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Capa do romance Pouco Visivel

Pouco Visivel

Entre os desamparados das ruas, um homem de misteriosos olhos castanhos esconde um passado que nem ele mesmo consegue recordar. Piper, uma médica belga de classe média alta, dedica-se a ajudar os invisíveis enquanto lida com a própria infelicidade. Ao cruzar o caminho desse estranho, ela confronta a crueldade do mundo e a falta de proteção dos vulneráveis. Juntos, eles buscam respostas sobre a identidade dele e a chance de Piper reencontrar a felicidade.
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Capítulo 2

10 anos depois...

— acorda!!! Analice eu vou jogar água com gelo em você, tem que ir a escola — eu digo a minha irmã com seus recém completados 15 anos e a falta de juízo imensa de sempre, com o aparelho ortodôntico e os cabelos castanhos claros chanel, os olhos imensos e azuis e extremamente magra e alta, Analice não se parece comigo nenhum pouco, se parecia com Samuca, mas ele se foi a uma década, ele se sentiu culpado pela morte do Cid, não era culpa dele, eu que pedi para ele ir atrás naquele dia e ele se matou, e quem encontrou o corpo foi a Analice, acho que eu teria feito a mesma coisa se não fosse por minha irmã, ela tem pesadelos com ele até hoje, e isso me faz muito mal, porém eu sei que nem sempre posso proteger ela de tudo e isso me faz mais mal ainda.

— devia ter dado meu lugar para outro espermatozóide — ela diz entrando no banheiro

— tarde demais para isto farol de fusca — eu digo a provocando por causa dos olhos enormes que ela tem

Me olho no espelho e vejo a mesma de sempre, com os cabelos pretos azulados chanel a franja reta e sempre muito arrumado, interior era como Londres em seus melhores bairros, mas o meu exterior era como Síria em seus piores bairros, meus conflitos internos são tantos outros que eu sinceramente nem sei se gosto de mim, eu tinha todo tipo de toque possível, eu limpava muito quando minha mãe fugia, mas tudo piorou quando Cid se foi.

Meu celular tocou pouco antes de eu saborear meu pãozinho francês na chapa com manteiga e meu café preto de sempre, por um pão francês valia a pena as aulas de box tailandês e a academia.

— Piper — digo com meu tom profissional de sempre, nunca Alexis que era o nome da falecida madrasta do meu pai, poucas pessoas me chamam de Alexis, que eu me lembre só o Abner Serra meu antigo colega de faculdade e atual superior na área ortopédica no Hospital das clínicas Charles Darwin, mas não é do meu emprego de lá que me ligaram, é da minha prioridade para com o mundo, um projeto que eu abracei chamado uma luz, é um projeto que ajuda moradores de rua dando remédios e consultas médicas, e às vezes até uma ajuda para aqueles que querem sair das ruas os colocando em albergues e os ajudando a conseguir um novo emprego e a se reajustar a essa sociedade capitalista ridícula que chamamos de mundo, é tanto trabalho que eu não tenho tempo para pensar, e esse é o melhor presente que o mundo pode me dar não pensar nele, dói demais e isto aconteceu ontem me deixando cheia de olheiras. Eu não me lembro de muita coisa só dele sorrindo e falando coisas as quais eu não entendia.

— Precisamos de você aqui e agora se possível, uma emergência ocorreu e o outro clínico geral pegou uma dengue hemorrágica e não está nada bem, estamos perto do parque em frente aquela clínica de estética que você e a Kyoto vão — ngelo diz sem fazer nenhuma piada então a situação estava seria, arrastei Analice pelos braços já que ela não andava logo no banheiro e eu não posso considerar passada talvez banho da minha maquiagem.

Com minha saia lápis cinza e a blusa bege eu parecia uma executiva mas o jaleco cortava essa impressão, deixei Analice na escola dela que é integral então ela fica a tarde e a manhã inteira na escola e corri para o endereço que ngelo meu assistente e estudante de medicina me disse, não precisa ser muito inteligente para perceber que ele vai longe.

— caramba! — eu disse quando olhei para aquele corpo pálido e sujo sentado no meio fio bebendo água de coco e com o peito sangrando muito, já o coco que provavelmente foi ngelo que comprou, ngelo é o tipo de gordinho mais lindo que tem os olhos de um castanho amarronzado como os da Analice e os cabelos jogados para trás e com bastante gel capilar dava um aspecto de galã enorme para ele

— não sei como ele consegue ficar sentado, não fala nada e fica só encarando a todos, ele não demonstrou agressividade em nenhum momento, pelo contrário todos que olham para ele com pena, nojo ou compaixão ele abre um sorriso enorme, ele perdeu muito sangue e a ambulância está demorando muito, droga estou desesperado, por mais que você seja boa não vai adiantar muita coisa esse homem precisa urgentemente de uma doação de sangue ou vai cair daqui a alguns minutos — ele diz desesperado, ele se importava como eu com eles, e isso me fazia gostar mais um pouco dele, foi questão de minutos o homem caiu na calçada suja quente e nada de uma ambulância para ajudar porque simplesmente estamos no Brasil! Só vi o coco rolando pela calçada e as coisas piorando com o sangramento na cabeça agora também.

A única coisa que eu pude fazer foi uma pressão para que o sangue não jorrar mais e esperar a ambulância chegar, tiramos a camiseta do homem já na ambulância e percebemos um ferro que por sorte não estava enferrujado quase atravessando seu ombro

— e se eu disser que desconfio que ele andou por um bom tempo com esse ferro no ombro? — pergunta ngelo

— E se eu disser que acho mesmo? — digo pegando o álcool e limpando as mãos.

Coloco minhas luvas e pegamos um pouco do seu sangue para descobrir seu tipo sanguíneo que coincidentemente é o meu que é raro AB- , eu acabei doando meu sangue a ele, afinal meus dados eram um dos poucos lá para as doações.

O ferro foi retirado e pode ser um pouco demorado, mas ele vai sair dessa.

Ele era confuso e pouco confiável como qualquer morador de rua que já conheci, ele provavelmente estava a pouco tempo nessa vida mesmo sujo seus dentes ainda não se encontram podres nem suas unhas muito grandes, mas ele tinha uma barba enorme e seus cabelos estavam na altura de seus ombros, ele tinha até um belo sorriso no meio de tanto cabelo.

— eu já disse que não me lembro! — era só isso que eu conseguia tirar do ser teimoso ao meu lado, o cheiro ruim já não me atrapalhava a muito tempo, já estava acostumada já que o primeiro que eu cuidei foi a muito tempo era o pai da minha irmã, eu tinha 15 anos e agora tenho 27 recém adquiridos

— então você não se lembra se é viciado em crack, heroína, qualquer droga ou bebida alcoólica? Você não costuma beber ou fumar durante o dia? — pergunto tentando ser mais simples

— não tenho dinheiro nenhum — ele diz dando de ombro

— vem cá, qual o seu nome? — pergunto já desconfiando um diagnóstico

— me chamam de Brad Pitt — ele diz como se fosse comum

— quero seu nome de verdade — insisto

Ele força o cenho por um tempo e não diz nada, amnésia com certeza.

— olha, quando se lembrar de algo me avise — digo sem muita esperança, seria bem mais fácil para ele se lembrar se estivesse perto de sua família ou pelo menos de um lugar ao qual se lembra.

Pego minha câmera coolpix dentro de minha bolsa que fica mais no porta malas do meu carro que no meu apartamento.

— dê um sorriso — digo e ele sorri, mesmo sujo a câmera não transmite cheiro, ele parecia um modelo que se vestiu de mendigo, ele lembrava o Cid, eu só não posso me abater por isso.

— é, a câmera te ama — digo sorrindo.

— posso ver ? — ele pergunta e eu viro a câmera em sua direção.

— fazia um tempo que não me olhava, eu tô horrível — ele diz sorrindo, acho que antes da amnésia ele era um metrossexual como o Cid, ele tinha mais cremes que eu, mas graças a Deus negava usar maquiagem, só em ensaios fotográficos e desfiles de moda.

— horrível como? Você se lembra de como era antes? — pergunto.

— estou magro, me lembro que nem sempre comia lixo, mas mais nada desculpe — ele diz.

— tudo bem, meu amigo ngelo vai arrumar um lar temporário caso você queira sair das ruas e recomeçar — digo mesmo não tendo lá muita esperança, se eles aceitam sempre acabam voltando para as ruas mesmo quando conseguem um emprego. — eu quero sim, muito obrigado — ele diz e me abraça de uma hora para a outra, ele devia ser forte já que não está tão magro, eu não sabia o que pensar sobre aquele abraço só fiquei simplesmente estática, eu não sabia se não queria ou se estava nervosa demais e com medo de sentir algo pelo belo homem que me abraçava, eu sabia que podia confundir tudo por ele me fazer lembrar o Cid, eu sabia também que não tinha nojo já que abracei muitos moradores de rua.

— cadê o ngelo ? — pergunto ao nosso ortopedista Riquelme, ele veio do Haiti, fugiu da fome e agora só quer agradecer ajudando, ele é o único ortopedista do nosso grupo que trabalha aqui no período integral.

— a irmã dele passou mal de novo, e como o cunhado dele está viajando sobrou pra ele — Riquelme diz, a irmã dele Angélica está grávida, ela tem 16 anos quase a idade de minha irmã, inclusive elas foram amigas na infância tem até fotos delas juntas no aniversário de 6 anos da Analice, cheguei a conclusão de que terei que levar eu mesma o Brad como o chamam para um albergue, saio dos meus devaneios com o barulho do meu celular.

— Piper — digo já sabendo que era do colégio da Analice.

— Senhorita, sua irmã desobedeceu as regras de nossa instituição de ensino, precisa vir buscar ela — ele diz.

O plano foi resolver meus problemas com o Brad, não podia deixar ele por lá vai que ele decide voltar às ruas, eu ia me sentir culpada com certeza.

— gosta de música Brad ? — pergunto.

— eu gosto daquela do filme da baby — ele diz e eu sorrio.

— Tá falando de dirty dancing the time of my life ? Se for você tem sorte porque eu tenho um pen drive só para os clássicos — digo e procuro, a primeira música que aparece é o thriller Michael Jackson, depois suspicious minds Elvis Presley, BSO pretty woman, e finalmente The time of my life.

— Essa música é legal, mas olhe para frente — ele diz.

— Já dirigiu antes? — pergunto.

— não sei — ele responde.

— você ainda está com fome? Eu tenho alguns amendoins por aqui — digo tentando puxar da memória onde coloquei

— eu quero — ele diz e eu sorrio pegando o grande saco de amendoim.

— é melhor me dizer e bem rápido o que aconteceu — digo em uma expressão de reprovação, a única coisa que tinha em comum que tinha com Analice era a aversão ao sol, as bochechas dela estavam vermelhas, as minhas só não estavam porque usei o filtro solar.

— Eles me pegaram beijando o sobrinho do Abner, satisfeita? — ela pergunta.

— muito, sabe que está de castigo e que eu não gosto do Rogério, aquele garoto cheira problema — digo e ela me olha com aquele olhar de desespero oficial dos adolescentes, o fim do mundo para eles é isso já para nós adultos é perder o emprego.

— não pode fazer isso comigo! Eu vou me matar se quer saber, eu juro que me mato e você vai se sentir culpada a vida toda — ela diz e eu cruzo os braços e balanço a cabeça, as poucas curvas de minha irmã que é muito alta para a sua idade, resumindo ela tinha um corpo oficial de modelo, muita perna e pouco tronco, ela normalmente só queria shorts jeans curtos, eu as vezes compro vestidos que são raramente usados.

— quem vai se matar? — Brad pergunta assustado.

— não sei, mas eu vou morrer de amor — ela diz — tá legal, já entendi o Ro pulou, mas ele eu posso namorar?

— você pode largar de ser inconsequente, você não vai namorar, não tem idade nem maturidade o bastante para isso — digo e ela me olha ofendida.

— É normal que minhas mãos fiquem inchadas? — Brad pergunta, mas eu ignoro.

— por que eu não posso namorar com ele? — Analice pergunta pela milésima vez.

— deve ser porque ele tem a idade da sua irmã que te criou — digo e olho no retrovisor do carro e vejo um Brad vermelho.

— Algum problema? — pergunto já parando no albergue mas ele não responde só pega na garganta respira fundo e apaga.

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