
Plano de Sofia
Capítulo 3
Dois dias se passaram em um borrão de dor e raiva. Eu não fui trabalhar. Não conseguia encarar as paredes do escritório, o mesmo lugar onde ele e Juliana haviam planejado meu descarte.
Na terceira noite, ouvi a chave girando na fechadura. Meu coração parou. Ele tinha uma cópia. Eu tinha me esquecido completamente.
Pedro entrou no apartamento como se ainda morasse ali. Ele não parecia arrependido. Parecia irritado.
"Sofia, a gente precisa conversar. Você não pode simplesmente desaparecer. Eu preciso das minhas coisas."
Eu estava sentada no sofá, enrolada em um cobertor. Eu não me movi.
"Pegue e vá embora."
Ele bufou, impaciente, e começou a andar pelo apartamento, abrindo gavetas e armários. Enquanto ele juntava suas roupas, o celular dele tocou. Ele atendeu sem hesitar, na minha frente.
"Oi, meu amor."
A voz dele era melosa, cheia de uma ternura que ele raramente usava comigo nos últimos meses. Meu estômago se contraiu.
"Sim, já estou pegando o resto das minhas coisas... Não, ela está aqui. Sim, agindo como uma criança, como sempre."
Ele me lançou um olhar de desprezo.
"Não se preocupe, eu não vou demorar. A gente precisa comemorar direito. Nosso futuro presidente da empresa precisa de cuidados especiais."
Ele riu, uma risada íntima que me cortou profundamente. Ele estava ali, na minha casa, me humilhando abertamente, me tratando como um estorvo inconveniente em sua nova vida gloriosa.
"Também te amo. Beijo."
Ele desligou e jogou o celular no sofá.
"Satisfeita?", ele perguntou, com sarcasmo. "Ou quer que eu implore seu perdão de joelhos?"
Antes que eu pudesse responder, a campainha tocou.
Nós dois gelamos.
Pedro foi até a porta e a abriu.
Parada no corredor, com um sorriso vitorioso e a mão pousada protetoramente sobre a barriga, estava Juliana. Ela usava um vestido caro que realçava a pequena protuberância de sua gravidez e me olhava de cima a baixo com um ar de superioridade.
"Pedro, querido, você está demorando," ela disse, a voz doce e venenosa. Ela entrou no apartamento, ignorando minha presença, e passou os braços ao redor do pescoço de Pedro, beijando-o longamente na boca.
Foi um beijo calculado. Uma performance. Uma demonstração de poder feita para me quebrar.
E funcionou. Vê-los juntos, na minha sala, foi como levar um soco no estômago.
Juliana finalmente se afastou dele e se virou para mim. Seu sorriso era puro desprezo.
"Ah, Sofia. Você ainda está aqui."
Ela falou meu nome como se fosse uma sujeira em sua boca.
"Eu imaginava que você já teria tido o bom senso de ir embora."
"Esta é a minha casa," eu disse, minha voz saindo mais fraca do que eu gostaria.
"Era," ela corrigiu, passeando o olhar pelo meu pequeno apartamento com desdém. "Agora é só um lugar onde o Pedro guardava as coisas velhas dele. E falando nisso..."
Ela se virou para Pedro, que observava a cena com uma mistura de desconforto e submissão. Ele era um cachorrinho treinado na frente dela.
"Querido, por que você não me disse que ela ainda estava aqui? Eu não gosto de respirar o mesmo ar que perdedoras. Me dá náuseas."
Pedro encolheu os ombros, parecendo um menino pego fazendo travessura.
"Eu estou resolvendo isso, Ju. Ela já está de saída."
"De saída?", eu repeti, incrédula. "Você está me expulsando da minha própria casa?"
Juliana riu, uma risada curta e cruel.
"Sua casa? Não seja ridícula. Esse lugar é um cubículo. O Pedro merece coisa melhor. Nós merecemos coisa melhor. E estamos nos mudando para a minha cobertura na semana que vem."
Ela se aproximou do sofá onde eu estava sentada. Seu perfume caro invadiu meu espaço, sufocante.
"Então, sim. Você está de saída. Na verdade, eu quero que você saia agora. A sua presença me incomoda. E incomoda o nosso bebê."
Ela acariciou a barriga, usando seu filho ainda não nascido como uma arma contra mim.
Eu olhei para Pedro, esperando que ele dissesse alguma coisa. Que ele defendesse o mínimo de decência. Mas ele apenas desviou o olhar, concordando silenciosamente com a crueldade dela. Ele já tinha me descartado. Eu era o passado. Ela era o futuro brilhante dele.
"Faça suas malas, Sofia," Juliana ordenou, a voz fria como gelo. "O show acabou. Pegue sua vidinha medíocre e desapareça. O Pedro tem coisas mais importantes com que se preocupar agora."
Ela se sentou na minha poltrona favorita, cruzou as pernas e me encarou, esperando que eu obedecesse.
Naquele momento, eu não senti apenas dor. Senti uma humilhação tão profunda, tão avassaladora, que queimava por dentro. Eles não tinham apenas terminado comigo. Eles estavam tentando me apagar.
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