
Princesa do Inferno Urbano
Capítulo 3
O medo era tão intenso que quase me fez vomitar. Outra lembrança, ainda mais aterrorizante, me atingiu como um soco. Uma vez, durante o jantar, eu reclamei da comida que Ana tinha feito, uma coisa boba, infantil.
Carlos, meu pai adotivo, não levantou a voz, ele apenas me olhou com seus olhos frios e vazios.
"Você não gostou, princesinha?"
Ele se levantou, pegou meu prato e o prato de todos na mesa, e jogou tudo no lixo. Naquela noite, e nas duas noites seguintes, ninguém na casa comeu. Ele se sentou à mesa vazia conosco, em silêncio, apenas nos observando. A fome era a punição. Uma lição silenciosa e brutal sobre gratidão e poder. Eu aprendi a nunca mais reclamar de nada.
Esse era o tipo de gente para quem minha "família" estava me entregando.
"Por favor, eu imploro" , repeti, a voz embargada pelo choro e pelo pânico. "Eu errei. Eu não devia ter procurado vocês. Eu juro, eu desapareço. Finjam que nunca me viram. Por favor, me tirem daqui."
João me deu um tapa no rosto, com força suficiente para me fazer cair no chão sujo.
"Chega de drama. Você nos custou muito caro. Agora é hora de pagar."
Maria se agachou ao lado dele, e eles começaram a conversar baixo, como se eu já não estivesse mais ali, como se eu fosse um animal amarrado esperando o abate.
"Quanto você acha que o Rato vai nos dar por ela?" , perguntou Maria, seus olhos brilhando de ganância.
"Ele disse que o preço seria bom. Ela é jovem, saudável. O dinheiro vai dar para pagar a dívida do Pedro e ainda sobra pra gente reformar a casa" , respondeu João, já fazendo planos com o dinheiro da minha vida.
Pedro se aproximou, chutando meu pé. "E o meu carro novo. Não esquece do meu carro."
Eles riam, dividindo o lucro da minha venda.
"O Rato disse que ela tem o perfil que eles procuram" , continuou Maria. "Bonita, vai servir bem para o 'trabalho' . Talvez nem precisem abrir ela logo de cara."
A menção daquele nome fez meu sangue gelar ainda mais.
Rato.
Eu o conhecia. Ele era o chefe da segurança de Tiago, meu irmão adotivo. Um homem baixo, sorrateiro, com olhos que nunca encaravam os seus diretamente. Ele era leal a Tiago, e temia Carlos e Ana mais do que a própria morte. Ele sabia quem eu era. Sabia que eu era a "princesa" da família.
Se Rato estava envolvido, isso significava que meus pais adotivos não sabiam que eu estava voltando. Isso era uma transação clandestina, feita por baixo dos panos. E isso era ainda pior.
Um fio de esperança, fino e frágil, surgiu no meio do meu desespero. Se eles não sabiam, talvez eu pudesse usar isso.
"Vocês são idiotas" , eu disse, a voz rouca, tentando me levantar. "Vocês não sabem com quem estão lidando."
Eles pararam de rir e me olharam.
"Rato trabalha para o Tiago" , continuei, vendo um lampejo de confusão no rosto deles. "Tiago é o filho do chefe. E eu… eu sou a irmã dele. A filha adotiva de Carlos e Ana. A 'princesa' que vocês estão tentando vender."
Eu precisava fazê-los entender. A vida deles dependia disso. A minha também.
"Se eles descobrirem o que vocês estão fazendo…" , minha voz falhou. "Eles não vão só matar vocês. Eles vão fazer vocês desejarem a morte todos os dias, por muito, muito tempo."
Você pode gostar





