
Perdemos nosso bebê, descobrimos a traição dele
Capítulo 3
Ponto de Vista de Elisa Torres:
"Você vai sentar lá, vai sorrir e vai interpretar o papel da noiva solidária", disse Dante, seus nós dos dedos brancos no volante. "Ficou claro?"
"Cristalino", respondi, minha voz desprovida de emoção.
Não adiantava discutir. Eu me sentia esvaziada, uma espectadora da minha própria vida. Eu já tinha mandado uma mensagem para minha advogada de divórcio, uma mulher que encontrei online meses atrás durante uma noite particularmente solitária. Pedi a ela que desse entrada nos papéis na primeira hora da manhã. Isso era apenas uma última farsa a suportar.
Chegamos a uma galeria de arte chique e industrial, fervilhando com a elite da cidade. Camila Viana era o centro de tudo, uma visão em um vestido escarlate que se agarrava a ela como uma segunda pele. Sua risada era alta e confiante enquanto ela comandava a atenção, uma taça de champanhe na mão.
Eu, por outro lado, parecia o que era: uma mulher que acabara de passar a noite em uma cama de hospital. Eu ainda estava com as roupas de ontem, meu cabelo estava uma bagunça e havia olheiras pálidas e translúcidas sob meus olhos.
"A Camila é uma verdadeira inspiração", uma mulher ao meu lado sussurrou para sua amiga. "Uma mulher que se fez sozinha. Tão brilhante."
Os olhos delas se voltaram para mim, e a mulher baixou a voz para um sussurro conspiratório. "Diferente de algumas pessoas, que só se casam por interesse."
Camila nos viu e deslizou em nossa direção, seu sorriso nunca alcançando seus olhos frios e calculistas.
"Elisa! Que bom que você pôde vir", disse ela, seu tom pingando falsa sinceridade. "Dante estava tão preocupado que você não estivesse se sentindo bem."
"Estou bem", eu disse secamente.
Alguém sugeriu um jogo de Verdade ou Desafio para animar a festa. Uma garrafa foi girada e, previsivelmente, parou em Camila.
"Verdade!", ela declarou com um floreio dramático.
Uma de suas amigas bajuladoras perguntou: "Se você pudesse dar um conselho a Dante sobre a vida pessoal dele, qual seria?"
O olhar de Camila se fixou no meu, um brilho malicioso em seus olhos. "Eu diria a ele para ficar com alguém que possa realmente apoiar suas ambições. Alguém que entenda que legado não é apenas sobre felicidade pessoal... é sobre o que você constrói para o futuro." Ela fez uma pausa, deixando as palavras pairarem no ar. "Deve ser tão difícil, Elisa, não poder dar um filho a ele. Não consigo nem imaginar esse tipo de fracasso."
A multidão murmurou em simpatia, todos olhando para Camila como se ela fosse uma santa por sua suposta compaixão.
Por dois anos, eu deixei a presença dessa mulher envenenar meu casamento. Eu chorei, gritei, acusei. Dante sempre, sempre ficou do lado dela, me chamando de paranoica, ciumenta, desequilibrada. Ele me manipulou para acreditar que eu era o problema.
Mas a mulher que estava aqui agora não era a mesma que costumava desabar em lágrimas por causa de suas "sessões de estratégia" noturnas. Aquela mulher morreu em uma cama de hospital na noite passada.
"Não se preocupe comigo, Camila", eu disse, minha voz firme. "Se Dante e eu não dermos certo, estou perfeitamente bem com um divórcio."
A cabeça de Dante se virou bruscamente em minha direção, seus olhos ardendo de fúria. "Elisa", ele sibilou, sua voz um aviso baixo.
"O quê?", perguntei, fingindo inocência. "Você não pode pensar que é o único homem no mundo que me quereria."
Ele ficou momentaneamente atordoado em silêncio, um lampejo de pânico em seus olhos antes de mascará-lo com um sorriso tenso e forçado. "Querida, não vamos lavar nossa roupa suja em público", disse ele, tentando me afastar. "Conversamos em casa."
O jogo continuou, e a garrafa girou novamente. Desta vez, apontou diretamente para mim.
"Desafio!", Camila anunciou antes que eu pudesse falar. "Eu te desafio a beijar o primeiro homem solteiro que você vir."
A mandíbula de Dante se contraiu. "Ela não vai fazer isso."
"É só um jogo, Dante", Camila ronronou.
"Eu tomo uma dose de penalidade no lugar dela", disse ele firmemente, pegando um copo de uísque de uma bandeja que passava e empurrando-o em minha direção. "Aqui. Beba isso."
Olhei para o líquido âmbar, depois de volta para seu rosto furioso. Ele não queria outro homem tocando sua propriedade, mas estava perfeitamente bem em forçar álcool em uma mulher que, pelo que ele sabia, ainda poderia estar grávida de seu filho.
Eu me levantei. "Não."
"Não se atreva a me desafiar, Elisa", ele ferveu, seu aperto em meu braço se intensificando.
A ironia era sufocante. Ele podia passar cada momento acordado com outra mulher, mas eu não podia nem mesmo participar de um jogo de festa estúpido.
"A Elisa está apenas emotiva", disse Camila à multidão com um sorriso paternalista. "Vocês sabem como é."
"Beba", Dante ordenou, seu rosto a centímetros do meu. Ele levou o copo aos meus lábios, forçando-o contra meus dentes. "Você está me envergonhando."
Tentei virar a cabeça, mas ele era muito forte. O uísque transbordou, derramando pelo meu queixo e na frente do meu vestido. Um pouco escorreu para minha boca, o gosto forte e ardente me fazendo tossir e engasgar.
Meu primeiro pensamento foi no bebê. A vida minúscula e frágil que eu estava tentando desesperadamente proteger. Uma onda de medo puro e primitivo me atravessou.
Eu o empurrei com toda a minha força, tropeçando para trás. Meu salto prendeu na beirada de um tapete e perdi o equilíbrio.
Caí com força.
O mundo ficou branco de dor. Um grito, agudo e penetrante, foi arrancado dos meus pulmões enquanto uma agonia diferente de tudo que eu já senti explodia no meu abdômen.
Dante olhou para mim, sua preocupação inicial rapidamente substituída por irritação. "Pelo amor de Deus, Elisa, levante-se. Você está fazendo uma cena."
Então, alguém na multidão ofegou.
"Meu Deus", uma mulher sussurrou, a mão voando para a boca. "Ela está sangrando."
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