
PERDIDA EM TI
Capítulo 2
Naquela noite, não dormi. A imagem do vídeo continuava se repetindo na minha mente como um aviso em loop. "Não confie em Vittorio. Nem em você."
Por que eu teria me gravado dizendo isso? Do que estava me protegendo? Dele? Do que eu fui?
O ar na clínica havia se tornado mais denso, pesado. Cada passo que eu dava fora do meu quarto era medido, controlado. E, ainda assim, ele se movia pelos corredores como se o lugar lhe pertencesse.
Na manhã seguinte, quando entrou com sua camisa branca impecável, arregaçada até os cotovelos, a primeira reação do meu corpo foi física: o estômago se contraiu, minha pele se tensionou e minha respiração acelerou, como se lembrasse de algo que minha mente ainda não havia alcançado.
- Dormiu pouco - disse, colocando uma bandeja sobre a mesa de apoio. Chá, frutas cortadas com precisão cirúrgica. Pão torrado. Mel. Tudo em proporções exatas.
- Você está me vigiando?
Seu sorriso foi leve. Ambíguo.
- Eu cuido de você. É diferente.
- E as câmeras no quarto?
- Protocolos. Nem sempre sabemos quando você pode se sentir mal ou precisar de algo.
- Eu não sou uma criança - murmurei, com um fio de voz.
- Não. Você é Catalina. E Catalina, às vezes, se quebra.
A forma como pronunciou meu nome me fez prender a respiração. Como se o saboreasse. Como se tivesse gosto.
Passaram-se três dias. Ou cinco. Não sei. O tempo na clínica não era linear. Cada dia parecia uma repetição distorcida do anterior. Mas, nesse dia, Vittorio propôs algo diferente.
- Quer sair para o jardim? Esticar as pernas vai te fazer bem.
Aceitei. Não porque confiasse nele. Mas porque precisava sentir o vento. Ver se o mar ainda era real.
Ele me conduziu por um corredor lateral que eu nunca tinha visto. As portas eram todas idênticas, mas algumas tinham trancas duplas. Outras, sensores.
- Isso é uma clínica ou uma prisão?
- A diferença está na vontade, não acha? - respondeu. - Você escolheu ficar.
Eu não lembrava de ter feito isso. Mas o olhar dele era tão seguro, tão profundo, que quase me convencia de que sim. Que eu tinha implorado. Que eu havia me entregado a ele por vontade própria.
O jardim era exuberante. Jasmins. Buganvílias. Um limoeiro carregado. O mar ao fundo, hipnótico. Sua beleza me atingiu.
Caminhamos em silêncio. Cada passo me aproximava de uma versão desconhecida de mim mesma. Vittorio parou sob um salgueiro. Me ofereceu assento em um banco de ferro forjado. Não me sentei.
- Quem eu era antes?
- Você era fogo - disse, sem hesitar. - E também gelo. Insuportável e fascinante. Tinha um dom para ferir, mesmo sem querer. Mas era minha.
A palavra minha ecoou no meu peito como uma ameaça disfarçada.
- E você? O que era para mim?
Vittorio deu um passo à frente. O suficiente para invadir meu espaço. Seu perfume me atingiu em cheio. Sândalo. Tabaco suave. Pele quente.
- O homem que tentava te sustentar enquanto você desabava.
- E fracassou?
- Não. Eu te perdi por escolha.
- E agora me recupera à força?
Seus olhos escureceram.
- Você voltou sozinha.
Ele mentia. Ou acreditava estar dizendo a verdade. Com ele, eu nunca sabia.
Naquela noite, tive outra lembrança.
Eu estava em um carro. Chovia. Vittorio dirigia. Gritávamos. Eu chorava. Ele parava o carro. Pedia que eu saísse. Eu me recusava. Alguém batia no para-brisa do lado de fora.
Acordei encharcada de suor. Os lençóis grudados na pele. O coração fora de ritmo.
Fui ao banheiro. Olhei-me no espelho. Olheiras. Lábios rachados. Um hematoma quase imperceptível na clavícula. Não lembrava de tê-lo visto antes.
Baixei o olhar. Sobre a pia, alguém havia deixado um pequeno frasco âmbar sem rótulo.
Abri. Cheirei. Reconheci o aroma na hora. O mesmo que Vittorio usava depois de se barbear. Por que aquilo estava ali?
Na manhã seguinte, o confrontei.
- Você entrou no meu banheiro ontem à noite?
- Eu nunca iria embora sem ter certeza de que você está bem.
- Você está me drogando?
Sua mandíbula se contraiu. Pela primeira vez, perdeu a compostura.
- Não.
-Então, o que é isso? -mostrei-lhe o frasco.
Ele olhou. Segurou-o entre os dedos.
-Memórias. Ajudam a reconstruir.
-Que tipo de memórias se inalam?
-As que se recusam a ser lembradas de outra forma.
Quis atirar o frasco nele. Quis beijá-lo. Estava tão perto dele que já não sabia se o odiava ou se precisava me perder em seu corpo para entender quem eu tinha sido.
À tarde, ele me levou à estufa. Ninguém mais parecia usá-la. Flores tropicais. Orquídeas negras. Temperatura úmida. As paredes de vidro embaçadas pela condensação.
Mostrou-me uma flor em particular. Vermelha. Carnuda. Venenosa. Quase viva.
-Foi você quem a trouxe. Disse que era a única que sobrevivia ao cativeiro.
Toquei-a. Estava morna. Como pele.
Vittorio me olhava com uma intensidade que queimava. Senti como a umidade do lugar me percorria as coxas. Quis me afastar. Quis tocá-lo.
-Você me amava? -perguntei.
-Eu te amava tanto que precisei parar para não te destruir.
A sinceridade dele me cortou a respiração.
Segurou meu rosto. Roçou meus lábios com os dele. Não foi um beijo. Foi uma ameaça. Uma promessa de algo perdido.
-E agora?
-Agora não sei se te amo ou se estou te castigando por tudo o que me fez.
Minhas pernas fraquejaram. A estufa girava lentamente. O ar era espesso demais.
-O que eu te fiz?
Vittorio sorriu. Não respondeu.
Naquela noite, outro vídeo apareceu no meu celular. Eu não procurei. Ele estava lá.
Eu, com os olhos vermelhos.
"Não se deixe convencer. O amor de Vittorio é como um abraço... e uma corda. Se voltar a amá-lo, você estará perdida."
Desliguei. Minhas mãos tremiam.
Lá fora, os passos no corredor eram mais frequentes. Alguém sussurrava atrás das paredes.
Olhei para a porta. Fechada. Por dentro. Desta vez, eu mesma tinha passado o trinco.
Eu tinha me trancado sozinha.
De madrugada, um alarme soou na ala norte. Vozes. Gritos. Sapatos batendo no chão.
Aproximei-me da janela. Uma maca atravessava o jardim a toda velocidade. Alguém gritava: "Achou-a, estava na galeria!"
E então eu o vi.
Vittorio.
Coberto de sangue.
Com um leve sorriso. Como se estivesse esperando por isso.
A revelação não foi que alguém tinha morrido.
A revelação foi que algo em mim... também sorriu.
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