
Promessas Quebradas, Amor Encontrado
O cheiro de fumaça e a dor da traição foram as últimas coisas que senti.
Gabriel, o homem que eu amava, me deixou queimar, fugindo com Isabela, deixando-me para ser consumida pelas chamas que ele mesmo ajudou a acender.
Meu coração se partiu em mil pedaços, não pelo fogo, mas pela escolha dele, morri ali, com o gosto de cinzas e promessas quebradas na boca.
Mas abri os olhos novamente, viva, na mansão da minha família, no dia da minha festa de noivado, o dia em que tudo começou a dar errado.
Eu tinha voltado no tempo.
Um lustre despencou, e Gabriel, sem hesitar, empurrou Isabela para longe do perigo, usando o próprio corpo como escudo, enquanto eu, sua noiva, caí com o ombro sangrando.
Ele nem me olhou, só tinha olhos para ela, perguntando: "Você está bem? Você se machucou?".
Minha mãe e os convidados assistiram, chocados, à cena da minha humilhação.
Lucas, o filho do caseiro, foi o único a correr para me ajudar, estancando o sangue e questionando a crueldade de Gabriel.
"A sua noiva está sangrando e você nem olhou para ela!", ele gritou.
Mais tarde, Gabriel invadiu meu quarto, não para se desculpar, mas para implorar pelo livro de receitas da minha avó, um tesouro de família, para salvar o arranhão "mortal" de Isabela.
Ele se ajoelhou e ofereceu um casamento arranjado em troca do livro: "Eu caso com você. Agora mesmo. Apenas me dê a receita".
Sua audácia me revoltou: "O que eu queria era alguém que me amasse. Não alguém que me usasse como um prêmio de consolação".
Então, ele me acusou: "De certa forma, é por sua causa que ela está assim".
A raiva me impulsionou. Abri a janela, segurei o livro sagrado da minha avó e, diante dos olhos gananciosos de Gabriel, eu o soltei.
"Você está louca?!", ele berrou.
"Não", respondi, sentindo a liberdade. "Estou livre. Acabou, Gabriel. Nós acabamos."
No dia seguinte, Isabela apareceu, suja e descabelada, e me acusou: "Foi a Júlia. Ela me trancou no antigo galpão de jardinagem. Ela disse que se eu não pudesse ter o Gabriel, ninguém poderia".
O choque preencheu o salão, mas a surpresa veio dela: "Você também voltou, não é?".
Ela sabia.
A inveja distorcida dela era palpável: "Você sempre teve tudo, Júlia. Eu não tenho nada!".
Isabela se jogou sobre mim, e caímos juntas da sacada, minha perna se quebrando sob o impacto.
Gabriel, mais uma vez, ignorou meu sofrimento, correndo para ela, e ainda me esbofeteou, cego: "Você tentou matá-la!".
Meu pai o expulsou, e eu, quebrada e humilhada, me vi novamente à beira do abismo.
Mas Lucas, sim, Lucas estava lá, me visitando todos os dias, lendo para mim, sua presença era um consolo que me fazia questionar.
No dia da minha maioridade, Gabriel e Isabela invadiram o salão, ele berrou para todos ouvirem: "Eu não amo a Júlia! Eu nunca a amei! A única mulher que eu amo é Isabela!".
A humilhação foi pública, mas então, minha mãe fez o anúncio que mudaria tudo: "Eu tenho a honra de anunciar o noivado da minha filha, Júlia, com o Sr. Lucas Pereira".
O mundo de Gabriel desabou.
Ele me confrontou, furioso: "Tudo plano seu, não foi?!".
Mas eu finalmente sorri.
"Não", declarei, "Eu simplesmente não te amo mais. Você não significa nada para mim."
Voltei-me para Lucas, peguei sua mão e, diante de todos, o beijei de verdade.
Gabriel cambaleou, destruído, e eu soube que era o começo.
Dias depois, um convite de casamento chocante chegou de Gabriel.
Fomos.
Na recepção, ouvi Isabela se gabar do seu plano, de como ela forjou o sequestro e a queda para me incriminar.
Mas Gabriel também ouviu.
Ele cambaleou para o palco, pegou o microfone e gritou: "Acabou! O casamento está cancelado!".
Ele se jogou aos meus pés, lágrimas escorrendo: "Eu te amava. Eu sempre te amei. Por favor, me perdoe!".
Olhei para ele, e não senti nada. "Não, Gabriel. Eu não te amo mais. O problema sempre foi você."
Deixei-o lá, peguei a mão de Lucas e saí, rumo ao meu sonho, minha padaria.
No meio do caos, enquanto Gabriel se preocupava apenas com o arranhão de Isabela, uma figura alta e forte se moveu rapidamente em minha direção.
Lucas.
Ele sempre esteve lá, quieto, nas sombras da minha vida. O filho do caseiro da nossa propriedade, meu amigo de infância, o homem que minha família sempre considerou inferior. Na minha vida passada, eu mal o notei, cega pelo brilho falso de Gabriel.
Lucas se ajoelhou ao meu lado, seu rosto tenso de preocupação. Ele rasgou um pedaço de sua própria camisa e pressionou contra meu ombro para estancar o sangue.
"Júlia! Você está ferida," ele disse, sua voz firme, mas cheia de uma gentileza que me aqueceu por dentro.
Ele olhou para Gabriel, que ainda estava no chão com Isabela, e seus olhos se encheram de fúria.
"Gabriel!", Lucas gritou, sua voz ecoando pelo salão agora silencioso. "O que diabos você está fazendo? A sua noiva está sangrando e você nem olhou para ela!"
Gabriel finalmente se virou, seus olhos se arregalando como se só agora percebesse que eu existia. Ele se levantou, ajeitando suas roupas.
"Eu... eu tive que proteger a Isabela. Ela é mais delicada," ele gaguejou, uma desculpa patética que só serviu para aumentar a raiva de todos na sala.
Minha mãe correu até mim, seu rosto pálido de choque. "Meu Deus, Júlia! Alguém chame um médico!"
Lucas me ajudou a levantar com cuidado, seu braço forte me apoiando. Eu me apoiei nele, sentindo uma onda de gratidão.
"'Delicada'?", Lucas repetiu, sua voz cheia de desprezo. "Júlia poderia ter morrido, e você se preocupou com um arranhão?"
"Você não entende!", Gabriel retrucou, sua arrogância voltando. "Eu fiz o que tinha que ser feito. Isabela estava em pânico."
Lucas balançou a cabeça, desapontado e com nojo. Ele olhou para Gabriel como se estivesse vendo um monstro.
"Eu não posso acreditar em você," Lucas disse, sua voz baixa e cheia de emoção contida. Ele olhou para mim, seus olhos dizendo tudo o que ele não podia falar em palavras. Então, sem dizer mais nada, ele se virou e saiu do salão, batendo a porta atrás de si.
A partida dele me deixou com um sentimento de vazio. Eu tinha acabado de reencontrá-lo, e agora ele estava com raiva.
Mais tarde, depois que o médico cuidou do meu ombro, eu estava no meu quarto, tentando processar tudo o que havia acontecido. A porta se abriu de repente e Gabriel entrou.
Seu rosto não mostrava remorso, apenas urgência. Ele caminhou até mim e, para meu completo choque, caiu de joelhos na minha frente.
"Júlia, por favor. Eu preciso da sua ajuda," ele implorou.
Eu o encarei, fria. "Ajuda? Depois de hoje?"
"É pela Isabela," ele disse, sem sequer reconhecer o que tinha feito. "O arranhão dela... infeccionou. O médico disse que é uma infecção rara e agressiva. Ela está com febre alta. Ela pode morrer."
Ele olhou para mim, seus olhos suplicantes. "Eu sei que você tem. O livro de receitas da sua avó. Aquele com as ervas medicinais portuguesas. Há uma receita lá, um pão curativo especial. Dizem que pode curar qualquer doença. Por favor, Júlia. Eu preciso dele."
Eu o observei ali, de joelhos, não por mim, não por remorso, mas por ela. Ele estava disposto a se humilhar, a implorar, tudo por Isabela. E ele nem sequer perguntou como meu ombro estava.
Naquele momento, toda e qualquer ilusão que eu ainda pudesse ter sobre ele se desfez como fumaça. Eu vi Gabriel pelo que ele realmente era: um homem egoísta, movido apenas por seus próprios desejos, que não se importava com quem ele pisava no caminho. Ele não me amava. Ele nunca me amou. Ele só queria o que eu podia lhe dar.
E agora, ele queria a herança mais preciosa da minha avó. Não para me ajudar a construir um sonho, mas para salvar a mulher que ele escolheu em meu lugar.