
QUANDO HÁ AMOR
Capítulo 2
DOIS ANOS DEPOIS...
ANNA LIZ
Sentada na minha cadeira de rodas, eu observo o enorme parque. O lugar é simplesmente encantador. Maravilhoso! O final de tarde chega, acompanhado das lembranças mais dolorosas que, um dia já vivi na vida. É sexta-feira! E todas elas, são marcadas por uma diversão no píer. Ouvir o cantarolar dos pássaros e os barulhos das arvores me acalma. Deixei que meus pensamentos corressem soltos. Lágrimas molhando a face, não deixando que eu a impedisse. A dor, ao longo desses dois anos, ainda se encontra em aberto no meu peito.
De maneira nenhuma, conseguia superar o fato de que, eu não andaria mais. De que, depois de um acidente, fiquei paraplégica. Dói-me pensar que, por conta de tudo isso, fui abandonada por meu namorado, quando mais precisei dele. O amava tanto que, quando Eric me ligou, dizendo que gostaria de ter uma conversa comigo, nunca me passou pela cabeça que, ele iria me deixar. No entanto sabia, algo estava errado.
Sua expressão ao me ver, marca a minha memória. Frio. Cruel. Ele olhava-me com pena, nojo, como se eu fosse algo que, ele nunca viu em toda vida.
— Acho que devemos terminar por aqui. — Suas palavras vieram como uma rajada em minha direção, fazendo-me reprimir o choro que, estava preso na garganta. Eu deveria saber que isso estava prestes a acontecer. Desde que ele havia me ligado, mais cedo. Eu sabia! Algo estava errado. — Não acho que podemos ter uma vida normal, depois de você estar assim. — Apontou em minha direção. Eu estava deitada em minha cama. Como sempre, desde que havia voltado do hospital.
Respirei fundo. Olhos vidrados nos seus, não perdendo nenhum dos movimentos.
— Você não pode fazer isso, Eric. — Pedi. As lágrimas nos meus olhos, já começando a se formar. Burra. Não chore!
Ele riu friamente. O canto da boca levantado, em um risinho diabólico.
— Claro que posso. Você sabe muito bem que, não tem a menor chance de darmos certo. Não vou namorar com uma garota que, vai depender de mim para tudo. — Suas palavras rasgam-me por dentro. — Não vamos nem poder fazer sexo, Anna. Se, já era banal estar com você quando andava, imagina só agora que, estará presa em uma cadeira de rodas, para sempre? — Eu o expulso, não o deixando falar mais nem uma palavra sequer.
— Saia da minha casa. — Desta vez, eu que o olho com nojo. — Eu tenho pena do homem que é, Eric. Saia da minha casa e me deixe em paz. — Grito, a respiração faltando. — Eu que não o quero na minha vida. Não sabendo, o ser humano nojento que você é. De forma alguma eu ousaria passar, o resto da minha vida, com alguém de sua índole. Estou presa numa cadeira de rodas, mas estou bem melhor que você. Seja feliz! — Eu digo. Virando o rosto para a parede, onde choro, não me dando conta do que sai de sua boca a seguir, porque estou machucada demais, para me importar.
Fecho os olhos, sentindo o vento contra o rosto, o coração acelerado e doendo. Nunca pude imaginar que, meu próprio namorado, fosse ser a primeira pessoa a me virar as costas. Mas já deveria ter, pelo menos, a noção de que algo assim viria acontecer, vindo de um cara como Eric. Ele sempre estava com seus amiguinhos. Trocava-me sempre, pelos barzinhos, aos sábados, com seus colegas de trabalho. Duas semanas depois, descobri que ele me traia e que todo esse tempo, as reunião, ás minhas costas, com sua amiga que, por sinal, está com ela até hoje. O odeio tanto por isso. Por ter sido tão idiota!
Balanço a cabeça, a fim de espantar para longe, todo o pensamento sobre meu ex, quando mais uma vez, me recordo do dia em que mexi a perna. O súbito susto de uma barata. O inseto tão indefeso, mas que me causa pânico, foi o motivo de muita alegria um tempo atrás. Sempre revivo esse grande momento em minha vida, e o guardo a sete chaves, em minha memória e coração.
A sala está repleta de risos e conversas, mamãe está sentada ao lado do meu pai, em um bate papo animado, sorrindo um para o outro, enquanto eu e Kath, minha melhor amiga, estamos conversando sobre quando vou voltar á faculdade.
— Eu não acho uma boa ideia, Kath. — Respondo sem emoção alguma. Cabisbaixa.
Ela me analisa. Nunca foi de desistir fácil, quando o assunto é me incentivar em algo. A conheci na faculdade. E de todos os meus amigos, a Kath foi a única que restou para contar história. A amo com todo meu coração.
— Por que não, Anna? Você já movimenta seus braços, super bem. Se eu fosse você, tentaria voltar. — Aconselha como sempre.
— Você está errada quanto a isso, eu acho. — Eu rio. — Não consigo nem mesmo, abrir minhas mãos direito. Sei lá, apenas não me acho mais capaz, para fazer tal coisa. — Murmuro sem jeito. — Mas prometo que vou tentar.
Abre um enorme sorriso.
— Vai dar tudo certo. — Tranquiliza-me. Eu sorrio alegremente, confiando em suas palavras.
— Eu sei que vai. Agora por favor, você pode pegar uma água para mim? — Faço meu melhor beicinho, o que a faz rir e revirar os enormes olhos verdes esmeraldas.
— Você é uma aproveitadora, isso sim. — Gargalho, não conseguindo segurar, a risada escandalosa que me escapa.
Kath sai, me deixando pensativa sobre o assunto, faculdade. Não que seria uma boa ideia voltar, mas acho que, está na hora de começar a enfrentar meus medos. Desde que sofri o acidente, me distanciei de muitas coisas. Podem me chamar de fraca o quanto quiserem, mas acontece que, não me sinto pronta o suficiente, para estar sob a mira de pessoas maldosas. A insegurança sempre esteve comigo, e eu simplesmente, não consigo mandá-la ir á merda. Porque era isso que deveria fazer e não ficar me importando com opiniões bobas.
Movo minha cabeça em direção a minha mãe que, me olha agora com carinho, ela tem suas mãos entrelaçadas com as de papai. Meus pés, estão apoiados sobre o pedal da cadeira, onde eles descansam, o tempo em que estou nela. Distraidamente, levo minha mão direita á calça de pijama que visto, tirando fios imaginários de lá, quando meus olhos pousam em uma barata, próxima ao meu pé. O bicho nojento, tem suas antenas balançando de um lado para o outro e o súbito susto, faz com que eu solte um grito e tire meu pé do pedal da cadeira. Por um segundo, aquele bicho não importa mais, porque no minuto seguinte, lágrimas de alegria transbordam meus olhos. Eu olho na direção onde meu pé direito está agora e depois na direção dos meus pais que, me olham atentos. Boquiabertos. Olhos repletos por lágrimas. Emoção total. Só então, percebo que eles não estão mais sentados e sim em pé e, que Kath, tem seus olhos esbugalhados e um largo sorriso. Ela viu! Todos viram!
— Oh, meu Deus! Vocês... — Não sou capaz de concluir a frase, porque meu choro de felicidade, me impede. Foi real, eu senti.
Todos balançam a cabeça, dizendo a mim que sim, que eles presenciaram esse momento tão lindo.
— Mamãe, eu movimentei a perna. — Grito, eufórica. Felicidade absoluta.
Ela sorri gigante.
— Sim. Eu vi, filha! — Responde sorrindo e chorando ao mesmo tempo.
— Oh meu Deus, oh meu Deus. — Kath pula em cima de mim, o copo com água que ela tem na mão, sendo derramado sobre minha cabeça, me dando um banho. Ela me aperta em seus braços, em um abraço carinhoso. — Anna, tenta voltar com a perna outra vez. — Incentiva.
— Vamos lá, filha. Você consegue. — É papai que diz — Você não sabe o quanto esse movimento me deixou feliz. Eu a amo tanto. — Chegando perto, ele alisa meu rosto. É terno.
Tento voltar com pé, mas nada acontece. É como se tivesse um peso sobre a minha perna, me impossibilitando de movê-la. Ergo o olhar e encaro todos, na sala, tristes.
— Não consigo. Talvez tenha sido pelo susto. — Dou de ombros.
— Está tudo bem. — Mamãe me abraça forte. — Você vai conseguir outra vez. — Sorri, tentando passar conforto. — A amo minha pedra preciosa, você sabe disso, não sabe? Não precisa chorar. Você irá conseguir outra vez. — Torna a repetir, com carinho.
— É, Anna, nós te amamos. — Kath fala, se juntando a minha mãe e meu pai, me dando um enorme abraço.
— Eu também os amo. Muito. — Por fim, eu disse.
E realmente os amo muito. Eles são minha razão e fortaleza. O jeito que eles vibraram quando eu, sem querer, realizei aquele pequeno movimento, fez com que meu coração transbordasse do mais puro amor. Foi genuíno e verdadeiro. Aquele, sem dúvidas, foi o dia mais feliz da minha vida e, assim como o acidente, eu não iria esquecê-lo, nunca.
— Anna! — Saio do meu pequeno transe, com a voz inconfundível de Kath.
Sabia que ela ia me encontrar de qualquer jeito. Nunca consigo me esconder, nem me livrar dela. Eu sorrio largo para minha melhor amiga. Ela vem em minha direção. Kath é uma mulher bonita. Seus cabelos estão arrumados, numa belíssima trança escama de peixe, de lado, o que é de se estranhar, porque ela nunca prende os cabelos, eles sempre estão soltos. Veste uma calça skinny preta, uma camiseta e nos pés, ela tem sapatilhas. Ela as coleciona.
— Oi, Katherine. — Revira os olhos pela forma que chamei. Sorrio!
Se aproximando, ela me dá um beijo estalado na bochecha.
— Ai, Kath está me babando toda, credo! — Brinco, fazendo-a semicerrar os olhos.
— Ah, para de ser tão chata. — Encolho os ombros, gargalhando. Adoro provocá-la.
Senta-se ao meu lado na grama.
— Eu sabia que você estava aqui. E olha só, você está tão linda hoje, e nem fui eu quem a arrumei. — Pisca os olhos em charme. Ela é uma provocadorazinha.
— Claro que estou. A dona Melanie escolheu o vestido. Foi presente dela. — Dou a ela um sorriso largo, mas de uma hora para outra, seu olhar fica triste.
—Você estava chorando? — Desvio meu olhar rapidamente, não querendo que ela veja. – Anna, já conversamos sobe isso. — Diz com carinho, sua mão alcançando a minha.
Meneio a cabeça.
— Eu só lembrei do dia em que movimentei minha perna. Foi apenas isso, Kath. — Um sorriso, brinca em sua boca. Sei que esse foi um dos dias mais felizes de sua vida, também. Ela sempre diz que, minha felicidade é sua.
— Sim. Foi com toda certeza, o dia mais feliz da minha vida. Nunca o esquecerei. —Lágrimas se formam em seus olhos. — Mas agora, chega de chorar. — Se levanta de onde está. — Você quer que eu a leve para casa? — Me olha atentamente.
Nego.
— Não precisa Kath, eu posso ir sozinha.
—Tem certeza? – Preocupação marca sua feição. Meneio a cabeça.
— Claro que tenho sua boba, só irei passar no senhor Martins, antes. Preciso comprar aquele biscoito que gosto, tenho certeza que o papai esqueceu. Ele anda trabalhando demais. Não o culpo.
— Qualquer coisa, Anna. Você está me ouvindo? — Balanço a cabeça, sorrindo com seu jeitinho preocupado. — Qualquer coisa você me liga e eu prometo que venho correndo, ok?
— Sim, mamãe! — Brinco revirando os olhos, fazendo-a gargalhar.
— Vou indo então. Se cuida.
Fico um pouco mais no parque. Olhando o sol que, está se pondo atrás das montanhas. A paisagem me encanta. Já deve ser quase 18:00 horas então, decido ir embora, pois não consigo andar na rua, se ficar um pouco mais tarde. O tempo está frio. Giro a cadeira, começando a movê-la devagar, indo em direção a saída do parque. A cadeira de rodas é automática, faz alguns meses que, eu ganhei do meu pai. Confesso que, é bem melhor que a outra que eu usava, além de ser bastante confortável. Passo pelos enormes portões e quando estou atravessando a extensa avenida, uma chuva acompanhada de trovoadas, cai sobre mim. Molhando-me inteira. Os carros freando, vindo em minha direção, me apavoram e faz-me recordar daquele maldito dia. O ataque de pânico me toma.
De repente, a cadeira para no meio da avenida movimentada, a respiração falha. Os pulmões parecem não me obedecerem. Sinto-me sufocada. Oh, Jesus! De novo não!
— Parem! — Grito por sob o barulho das buzinas, em completo desespero. — Por favor, parem. — Lágrimas ardentes, tomam conta dos meus olhos, fazendo as vistas ficarem embaçadas.
Os carros passam em alta velocidade. A cadeira de rodas, não se move para lugar algum. Tento forçar, mas ao invés de conseguir movimentá-la, eu vou ao chão, caindo, encolhida. Chorando feito um bebê. Precisando de ajuda, mas sem ter alguém que faça algo por mim. Ouço quando as pessoas passam, jorrando ofensas em minha direção. São dolorosas as palavras que saem da boca, de cada uma dessas pessoas.
Tomara que morra.
Levanta-se daí, garota!
Sufoco o grito que, quer me escapar e me encolho, a fim de amenizar a dor que queima dentro de mim. Choro baixinho, chamando por minha mãe e permaneço ali. Quebrada, assustada. De repente, todo flashback do acidente, aparece na minha mente, como um filme de terror, me atormentando ainda mais e levando-me ao dia mais infeliz da minha vida. O cheiro forte de sangue, paira no ar e me apavora. É como se aquilo estivesse acontecendo, outra vez. Maldito acidente!
Então, não ouço nada. Tudo parece distante ao meu redor. Apenas sinto, quando braços firmes me pegam e me segura contra o peito. Acalentando-me. Acalmando-me.
— Peguei você. Está tudo bem agora. — A voz é rouca, mas é suave igual, como se fosse a voz de um anjo.
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