
Plano de Sofia
Capítulo 2
"Sofia, preciso te contar uma coisa."
A voz de Pedro soou séria, quebrando o silêncio confortável do nosso pequeno apartamento. Estávamos sentados no sofá, o prato de macarrão que eu tinha preparado para o jantar esquecido na mesinha de centro.
Eu me virei para ele, um sorriso leve nos lábios.
"O que foi, meu amor? Conseguiu a promoção?"
Pedro era gerente de marketing, ambicioso e dedicado, e eu sempre apoiei sua carreira.
Ele não sorriu de volta. Seus olhos, que eu tanto amava, evitaram os meus. Ele respirou fundo, como se estivesse se preparando para um mergulho em águas geladas.
"Não é sobre a promoção."
Ele fez uma pausa, e um frio começou a subir pela minha espinha.
"A Juliana… minha chefe… ela está grávida."
Eu o encarei, confusa.
"Que pena. O marido dela deve estar…"
"O filho é meu, Sofia."
As palavras dele caíram no ar como pedras. Meu cérebro demorou um segundo para processar. O som da TV ligada no mudo pareceu de repente alto demais. O cheiro do molho de tomate, enjoativo.
Meu noivo. O homem com quem eu planejava casar, ter filhos. Tinha engravidado outra mulher. Sua chefe.
"O quê?" Eu sussurrei, a voz falhando.
"Aconteceu. Eu não planejei, foi um erro," ele disse rapidamente, as palavras tropeçando umas nas outras. "Mas agora é uma realidade. Ela está grávida."
Eu senti meu corpo todo ficar gelado. Choque. Incredulidade. Uma dor oca se abrindo no meu peito.
"Você… você me traiu?"
"Sofia, não veja dessa forma," ele disse, e pela primeira vez, ele estendeu a mão para tocar a minha, mas eu a puxei de volta como se ele estivesse em chamas.
"Não veja dessa forma?" minha voz subiu uma oitava. "Como você quer que eu veja, Pedro? Você engravidou outra mulher!"
"Escuta, eu tenho um plano," ele disse, a voz baixa e conspiratória, como se estivéssemos planejando uma festa surpresa e não discutindo a ruína da nossa vida. "A Juliana é poderosa. Ela pode me dar a carreira que eu sempre sonhei. Essa criança vai solidificar minha posição na empresa. É uma oportunidade única."
Eu o olhei, enojada. Ele não estava se desculpando. Ele estava me apresentando um plano de negócios.
"Você está me dizendo que vai ficar com ela por causa da sua carreira?"
"Não, claro que não," ele se apressou em dizer, mas seus olhos brilhavam com uma ambição que me assustou. "Vou ficar com ela por um tempo. Só até a poeira baixar, até o bebê nascer. Juliana se cansa das coisas rápido. Ela vai se cansar de mim, vai se cansar de ser mãe. E quando isso acontecer, eu volto para você. Nós podemos ter a vida que sempre planejamos."
Ele falava como se estivesse me oferecendo o negócio mais razoável do mundo. Como se me colocar na prateleira, como um objeto em espera, fosse um ato de amor e sacrifício.
"Eu estou fazendo isso por nós, Sofia. Pelo nosso futuro. Pense no que eu posso conseguir com essa conexão. Dinheiro, status… tudo que eu nunca pude te dar."
Meu estômago se revirou.
Tudo que ele nunca pôde me dar.
A ironia era tão cruel, tão amarga, que eu quase ri.
Ele não fazia ideia de quem eu era.
Para ele, eu era apenas Sofia, uma garota simples que trabalhava como assistente administrativa em uma pequena empresa, que vivia com ele neste apartamento alugado e sonhava com um casamento modesto.
Ele não sabia que meu nome completo é Sofia Monteiro de Albuquerque. Filha única de Ricardo Monteiro de Albuquerque, o dono da maior e mais luxuosa rede de hotéis da América Latina.
Eu escondi minha identidade porque queria viver de verdade. Queria ser amada por quem eu era, não pelo sobrenome da minha família ou pelo dinheiro na minha conta. Eu queria uma experiência autêntica.
E ali estava ela. A experiência mais autêntica e brutal que eu poderia imaginar. O homem que eu amava me via como tão insignificante, tão pobre, que achava que me trair e me oferecer como plano B era um favor. Uma estratégia para me dar uma vida melhor.
A dor no meu peito se transformou em uma raiva fria e cortante. A ingenuidade que me fez amá-lo se quebrou em mil pedaços, e no lugar dela, algo novo e duro começou a se formar.
Eu me levantei. Meus movimentos eram firmes, precisos.
"Acabou, Pedro."
Ele me olhou, surpreso, como se não tivesse considerado essa possibilidade.
"O quê? Sofia, não seja dramática. Eu acabei de te explicar o plano. É temporário."
"Acabou," repeti, minha voz agora sem nenhum tremor. "Pegue suas coisas e saia do meu apartamento."
A surpresa no rosto dele se transformou em irritação.
"Seu apartamento? Nós pagamos o aluguel juntos!"
"O contrato está no meu nome. A porta também. Saia."
Ele se levantou, o rosto vermelho de raiva. Ele não estava triste. Ele estava furioso porque seu plano perfeito havia encontrado um obstáculo. Eu.
"Eu não acredito que você está fazendo isso," ele disse, a voz cheia de uma indignação falsa. "Eu me sacrificando, pensando no nosso futuro, e você joga tudo fora por causa de um orgulho idiota? Você é ingênua, Sofia. O mundo real não é um conto de fadas. Às vezes, a gente precisa fazer o que é necessário."
"Sim, eu preciso," eu concordei, caminhando até a porta e a abrindo. "E o que é necessário agora é que você saia da minha vida."
Ele me encarou, os olhos cheios de desprezo.
"Você vai se arrepender disso, Sofia. Você não vai encontrar ninguém que se importe com você como eu. Você não tem nada, não é ninguém. Vai voltar rastejando pra mim quando perceber o erro que cometeu."
Eu o observei pegar o casaco e a chave do carro, o maxilar travado de raiva. Ele não olhou para trás quando saiu, batendo a porta com uma força que fez os quadros na parede tremerem.
Eu fechei a porta e a tranquei.
O silêncio do apartamento era ensurdecedor.
Rastejando de volta para ele.
Eu andei até a janela e olhei para a rua lá embaixo. As luzes da cidade brilhavam, indiferentes à minha dor.
Um sorriso frio tocou meus lábios.
Ah, Pedro. Você não faz a menor ideia do erro que você cometeu.
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