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Capa do romance Princesa do Inferno Urbano

Princesa do Inferno Urbano

Sofia acreditou no resgate de sua família biológica, mas Maria, João e Pedro a venderam de volta para Carlos e Ana, líderes de uma gangue de tráfico de órgãos. Desfigurada e com identidade falsa para não ser reconhecida nem por Rato, ela se tornou uma estranha até para sua mãe adotiva. Após ser tratada como mercadoria e sofrer abusos, a dor de Sofia se transforma em um desejo gélido de vingança. Ela não buscará mais socorro; será a isca para destruir todos.
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Capítulo 2

O carro velho balançava, e o cheiro de mofo e cigarro barato enchia minhas narinas, mas eu não me importava, eu sorria, um sorriso que eu não dava há anos. Ao meu lado, Maria, minha mãe biológica, segurava minha mão, seus dedos calejados eram um conforto estranho. No banco da frente, João, meu pai, dirigia enquanto conversava com Pedro, meu irmão, sobre o preço da gasolina.

Eles eram minha família.

Depois de anos vivendo nas ruas, usando minha arte em muros cinzentos para sobreviver, eles me encontraram, eles me "reconheceram" . Disseram que sentiam minha falta, que me amavam, que queriam compensar o tempo perdido. Eu acreditei em cada palavra. O buraco no meu peito, a busca por um lugar para pertencer, parecia finalmente estar se fechando.

"Estamos quase chegando, querida" , disse Maria, sua voz soando doce, mas com um tom que eu não conseguia decifrar.

"Para onde estamos indo?" , perguntei, olhando pela janela. As ruas largas e os prédios comerciais estavam ficando para trás, dando lugar a vielas estreitas e casas sem reboco, uma paisagem que me causava um calafrio familiar.

"Uma surpresa" , respondeu Pedro, virando-se com um sorriso zombeteiro. "Um lugar para você recomeçar."

Meu estômago se revirou, uma ansiedade fria começou a subir pela minha espinha. Eu conhecia aquelas ruas, conhecia o cheiro de esgoto e fritura que pairava no ar, eu conhecia os grafites que cobriam cada centímetro de parede.

Eram símbolos. Símbolos de poder, de perigo.

O carro parou na entrada de uma favela, um lugar que eu jurei nunca mais pisar. Meu lar de infância, o lugar de onde eu fugi. O lugar que assombrava meus pesadelos.

"Não" , sussurrei, o sorriso desaparecendo do meu rosto. "Não aqui. Por que vocês me trouxeram aqui?"

João desligou o carro e se virou para mim, seu rosto agora sem nenhum traço de bondade. "É aqui que você vai ficar, Sofia. É o seu lugar."

Eles me puxaram para fora do carro com força. Meu corpo inteiro tremia. Cada som, cada olhar das pessoas nas janelas, tudo me transportava de volta. O medo era uma coisa física, uma garra apertando meu coração.

Então eu vi. O grafite principal no muro que servia de portão para a comunidade. Duas cobras entrelaçadas formando um círculo. A marca deles. A marca de Carlos e Ana.

Meus pais adotivos.

Os chefes da gangue que controlava este inferno. Os traficantes de órgãos que compravam e vendiam vidas como se fossem mercadorias.

Minhas pernas cederam, o ar me faltou. Não era uma coincidência, não era um erro. Meus pais biológicos não me encontraram por acaso, eles me trouxeram de volta para a jaula. Para os meus donos.

"Vocês não entendem…" , gaguejei, o pânico tomando conta da minha voz. "Eles vão matar vocês. Eles vão matar todo mundo que encostar em mim."

Uma lembrança invadiu minha mente, tão nítida que parecia estar acontecendo de novo. Eu tinha uns doze anos e um dos garotos da gangue, um pouco mais velho, tentou me beijar à força. Tiago, meu irmão adotivo, o viu.

Ele não disse nada, apenas arrastou o garoto para um beco. Eu nunca mais o vi, mas os gritos… os gritos ecoaram na minha cabeça por semanas. Mais tarde, ouvi Ana conversando com Carlos.

"Ele ousou tocar na nossa princesa. Tiago fez o certo. Ninguém toca no que é nosso." A voz dela era calma, quase maternal, mas as palavras eram uma sentença de morte.

Essa era a proteção deles, um amor possessivo e mortal.

Eu me virei para João e Maria, agarrando suas roupas, desesperada.

"Por favor, me levem embora daqui. Eu juro, eu sumo. Eu nunca mais apareço na vida de vocês. Eu dou todo o dinheiro que eu tenho. Por favor!"

Maria me empurrou com nojo, limpando a mão na calça como se eu fosse sujeira.

"Cala a boca, garota inútil" , ela cuspiu as palavras. "Você acha que a gente te quis de volta por quê? Por amor? Você só nos trouxe desgraça desde que nasceu."

Pedro riu, um som cruel e cheio de desprezo.

"Finalmente você vai servir para alguma coisa. Acha mesmo que a gente ia deixar você ficar com a 'herança' ? Você não é nada. É só um produto que a gente finalmente conseguiu vender."

Vender.

A palavra ficou suspensa no ar, pesada e afiada.

Eles não me resgataram, eles me venderam. De volta para o lugar de onde eu tinha lutado tanto para escapar. Minha busca por pertencimento, por amor, era uma piada. Eu era só um objeto, uma mercadoria, trocada por um punhado de dinheiro. E os compradores eram as mesmas pessoas que me chamavam de "princesa" enquanto comandavam um império de sangue.

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