
Perdemos nosso bebê, descobrimos a traição dele
Capítulo 2
Ponto de Vista de Elisa Torres:
Eles me mantiveram no hospital durante a noite para observação. Jace, meu vizinho, ficou até me acomodarem em um quarto, cuidando da papelada com uma eficiência silenciosa que eu estava atordoada demais para conseguir.
"Você deveria ligar para ele, Elisa", disse ele, me entregando um copo de água. Sua voz era suave, sem o julgamento que eu esperava.
Eu balancei a cabeça, o movimento parecendo pesado e lento. "Eu vou me divorciar dele, Jace."
As palavras pairaram no ar estéril entre nós, chocando até a mim mesma com sua finalidade.
Suas sobrancelhas se ergueram em surpresa, mas ele não insistiu. Apenas assentiu. "Ok."
"Me desculpe", sussurrei, sentindo uma necessidade súbita e absurda de me desculpar por despejar minha vida bagunçada em seus pés. "Você não precisava ouvir isso."
"Não se desculpe", disse ele, um sorriso pequeno e gentil tocando seus lábios. "Descanse um pouco. Dou uma passada aqui de manhã."
Depois que ele saiu, fiquei olhando para o teto, repassando as palavras da médica. Você vai precisar do apoio dele. Uma risada amarga borbulhou na minha garganta. A última vez que estive no hospital para uma cirurgia pequena, Dante reclamou do preço do estacionamento. Ele saiu depois de vinte minutos para atender uma ligação.
Meu celular vibrou na mesa de cabeceira. Era ele. A foto de um delicado colar de diamantes apareceu na minha tela.
Dante: Para você. Feliz aniversário, meu amor. Me perdoa?
Por uma fração de segundo, uma centelha de esperança se acendeu no meu peito. Talvez ele se sentisse culpado. Talvez ele tivesse percebido seu erro.
Então, eu fiz o que sempre fazia. Meus dedos voaram para o aplicativo do Instagram, meu polegar pairando sobre o perfil de Camila Viana. Seu último story, postado há apenas cinco minutos, era a foto de um recibo da H.Stern. O colar na foto de Dante estava circulado com caneta vermelha.
A legenda de Camila: Quando a campanha atinge a meta de arrecadação, todo mundo ganha um mimo! Obrigada, chefe! #MelhorEquipe #DantePrefeito
Ele não tinha comprado para mim. Ele comprou presentes para toda a sua equipe sênior e estava tentando fazer um deles passar por um presente de aniversário sincero. A audácia daquilo me deixou sem ar.
Eu: Fique com ele. Ou dê para a Camila. Tenho certeza de que ela apreciaria um segundo.
A ligação dele veio instantaneamente. Deixei tocar duas vezes antes de atender, meu coração martelando contra minhas costelas.
"Que porra isso quer dizer, Elisa?", ele disparou, a voz tensa de raiva.
"Significa que eu sei que você comprou isso para toda a sua equipe, Dante. Não insulte minha inteligência."
"Você está sendo ridícula", ele zombou. "Você é tão ciumenta que não consegue nem aceitar um presente com elegância. Você tem um cartão de crédito sem limite, uma casa linda, não precisa trabalhar. O que mais você poderia querer?"
Suas palavras pareciam pequenas pedras afiadas atingindo minha pele. Ele via minha vida como uma série de transações, uma lista de luxos que ele fornecia. Ele não tinha memória do minúsculo apartamento em que começamos, dos dois empregos que eu tive enquanto ele terminava a faculdade de direito, da herança que meus pais me deixaram e que eu investi em sua primeira campanha para a câmara municipal.
Jace reapareceu na porta, segurando uma sacola de comida para viagem. O cheiro de canja de galinha encheu o quarto.
"Pensei que você pudesse estar com fome", disse ele suavemente.
"Quem é esse?", a voz de Dante tornou-se venenosa. "Tem um homem no seu quarto, Elisa?"
"Eu estou no hospital, Dante."
"Ah, lá vamos nós", ele debochou. "O que foi dessa vez? Uma dor de cabeça? Uma dor de estômago? Você faz qualquer coisa por atenção, não é?"
A crueldade de suas palavras sugou o ar dos meus pulmões. Fechei os olhos com força, colocando uma mão protetora sobre minha barriga. Sem estresse, a médica havia dito. Eu não podia deixá-lo fazer isso. Não agora.
"Vou desligar", eu disse, minha voz tremendo.
"Elisa, não se atreva-"
Encerrei a chamada, meu polegar pressionando o ícone vermelho com um senso de finalidade.
Uma enxurrada de mensagens de texto se seguiu imediatamente.
Dante: Você está dormindo com ele, não está?
Dante: Depois de tudo que eu te dei. Sua vadia ingrata.
Dante: ATENDE A PORRA DO TELEFONE.
Virei o celular e o empurrei para longe, meu apetite havia sumido. Mas olhei para a sopa que Jace havia trazido, e olhei para minha mão na minha barriga, e peguei a colher.
A médica me deu alta na manhã seguinte, suas palavras de despedida um lembrete severo para ir com calma. Jace estava lá, chaves na mão, insistindo em me levar para casa.
"Você não precisa", eu disse, minha voz embargada por lágrimas não derramadas.
"Eu quero", ele respondeu simplesmente.
Enquanto caminhávamos para o estacionamento, minha mente voltou a uma lembrança do inverno passado. Eu escorreguei em uma placa de gelo e torci o tornozelo. Liguei para Dante, que estava a apenas dez minutos de distância em uma reunião comunitária, para pedir uma carona para o pronto-socorro. Ele me disse para pegar um Uber; ele não podia arriscar ser fotografado saindo do evento mais cedo.
Jace abriu a porta do passageiro de seu elegante Audi para mim, e eu afundei no assento de couro macio, uma nova onda de dor me invadindo. Um quase estranho estava me mostrando mais cuidado e consideração do que meu próprio marido em anos.
Justo quando ele estava prestes a fechar a porta, um carro familiar parou com um rangido de pneus atrás de nós.
Dante.
Ele saiu furioso de seu carro, o rosto uma máscara de fúria. Por um momento selvagem e tolo, pensei que ele tinha vindo porque estava preocupado. Pensei que talvez ele tivesse verificado minha localização, percebido que eu estava no hospital e corrido para lá.
"A casa está uma bagunça, Elisa", ele latiu, ignorando Jace completamente. "Tem louça na pia e suas roupas estão por todo o chão do quarto. Eu tenho um evento de arrecadação de fundos hoje à noite. Como vou levar as pessoas para tomar um drinque em casa com o lugar parecendo um chiqueiro?"
Ele estava ali, impecavelmente vestido em um terno sob medida, seu rosto bonito contorcido por uma irritação mesquinha. Ele estava me repreendendo por não fazer o trabalho doméstico enquanto eu estava no hospital, lutando para manter nosso bebê vivo.
O último e frágil fio de esperança dentro de mim se partiu.
"E você", ele continuou, sua voz pingando condescendência, "você não foi capaz de me dar um filho em cinco anos. O mínimo que podia fazer era manter minha casa em ordem."
Eu apenas o encarei, a dor tão profunda que parecia silêncio. Tudo dentro de mim ficou quieto e imóvel.
Ele não sabia. Ele não sabia o quão perto esteve de ter tudo o que sempre quis. E ele tinha acabado de provar, sem sombra de dúvida, que não merecia.
"O que você está fazendo aqui, afinal?", ele exigiu, seus olhos passando pela minha pulseira do hospital com impaciência desdenhosa. "Fingindo outra doença por pena?"
Jace deu um passo protetor à frente. "Ela estava-"
Coloquei a mão em seu braço, parando-o. Esta era a minha batalha.
"Entre no carro, Elisa", Dante ordenou, agarrando meu braço. "Vamos para casa. Você vai limpar tudo."
Eu não resisti. Deixei que ele me puxasse para fora do carro de Jace e me empurrasse para o seu. A luta tinha se esvaído de mim, substituída por uma calma arrepiante e aterrorizante.
"Para onde estamos indo?", perguntei, minha voz monótona, enquanto ele acelerava para fora do estacionamento.
"A Camila vai ser homenageada hoje à noite no Baile de Gala das Artes", disse ele, sem olhar para mim. "Você vem comigo."
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