur piscou, confuso.

— O quê?

— Está bem — repetiu, firme. — Você quer um casamento aberto, então vai tê-lo.

Ele deu um passo pra trás, atônito.

— Clara, eu não disse isso pra te machucar. Eu só… eu não achei que você fosse aceitar.

Ela esboçou um sorriso frio.

— Pois é. Você nunca acha que eu seria capaz de nada, não é? Nem de te enfrentar, nem de te deixar, nem de aceitar isso.

Fez uma pausa. — Mas adivinha? Eu aceitei.

Arthur a encarou, sem entender.

— Você tá falando sério?

— Mais do que nunca — respondeu, com uma calma que parecia perigosa. — A partir de amanhã, estamos “abertos”. Você vive como quiser. E eu também.

Ele a olhou, surpreso, tentando decifrar se ela falava por impulso ou vingança.

Mas Clara apenas se virou, caminhando até o corredor.

Antes de desaparecer no quarto, disse sem olhar pra trás:

— Boa noite, Arthur. E boa sorte com a sua liberdade.

A porta se fechou devagar.

Arthur ficou parado na sala, com o copo ainda na mão, o som do relógio ecoando como um lembrete cruel.

Ele achou que dominava o jogo, mas, sentiu medo.

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