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Capa do romance Psicomal

Psicomal

No reino de Teran, onde magos e totens desfrutam de uma harmonia quase perfeita guiada pela essência, a felicidade aparente esconde perigos. Conrado, um investigador ambicioso, é chamado para desvendar uma série de homicídios misteriosos que assolam a região. Ao lado da jovem Solluáh, ele confronta segredos sombrios há muito enterrados. Enquanto isso, uma névoa de vingança emerge das profundezas da terra, ameaçando a paz desta crônica fantástica.
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Capítulo 2

O ar estava fresco quando o Mister Pontudo lambeu os meus dedos repletos de creme de banana. Levantei sonolento, tropeçando e derrubando as coisas ao seu redor. Uma fina camada de poeira e serragem levantou me fazendo tossir e espirrar.

Minha cabana sempre foi uma bagunça, e isso porque era apenas um grande cômodo com um banheiro externo. O fogo da lareira estava baixo e o ar com cheiro de banana e lenha.

Na porta de entrada havia um aviso na soleira, o papel pardo tinha sido rasgado as pressas de algum bloco de notas e escrito com força.

"Cadê, meus bonecos de madeira!? Eu os quero para amanhã, se não, não quero mais. - S.M"

- Vê isso Mister Pontudo? - Balancei o recado na frente do meu totem que me olhava com curiosidade. - Coma essa merda.

O unicórnio mastigou o papel derrubando baba no chão e balindo de satisfação. Lavei meus dedos e o rosto na pia cheia de pratos, panelas e potes de doces de banana vazios, tentando desaparecer com o sono e aliviar a irritação da cobrança logo de manhã.

- Esses políticos sempre mimando seus filhos, - Reclamei, passando o espanador nas minhas criações de madeira, eram objetos sagrados para mim. - Eles esquecem que tenho que cortar a árvore certa, trazê-la para minha oficina, picá-la com cuidado, trabalhá-la com amor e depois dar molde a minha arte.

Mister Pontudo eriçou os pelos arroxeados quando a poeira caiu sobre sua a cabeça, bateu seu chifre azul-pérola e seus cascos rosa na minha perna grossa e peluda em reprovação, e começou a morder um pedaço de acrílico jogado no chão. Eu havia tentado migrar para essa nova tecnologia, mas confesso que não consegui, mexer com madeira era a minha essência.

Passei pela minha obra prima, que ocupava a maior parte da cabana, fazendo uma pequena reverencia com lágrimas caindo pelo meu rosto redondo e barbudo. Era minha perfeição, todo o talento que tinha estava nessa escultura. Acredito que os primeiros magos de Teran sentiram o mesmo que eu quando aprenderam a dobrar a vontade e a energia; completude e o extase.

Me senti muito mal desenterrando-a, mas era algo que eu tinha que fazer, ou iria enlouquecer. Ela estava em minha mente todos os dias, era demais para mim suportar a perda dEla. Gastei dias olhando para o corpo da garota para conseguir de forma rude e falha captar toda a beleza e perfeição da pobre menina. Me arrependo de ter violado tão celestial deusa. Usei a própria árvore que havia sido usada como arma para Seu suicídio, e ainda, depois fiz com o resto a minha segunda melhor criação de todas; um braço mágico para o irmão da minha amada.

Como me doía e me inspirava olhar para ela, parecia viva. Ah, se eu soubesse usar magia de inanimação, mas não possuía dom para isso.

Afiei o meu machado mágico do jeito antigo - usando pedras de diamantes, e coloquei meu monóculo, já fazia algum tempo que não enxergava direito e era a única coisa que conseguia comprar com as baixas vendas das artes em madeira. Melhor ter um olho do que nenhum.

Não havia perigo em andar pelas belas e mágicas florestas de Ligência, mas eu e o meu totem olhávamos com atenção para as árvores, pois em Teran a magia estava em todo canto. Mister Pontudo tinha o olfato impecável pra essas coisas e me ajudava a evitar de cortar uma casa sagrada ou um altar familiar por acidente. Eu não queria ser devorado por um clã de fadas ou ter alguma maldição familiar.

Caminhamos por mais de duas horas até que o meu unicórnio encontrou uma árvore. Ele estava meio estranho naquele dia, se assustando com qualquer barulho e com as patinhas tremendo mais que o habitual. Ainda lembro-me do dia que ganhei meu totem de felicidade e fofura, eu havia acabado de fazer uma escultura de madeira de minha falecida mãe tão boa que meu pai disse que se orgulhava de mim e foi quando conheci a Valentina. Eu tinha dez anos, muito precoce dizia meu pai para todos da nossa fabrica.

Eu encarei a árvore grande, larga e jovem, renderia muito bons bonecos e talvez alguns móveis novos. Estiquei o corpo e balancei o machado de um lado para o outro o encaixando perfeitamente nos calos das mãos.

- Afiar, Picar e Desmembrar. - Recitei olhando fixamente para o fio do machado que tomou uma coloração rosada. - Veloz e Cortante.

Levantei o machado segurando a respiração, desci-o acertando o primeiro golpe e "crack" fez o machado beijando a árvore. Sorri puxando-o e levantando-o novamente.

Um arrepio correu pela minha espinha e um suor gelado desceu em minhas costas me fazendo parar o movimento. Eu não havia percebido o quanto a floresta estava silenciosa, o que era anormal em Teran; a natureza era viva e intensa.

Olhei para o Mister Pontudo que estava com os olhos de íris-multicoloridas arregalados olhando em todas as direções e com o rabinho entre as pernas, isso começava a me assustar. Os unicórnios não são conhecidos por serem os totens mais corajosos, mas Mister Pontudo estava tremendo e choramingando, o que me fazia querer ir embora.

- Pare com isso seu covarde. - Ralhei, não sei se para ele ou para mim mesmo, preparando o outro golpe. - Não há nada de mal aqui.

Me concentrei e golpeei a árvore mais cinco vezes. Quando levantei os olhos percebi que a floresta estava escura; o que era estranho, pois estávamos no meio-dia e era o momento em que os sóis se uniam e deixava o mundo em tonalidades roxas claras.

Senti olhos em minhas costas, mas quando me virei não tinha ninguém. Não havia cantos de pássaros e nem tilintar de fadas. Engoli em seco.

Um desejo me veio sussurrado a mente. Eu queria sair correndo com o Mister Pontudo no colo e cair sobre ele para que o seu chifre perfurasse meu peito. Aproximei-me do meu totem pronto para fazer isso, mas me contive, me dando um tapa no rosto.

Olhei para os lados tendo a sensação de que as árvores estavam mais próximas de mim, mais distorcidas, mais vivas e mais malignas. Isso não era possível, árvores não faziam mal para magruxeiros.

- Mister Pontudo, vamos embora. - Sussurrei.

Guardei meu machado mágico na proteção e sai correndo. Ouvi um murmúrio e fiz a burrada de olhar para trás, uma árvore surgiu em minha frente, eu dei de cara derrubando meu machado e meu monóculo, senti o gosto de ferro na boca e sangue escorrer do nariz, mas não iria gastar tempo procurando coisas ou me preocupando com machucados, eu precisava correr.

Eu ouvia um choramingo por perto, mas não iria cometer o erro de olhar para trás novamente. Corri descontroladamente. Galhos surgiam e cortavam meu rosto. Parecia que as raízes estavam tentando me derrubar, era loucura, a natureza não fazia mal aos magruxeiros. A névoa ficava cada vez mais espessa e rígida. Isso não era possível, na verdade era, mas não era natural ou fácil de se fazer.

Mister Pontudo baliu, saiu em disparada e desapareceu. Eu estava tão amedrontado que minha voz não saía e sentia algo quente escorrer pelas minhas pernas. Isso não era possível negava minha mente.

O ar faltava em meus pulmões, correr não era para pessoas gordas e grandes como eu. Parei pra descansar com meu coração batendo em meus ouvidos. Sentia vontade chorar, mas engoli o choro quando ouvi um choramingo muito perto de mim. Era um sussurro triste e melancólico, um lamento.

- Qu... - Comecei.

Não terminei a pergunta, pois minha voz falhou quando ouvi o som de madeira rangendo, era um barulho conhecido quando se era lenhador, uma árvore se quebrando aos poucos. O som estava bem perto de mim, assim como o choramingo que aumentava a cada passo.

Se eu tivesse com meu machado poderia recitar algum feitiço, mas sem ele não conseguia fazer nada. Um magruxeiro precisa do seu canalizador.

Meu coração batia cada vez mais forte e minhas pernas não funcionavam mais.

O ranger aumentava e a neblina estava subindo pelo meu corpo parrudo. Um galho apareceu em minha frente e o meu mundo congelou. De alguma forma aquele galho me parecia familiar, era mais que um simples galho, era uma mão jovem e pálida.

Ao fundo eu ouvia o choramingo aumentar. Uma voz fina de criança com um tom de velho sussurrou.

- Meu senhor vais fazer isso? - Choramingava. - O senhor não precisa?

A ponta do galho se contorceu como dedos se aproximando do meu rosto. Eu não tinha reação, mas eu conhecia aquela mão. O galho seco foi para trás e cravou em meus olhos, gritei alto e uma árvore tombou e... Senti um frio intenso e depois nada.

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