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Capa do romance Prometida oo Capo

Prometida oo Capo

Ane Moretti torna-se um mero peão na máfia italiana ao ser vendida para Sebastian Mancini. O noivado forçado com o frio e autoritário Capo inicia um embate intenso entre a obsessão dele e a resistência dela. Enquanto Sebastian tenta dominar a única mulher que desafia seu controle, Ane luta para manter sua identidade em um mundo de alianças perigosas. Nesse jogo de poder e desejo, a liberdade é impossível e a sobrevivência exige uma entrega absoluta.
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Capítulo 2

Voltei para a sala com uma mochila leve nas costas. Três cadernos, um jaleco, dois livros de neuroanatomia e algumas roupas que couberam no tempo que tive.

Sebastian me esperava na porta, impaciente, mas eu o ignorei. Meus olhos procuraram só uma pessoa.

Meu pai.

Ele ainda estava sentado no sofá, como se não tivesse forças nem para levantar a cabeça. As mãos tremiam no colo. Os olhos marejados estavam fixos em algum ponto perdido no chão.

Me aproximei devagar, com o coração partido em mil pedaços. Eu não sabia se queria abraçá-lo ou gritar com ele até minha garganta sangrar.

— Pai…

Ele ergueu o rosto. E ali, naquele olhar cansado, eu vi tudo. A dor. O arrependimento. A culpa que já o condenava muito antes de qualquer sentença minha.

— Me perdoa, Ane — sussurrou. — Eu falhei com você. Com sua mãe. Com tudo que prometi proteger.

As lágrimas me queimaram os olhos, mas não deixei cair. Não na frente de Sebastian. Não na frente daqueles homens que tinham colocado um preço na minha liberdade.

— Por quê? — minha voz falhou. — Por que não me contou? Por que me jogou nesse pesadelo sem me dar escolha?

Ele engoliu seco.

— Porque eu achei que estava salvando você… e, no fim, só te vendi. — Ele abaixou a cabeça. — Eu sou um covarde.

Sentei ao lado dele e segurei sua mão. Estava fria. Tremia.

— Você ainda é meu pai — falei, com a voz fraca. — Mesmo depois de tudo. E eu ainda te amo. Mas me doeu… e vai continuar doendo por muito tempo.

— Eu sei. — Ele fechou os olhos com força. — E eu vou carregar isso até meu último dia.

Abracei-o. Forte. Talvez pela última vez. Senti o cheiro familiar da sua pele, o mesmo que me dava segurança quando eu era criança. E desejei, por um instante desesperado, voltar no tempo. Antes das dívidas. Antes da doença. Antes dos Mancini.

— Promete que vai lutar — sussurrei contra o ombro dele. — Que vai fazer esse tratamento. Que não vai desistir de viver, mesmo depois disso.

— Prometo — respondeu num fio de voz. — Mas você também promete uma coisa?

Me afastei, com o rosto ainda úmido.

— O quê?

— Não deixe que eles apaguem quem você é.

Assenti. Porque, no fundo, era tudo o que eu podia prometer. E tudo o que eu precisava lembrar.

Me levantei devagar. Meu pai soltou minha mão com relutância. E quando virei para a porta, Sebastian já estava lá, me esperando com aquela postura implacável.

Quando a porta se fechou atrás de mim, o ar pareceu mais denso, mais frio — como se até o mundo, cúmplice silencioso, soubesse que algo havia sido perdido ali dentro. Algo que eu talvez nunca recuperasse: minha liberdade.

Do lado de fora, três carros pretos esperavam como feras enjauladas prestes a se mover. Os vidros escurecidos escondiam segredos. Os motores ligados vibravam com paciência predatória. Homens de terno e olhares duros se mantinham ao redor, atentos, imóveis. Era como se cada esquina de Manhattan pertencesse a eles. E talvez pertencesse.

A luz amarelada da varanda iluminava o chão molhado pela garoa fina, transformando a calçada num espelho opaco. Mas nenhuma água do mundo podia lavar o que eu sentia por dentro: mágoa, impotência, raiva. Medo.

Sebastian já estava dentro do carro do meio, no banco de trás. A porta permanecia aberta. Um convite? Não. Uma ordem disfarçada de gentileza. Um gesto teatral, encenado para manter as aparências. Nada mais.

Respirei fundo, o ar ardendo na garganta como se o próprio universo estivesse tentando me sufocar.

Olhei uma última vez para a porta da minha casa. Atrás dela, meu pai ainda estava sentado no sofá. O mesmo sofá onde eu cresci deitando com os pés no colo dele. Agora, ele afundava em silêncio e arrependimento. Ou talvez nem isso. Talvez só culpa e covardia.

Uma parte de mim gritou para correr. Me esconder. Gritar. Mas meus pés não se moveram. Porque eu sabia a verdade cruel e simples: eles não hesitariam em puxar o gatilho contra ele se eu resistisse.

Então, com os olhos ardendo, coloquei um pé diante do outro, arrastando minha alma ferida atrás de mim. E entrei no carro.

O cheiro lá dentro me atingiu com força. Couro novo, perfume masculino caro e um silêncio que pesava como concreto. A porta se fechou com um clique seco atrás de mim — o som exato de uma sentença sendo selada.

Sebastian não disse uma palavra. Nem um olhar. Apenas manteve os olhos voltados para a janela, os dedos batendo no apoio de braço com uma calma irritante. Como se estivesse contando o tempo. Ou como se estivesse entediado com o que acabara de comprar.

O carro arrancou devagar. Os outros dois o seguiram com precisão coreografada. Um comboio. Um cortejo fúnebre para minha vida como eu conhecia.

A cidade passava do lado de fora como um borrão distante. As pessoas apressadas, as luzes dos prédios, os táxis, as lojas… tudo seguia como se eu não estivesse ali. Como se eu tivesse deixado de existir. Eu já não fazia parte daquele mundo. Agora eu era um nome em um contrato. Um bem transferido. Um pedaço de poder usado como moeda.

E quanto mais o carro avançava, mais o pânico se enraizava no meu peito.

Comecei a pensar no que viria. Na vida que me esperava atrás daqueles muros. Ser esposa de um mafioso. Ter que conviver com criminosos bem vestidos, sorrir em jantares cheios de sangue oculto, ouvir ordens disfarçadas de promessas. Fingir. Fingir o tempo todo. Ser tudo o que eles quisessem que eu fosse.

Ter filhos com um homem que me tirou à força da minha casa.

Minha garganta fechou. O estômago revirou. Meus dedos se fecharam no tecido da calça, tão forte que quase rasguei a costura.

E se eu tentasse fugir?

Eles matariam meu pai? Me matariam? Me caçariam como uma peça perdida da família?

Sebastian não se mexia. Não falava. Não respirava alto. Era como uma estátua de mármore, insensível e impecável, com olhos que sabiam demais e um coração que, se existia, devia estar trancado junto com suas armas.

Fechei os olhos. Não para descansar. Mas para não desmoronar.

Porque eu sabia. A cada quilômetro, uma parte de mim morria. E outra, desconhecida, nascia. Uma parte mais dura. Mais fria. Mais disposta a lutar.

Eu ainda era Ane Moretti.

Mas logo… eu teria que ser algo mais.

Algo forte o bastante para sobreviver ao mundo de Sebastian Mancini.

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