
Promessas Quebradas, Amor Encontrado
Capítulo 2
O cheiro de fumaça e a dor da traição foram as últimas coisas que senti. Gabriel, o homem que eu amava, o homem a quem prometi minha vida, ficou parado enquanto as chamas lambiam as paredes da nossa pequena cozinha, o lugar onde eu criava minhas sobremesas e sonhava com nossa padaria.
"Júlia, ela precisa de mim mais do que você," ele disse, sua voz fria como gelo, enquanto se afastava com Isabela em seus braços, deixando-me para ser consumida pelo fogo que ele mesmo ajudou a começar.
Meu coração se partiu em mil pedaços, não pelo fogo, mas pela sua escolha. Eu morri ali, com o gosto de cinzas e promessas quebradas na boca.
De repente, abri os olhos com um sobressalto.
Não havia fogo, nem fumaça. Eu estava no grande salão da mansão da minha família, o ar fresco e perfumado com as flores do jardim. O sol da tarde entrava pelas janelas altas, iluminando a poeira que dançava no ar.
Olhei para as minhas mãos. Elas estavam limpas, sem queimaduras, sem cicatrizes.
Eu estava viva.
Meu coração batia descontroladamente no peito. Olhei em volta, confusa. A data no grande relógio de pêndulo na parede me disse tudo. Eu havia voltado no tempo. Voltei para o dia da festa de noivado, o dia em que tudo começou a dar errado. O ponto crucial.
Na minha vida passada, neste exato dia, eu anunciei para minha família que pretendia usar minha herança para abrir uma padaria com Gabriel. Todos me apoiaram, encantados pelo seu charme. Mal sabiam eles que ele estava apenas interessado no terreno que vinha com a minha herança, um terreno valioso que ele planejava vender para um grande empreendimento imobiliário.
Desta vez, eu não cometeria o mesmo erro.
Minha mãe se aproximou, seu rosto cheio de preocupação. "Júlia, querida, você está pálida. Está tudo bem?"
Eu forcei um sorriso. "Estou bem, mamãe. Só um pouco nervosa."
Ela segurou minha mão. "Não precisa. Gabriel é um bom homem. Ele vai cuidar de você."
As palavras dela me causaram um arrepio. Um bom homem. Se ela soubesse...
Nesse momento, as portas do salão se abriram e ele entrou. Gabriel. Lindo como sempre, com seu sorriso carismático que antes derretia meu coração e que agora me enchia de nojo. E ao seu lado, de braços dados, estava Isabela.
Eles caminharam em minha direção, os olhos de todos na sala seguindo-os. Isabela usava um vestido vermelho provocante, um contraste gritante com o meu vestido branco e simples. Ela olhou para mim com um sorriso de superioridade.
"Júlia, querida," disse Isabela, sua voz doce como veneno. "Você não parece bem. Talvez a pressão de um noivado seja demais para você."
Gabriel colocou a mão no ombro dela, um gesto possessivo que não passou despercebido.
"Isabela, não seja assim," ele disse, mas não havia repreensão em sua voz. Ele olhou para mim. "Júlia, nós precisamos conversar. Sobre nós."
Meu sangue gelou. Ele ia fazer isso aqui? Na frente de todos?
Antes que eu pudesse responder, um barulho ensurdecedor ecoou pelo salão. Um dos enormes lustres de cristal que pendiam do teto tremeu violentamente e, em seguida, despencou.
Houve gritos e pânico enquanto todos corriam para se proteger.
O lustre caiu exatamente onde nós três estávamos. Eu congelei, o terror me paralisando. Mas Gabriel não olhou para mim. Nem por um segundo.
Seu instinto foi imediato e claro. Ele agarrou Isabela e a empurrou para longe do perigo, usando seu próprio corpo como escudo. Eles caíram no chão juntos, a salvo, enquanto cacos de cristal choviam ao meu redor.
Um pedaço grande de metal do lustre me atingiu no ombro, e eu gritei de dor, caindo de joelhos.
Gabriel nem se virou. Ele segurava Isabela, seu rosto cheio de pânico, mas apenas por ela.
"Você está bem? Você se machucou?", ele perguntava a ela, sua voz cheia de uma preocupação desesperada que ele nunca havia mostrado por mim.
Isabela, aninhada em seus braços, apenas choramingava, apontando para um pequeno arranhão em seu braço como se fosse um ferimento mortal.
E eu, no chão, com o ombro sangrando e o coração despedaçado pela segunda vez, assisti à cena. A escolha dele foi feita, clara como o dia. Na frente de todos, ele mostrou quem realmente importava. E não era eu.
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