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Capa do romance Pouco Visivel

Pouco Visivel

Entre os desamparados das ruas, um homem de misteriosos olhos castanhos esconde um passado que nem ele mesmo consegue recordar. Piper, uma médica belga de classe média alta, dedica-se a ajudar os invisíveis enquanto lida com a própria infelicidade. Ao cruzar o caminho desse estranho, ela confronta a crueldade do mundo e a falta de proteção dos vulneráveis. Juntos, eles buscam respostas sobre a identidade dele e a chance de Piper reencontrar a felicidade.
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Capítulo 3

— Por que esse homem está tão sujo? — Everton pergunta com aquele jeito medíocre de sempre, aquele tipo de rico que acha que pessoas pobres o fazem mal, os pais são fazendeiros e tem uma plantação de soja no Mato Grosso do Sul, mas mesmo provavelmente vindo da classe baixa, são entojados e soberbos, Everton é bonito, mas um bonito convencional cabelos pretos olhos castanhos, boca bonita, mas o que mais me chamava a atenção em um homem para mim ele não tinha, simpatia e um olhar que faz a gente derreter como manteiga na panela quente, ele não seria nem de longe o tipo de cara que eu flertaria.

— ele veio da rua, suspeito que teve uma crise alérgica com os amendoins que eu dei — digo.

— não acredito que trouxe um mendigo para dentro de um dos melhores hospitais da América Latina — Everton diz e eu reviro os olhos.

— O fato dele ser um morador de rua não faz ele ser menos humano que você — digo e ele me olha como se eu o comparasse a dejetos.

— olha suas ideias de mudar o mundo são lindas, super apoio mas não traga mais esses seres humanos aqui, por favor — ele diz.

— não vai acontecer de novo relaxa — digo enquanto ele observa a enfermeira colocando adrenalina na veia do Brad, acho que a frescura faz dele um ótimo profissional, acho que o meu TOC que me faz sair de luvas para onde eu for e a claustrofobia, a síndrome do pânico e tudo mais me fez uma boa profissional também.

— o que não vai acontecer? — pergunta Abner, ótimo queria mesmo falar com ele, alguém tem que segurar aquele sobrinho dele.

— Eu trouxe um morador de rua para cá, sei que não era certo, mas até ele ser atendido pelo SUS já tinha virado pó — digo.

— e há algum problema sobre isso? — ele pergunta.

— Não quero cuidar de moradores de rua, ele está fedendo e sujou toda a roupa de cama — ele diz e eu rezava para que o Brad fosse violento, se bem que ele está apagado de qualquer forma.

— Você fez faculdade que eu saiba para ajudar pessoas, acontece de vez em quando pra quem fica na emergência como eu e a Alexis, todos os dias se quer saber — ele diz.

— não vou dizer mais nada, quando esse hospital virar um albergue você não reclama — ele diz e sai todo estressadinho.

— ele quase entrou em coma, eu ia me sentir tão culpada se isso acontecesse — digo.

— Tá tudo bem, mas ele está fedendo — ele diz e eu olho para ele com uma expressão fechada.

— se for para apoiar ele, pode ir embora — digo.

— calma, e a gente podia sair, eu faço uma reserva no restaurante Japonês dos pais da Kyoto que você adora e passa na sua vigilância sanitária particular — ele diz sorrindo — não entendo como alguém com tanta mania de limpeza consegue ficar perto de alguém tão fedido.

— é porque eu sempre carregava o pai da minha irmã fedendo para casa, ele não era um vagabundo, pelo contrário ele sofria com o que ele fazia, acima de doente eu sou um ser humano e me coloco no lugar das outras pessoas — digo irritada.

— vocês estão atrapalhando o paciente a descansar! — ouço a voz de uma das enfermeiras que mais me odeiam nesse lugar, ela é tão importante na minha vida que mal sei o nome dela, eu e Abner acabamos saindo do quarto.

— trancou a garganta dele, agora ele poderia estar em coma — digo e ele me olha com compaixão.

— me desculpe — ele diz e Analice nos vê do corredor e já chega correndo.

— soube do que aconteceu entre o seu sobrinho desajuizado e a minha irmã desajuizada ? — pergunto.

— suponho que não, hoje não conversei com ele, e com a minha irmã você sabe que nossa relação não anda nada boa — ele diz cabisbaixo, eu não entendia como dois seres humanos que não se desgrudavam, que eram vizinhos foram se distanciar daquela forma, um mistério que eu adoraria desvendar.

— eles foram pegos em um momento íntimo, o que é extremamente proibido no colégio — digo.

— como assim íntimo? — ele pergunta, depois a fama de fofoqueira é feminina.

— eles são crianças, estavam se beijando — digo da forma mais rispida e com tom de reprovação que eu consegui.

— ah, claro — ele diz sem graça.

— já que eu estou de castigo acho justo que ele fique também — Analice diz e eu balanço a cabeça negativamente para ela.

— não se meta no meio disso, Analice, ele não é nada seu nem meu — digo.

— vou ver o que posso fazer — Abner diz e dá uma piscadela para ela que fica toda animada, eu me lembro que ele sempre foi legal com Analice por motivos óbvios, ele sempre quis namorar comigo desde quando entrei para a faculdade, mas para mim só existia o Cid e o Leonardo Dicaprio mas como o Leonardo Dicaprio estava muito longe, ficava com o Cid.

— Você deveria casar com a minha irmã — Analice diz.

— para de se meter na vida dos outros — digo e ele me olha com esperança que é eliminada no meu olhar de aversão, eu nunca tinha me casado mas toda vez que eu e Cid saímos juntos ele falava a seus amigos e patrões estilistas que era para se preparar para o vestido do nosso casamento.

— o mendigo acordou — ouço a voz irritante do Everton — vê se joga ele em um albergue logo.

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— então, qual é o seu nome ? — Analice pergunta se referindo a Brad, ela usou o Bluetooth para colocar um de seus pops, Iggy Azalea e Britney Spears Pretty Girls.

— Me chamam de Brad Pitt — ele diz do mesmo jeito que disse a mim e eu acho que a expressão de minha irmã é a mesma.

— ele tem amnésia, Analice — explico e ela me olha com uma expressão surpresa.

— é mais o nome é bem apropriado, o Brad Pitt das ruas, ele é um gato, vai dizer que não percebeu maninha — ela diz e eu o vejo pelo retrovisor, ele parecia um ouriço dos olhos bonitos de um castanho amarronzado bem claro, diferente do Cid com os olhos azul claro, ele seria o tipo de homem que eu sairia com certeza, ele não é o primeiro morador de rua bonito que eu vejo, e provavelmente não será o último.

— Estou dirigindo — digo fingindo não ter me afetado com o comentário.

— Você não lembra de nada? Agora que você desmaiou pode ter se lembrado, não pode ? — ela pergunta.

— é como se tudo fosse um borrão, minha vida toda — ele diz e eu observo a fala dele, ele parecia ser inteligente.

— quando eu tiver idade para namorar, posso namorar um morador de rua em recuperação? — Analice pergunta e eu sorrio, pelo menos eu não a criei com preconceitos e isso é uma das minhas coisas favoritas nela e uma das minhas medalhas de honra a criação de Analice.

— mas claro, se ele tiver a sua idade e estiver em recuperação em caso de vício — digo e ela cruza os braços e faz uma cara de poucos amigos

— o amor não tem idade — Brad diz e eu fecho a expressão. Comentario de pedofilo, entretanto vou relevar por ele estar nitidamente confuso.

— isso mesmo! — Analice diz.

— mas a safadeza tem, ainda não estou pronta para ser avó — digo.

— pensei que ela fosse sua irmã — ele diz.

— Ela é, mas eu a criei como filha, para mim ele ou ela seria meu neto — digo já parando na frente de casa, amanhã eu ia procurar um lugar para ele ficar, hoje ele ia ficar lá em casa, ele merecia depois de quase morrer por minha causa. Analice dormiria na minha cama comigo de porta trancada.

— Tem razão, se importa se eu dormir um pouco no carro? — ele pergunta.

— Nem um pouco — digo e ele se deita.

— podemos ficar com ele? — Analice pergunta.

— podemos pelo menos por essa noite, não se esqueça de trancar a porta, por mais que você ache ele bonito, não vai gostar de ser estuprada, ele parece ser legal, mas não é totalmente confiável — digo e ela concorda com a cabeça meio assustada.

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Brad adormeceu em meu carro, eu e Analice que já está no castigo que se resume a sem notebook e celular já que eu nunca deixo ela sair no meio da semana, coloquei em um canal de clipes musicais e tomei uma vitamina ao invés de comer comida.

— acho que acabei dormindo no seu carro, me desculpe, se quiser eu vou embora — ele diz, tocava Poison Rita Ora, eu amava essa música tanto quanto amava o nome Rita.

— não precisa, passe a noite aqui, tem roupas de homem aqui, se quiser tomar banho, o banheiro fica no corredor daquele quarto escrito Warning! Devil's home — digo rindo, só a Analice mesmo.

— é… muito obrigado — ele diz sorrindo.

— as panelas são suas, coma o quanto quiser eu e a Analice já comemos — digo indo para dentro do meu quarto, todas as coisas do Cid se encontram por lá, as roupas já estão todas novamente na moda já que as roupas são de outra década, a moda normalmente volta, já fazia algum tempo que eu não mexia nas coisas do Cid, isso não é nada bom, sinto o suor em meu rosto e o descontrole sobre as mãos, eu estava tremendo a falta de ar me deu a certeza de que eu estava tendo uma crise de pânico.

— Hein, se importa se eu comer umas balas daquele pote... coloca o rosto para cima, respira fundo — ele dizia me sentando em minha king size — fica um pouco aí, eu vou buscar água pra você beber.

— mi meu remédio na bolsa — gaguejo.

Ele corre até a minha bolsa e pega meu remédio e segura em meu braço para que ele pare de tremer para que eu consiga engolir o remédio, logo eu comecei a me aliviar, se eu não consigo tomar o remédio na hora eu sabia que poderia ser grave se ele não tivesse aparecido.

— obrigado — digo com um sorriso sincero.

— você tem sorte que como o Cid era um modelo, ganhava muitas cuecas de ensaios que fazia e mal usava — digo e percebo que falei dele inconscientemente.

— Cid é seu marido? — ele pergunta e eu engulo seco.

— Ele era meu namorado, quase marido já que a gente morava junto, ele morreu a 10 anos — digo e ele me olha surpreso.

— eu sinto muito — ele diz meio sem graça, pegou uma das calças de moletom preferidas do Cid, eu sempre me lembrava dele, o azul marinho o vestia bem, mas no meio das lembranças boas vinham também as lembranças ruins como o jeito que ele ficou depois do atropelamento, a beleza magnífica do amor da minha vida se foi com aquele carro em alta velocidade.

— Tá tudo bem, tome cuidado com a maníaca da minha irmã — digo sorrindo e mudando de assunto.

— Ela é encantadora, acredita na magia do amor — ele diz já indo até o banheiro.

— acho que você deve pensar que eu sou a bruxa dos contos de fadas — digo.

— você é uma grande mãe e não é feia então não pode ser a vilã — ele diz e eu sorrio.

— a malévola era uma boa mãe e mais bonita que eu, coincidentemente a mulher que a interpretou é esposa do Brad Pitt americano — digo e ele sorri.

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— por que ela jogou o feitiço na garota ? — ele pergunta já terminando de comer o balde de pipoca.

— Uma mulher apaixonada e magoada pode acabar fazendo algo terrível — digo e ele me olha com um belo sorriso, agora limpo ele parece mais bonito.

— vou te dar alguns cremes que ganhei de amostra grátis, para tirar suas queimaduras de sol — digo e ele me olha com gratidão, o olhar que faz a pessoa derreter como manteiga na panela.

— queria te agradecer por ter me deixado ficar aqui essa noite, ninguém nunca foi tão legal assim comigo, eu queria te deixar orgulhoso de mim, queria conseguir um emprego — ele diz animado, ninguém sabia o nome do Brad de verdade e muito menos alguém tinha sua carteira de trabalho, não seria fácil já que ninguém ainda disse que o conhecia no site de desaparecidos que eu coloquei.

— Eu tenho um amigo comerciante, não posso te garantir nada mas posso tentar arranjar um emprego para você — digo.

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Hoje é um dia feliz para Analice, suspensão de três dias e isso significa dormir até a hora que ela quiser, hoje é meu dia de descanso pois ao anoitecer terei que entrar na emergência, eu costumo meditar um pouco para aguentar as cenas fortíssimas que vejo de vez em quando, alguns pacientes acabam me lembrando o Cid.

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