
Prisão do Porão Cruel
Capítulo 2
Trancada no porão, a única coisa que me lembrava que eu ainda estava viva era a dor constante nos meus tendões.
Eles foram cortados.
Por ordem do meu marido, Mateus.
Já perdi a conta de quantos dias, semanas ou meses se passaram. O mofo nas paredes e a escuridão úmida são minha única companhia.
Meu corpo está fraco, magro a ponto de os ossos se destacarem sob a pele. Sobrevivo com os restos que a empregada joga para mim, como se eu fosse um cachorro.
Eu fui a senhora desta casa, a esposa de Mateus, o empresário mais bem-sucedido da cidade.
Agora, sou apenas uma prisioneira em minha própria casa.
Passos soaram na escada de madeira. A luz forte da porta se abrindo me cegou por um instante.
Era Larissa.
Ela usava um vestido de seda caro, o mesmo que eu tinha desenhado antes de tudo isso acontecer. Seu cabelo estava perfeitamente penteado e sua maquiagem era impecável. Ela parecia a verdadeira dona da casa.
E, de fato, ela era.
"Sofia, querida, como você está?"
Sua voz era doce, mas cheia de veneno. Ela desceu os degraus com cuidado, segurando uma bandeja com um pequeno prato de comida. Era um pedaço de pão mofado e um copo de água turva.
"Vim trazer seu jantar."
Ela colocou a bandeja no chão sujo, a uma distância segura de mim.
Eu não respondi. Apenas a encarei com os olhos vazios. Falar gastaria uma energia que eu não tinha.
Larissa sorriu, um sorriso vitorioso.
"Sabe, o Mateus me pediu em casamento hoje. Ele me deu um anel de diamante enorme. Ele disse que finalmente se livrou do lixo e pode ficar com seu verdadeiro amor."
Ela estendeu a mão, mostrando o anel que brilhava mesmo na penumbra do porão.
Era o anel que Mateus tinha me dado.
Meu anel.
"Ele também disse," ela continuou, saboreando cada palavra, "que meu amado Leo logo vai me chamar de 'mamãe' oficialmente. Ele te esqueceu completamente, Sofia. Para ele, você é só uma mulher louca e má que tentou me matar."
Meu filho, Leo. Meu pequeno Leo. A dor no meu coração era mil vezes pior que a dor nas minhas pernas.
De repente, a porta se abriu novamente.
Era Mateus.
Ele estava impecável em seu terno caro, alto e imponente. Seus olhos, que um dia me olharam com tanto amor, agora estavam cheios de frieza e desprezo.
"Larissa, o que você está fazendo aqui? Eu te disse para não descer."
Sua voz era dura, mas havia uma nota de preocupação por ela. Não por mim.
"Eu só queria trazer um pouco de comida para ela, meu amor," Larissa disse, com uma voz chorosa, correndo para os braços dele. "Eu me preocupo com ela, apesar de tudo que ela me fez."
Que atriz.
Mateus a abraçou com força.
"Você é boa demais, meu amor. Não deveria se preocupar com essa mulher."
Ele olhou para mim, no chão.
"Você ainda está viva? Pensei que já teria morrido de fome."
Cada palavra era uma facada.
"Mateus," eu sussurrei, minha voz rouca pelo desuso. "Por quê?"
"Por quê?" ele repetiu, com uma risada fria. "Você ousa perguntar por quê? Você empurrou a Larissa da escada. Você quase a matou. Você merece apodrecer aqui."
Eu não a empurrei. Eu o salvei de um incêndio, e no meio da confusão, ela se jogou no chão e me acusou. E ele acreditou nela, sua paixão de infância, e não em mim, sua esposa e mãe de seu filho.
Larissa, aninhada no peito de Mateus, de repente ficou pálida e levou a mão ao coração.
"Ai... meu coração..." ela gemeu.
Mateus entrou em pânico.
"Larissa! O que foi? Seu coração de novo?"
Ele a pegou no colo com cuidado.
"O médico disse que você não pode ter emoções fortes! É tudo culpa sua!" ele gritou para mim, antes de subir as escadas correndo com Larissa em seus braços.
A porta se fechou, me mergulhando na escuridão mais uma vez.
O coração dela.
Essa era a desculpa para tudo. Desde que ela reapareceu em nossas vidas, seu "coração fraco" era a razão pela qual Mateus a protegia, a desculpava, a amava.
E era a razão pela qual eu estava aqui, apodrecendo.
Mas eu sabia a verdade. O médico que a atendeu após a "queda" era um primo distante dela. Era tudo uma farsa. Uma farsa que destruiu minha vida. E eu não tinha como provar.
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