
Por favor, papai
Capítulo 2
Garcia
Ele me feriu... para proteger aquele homem.
Embora o golpe tivesse sido forte e me deixado paralisada no lugar, essa nem era a dor real. Meu coração parecia que ia explodir.
Olhei para cima, e nossos olhos se encontraram. Os seus olhos se arregalaram, como se tivesse acabado de perceber o que havia feito.
"G-Gracie...", ele gaguejou. "Eu..."
As lágrimas embaçaram minha visão novamente, e nem tentei contê-las. Eu não sabia se estava chorando pelo empurrão ou porque o homem que eu amava mais do que tudo no mundo acabou de me ferir.
O homem que abria a porta do carro para mim, que massageava minhas costas quando eu estava com cólicas, que uma vez chorou quando tive intoxicação alimentar porque não suportou me ver com dor.
Esse Charles acabou de me ferir para proteger a pessoa com quem estava.
Recuei lentamente, minha respiração ofegante, sentindo que não conseguia respirar direito. Minhas mãos tremiam ao meu lado.
"Gracie, por favor", ele disse, se aproximando de mim novamente. "Não foi minha intenção. Eu só..."
"Não ouse se aproximar, Charles!", gritei.
Ele se encolheu e congelou, sua mão ainda no meio do caminho, então deu um passo para trás, o rosto se contorcendo de culpa.
Nesse momento, Mark se aproximou por trás dele e colocou a mão suavemente nas suas costas.
"Está tudo bem, Charles. Sei que você não queria isso."
Meu peito se apertou como se algo estivesse o esmagando. Olhei para os dois, como se tivesse interrompido um momento íntimo, como se tivesse arruinado o momento deles.
Deus, como isso doía... doía tanto.
Fechei os olhos por um segundo, tentando recuperar o fôlego e evitar desabar.
Quando os abri, vi Charles me olhando com pena, enquanto Mark mantinha aquele olhar sutil e conhecedor no rosto. Engoli o nó na garganta, e minha voz saiu baixa, quase inaudível: "Só tenho uma pergunta para você, Charles."
"O-o quê?"
"Você se sente atraído por mulheres?" Minha voz quase falhou. "Por mim?"
Charles abriu a boca, mas antes que pudesse falar, Mark suspirou. "Você realmente precisa perguntar isso?"
Ignorei-o, mantendo meus olhos fixos em Charles, que desviou o olhar enquanto sussurrava: "Desculpe."
Foi apenas uma palavra, mas entendi imediatamente: o homem com quem eu estava prestes a me casar em poucos dias era gay.
Meus joelhos se enfraqueceram novamente. "Então por quê? Por que fez isso comigo? Se você sabia, por que me enganou? Por que fingiu?"
"Me desculpe, Gracie", ele repetiu, como se isso pudesse remendar o buraco no meu peito, como se isso pudesse explicar por que o homem em quem eu mais confiava se tornou aquele que mais me feriu.
"Não", eu disse, balançando a cabeça com a voz firme. "Não peça desculpas. Só responda à pergunta."
"Você sabe que nossas famílias esperavam que nos casássemos", disse Charles de repente, sua voz baixa. "Quando meus pais descobriram sobre meu... verdadeiro eu, ficaram arrasados. Eles me pressionaram a fazer isso, Gracie. Acharam que o casamento resolveria tudo, que você... consertaria as coisas. Eu nunca quis..."
"Pare com isso, Charles", o interrompi.
Ele se encolheu, provavelmente nunca tendo me visto assim antes.
"Você acha mesmo que vou ter pena de você agora? Depois de tudo?"
Ele abriu a boca novamente, mas não o deixei falar.
"Você me usou. Eu era só uma fachada para sua família, uma noiva perfeita para apresentar ao mundo. E eu te amava. Meu Deus, eu te amava mesmo quando você estava distante, mesmo quando parecia tão distante. Eu culpava o estresse, o trabalho... qualquer coisa, menos a verdade. Mas você sabia. Sabia desde o início."
Pisquei para afastar as lágrimas que ainda caíam, irritada por elas ainda estarem caindo. "Se você tivesse sido honesto desde o início... eu teria te ouvido e poderia ter entendido. Mas você mentiu e me deixou me apaixonar por você, me fazendo acreditar que tínhamos algo real."
"Não culpe seus pais por tudo", continuei. "Você fez suas escolhas. Não se esconda atrás da sua identidade para justificar o que fez."
"Peço desculpas mesmo", ele murmurou, olhando para o chão.
Enxuguei as lágrimas com as costas da mão bruscamente. "Guarde suas desculpas para você. Não as quero."
Meus dedos tremiam enquanto tocavam o anel na minha mão — era nosso anel de noivado. Lembrei-me da noite em que ele me deu, de como chorei e o beijei várias vezes, prometendo que nunca o tiraria. Agora, eu estava prestes a fazer o que nunca imaginei.
Tirei o anel lentamente, como se o metal estivesse me queimando, e o deixei cair aos pés dele.
"Acabou entre nós, Charles. Não quero mais nada com você ou com a vida que você construiu sobre mentiras", eu disse, minha voz neutra.
Charles balançou a cabeça em descrença. "Você não pode fazer isso, Gracie. Sei que está com raiva, mas isso... isso é um acordo comercial. Você sabe disso. Nossas famílias..."
Soltei uma risada seca. "Um acordo comercial."
Então era só isso que eu era para ele? Apenas um acordo comercial?
"Tudo bem, então estou me afastando do seu precioso acordo comercial. Encontre outra pessoa disposta a se vender pela sua mentira. Estou cansada de fazer esse papel."
Olhei nos olhos dele e, pela primeira vez, vi medo. "Te ver agora só me traz dor. Me arrependo de ter acreditado em nós."
"Gracie...", ele começou, mas não esperei pela próxima desculpa.
Virei-me e fui embora, deixando para trás o anel, o casamento, o futuro que eu achava que teríamos e o homem que nunca me amou de verdade.
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