
Pai e professor
Capítulo 2
(Fernando)
Hoje era sexta-feira, a semana estava terminando e eu veria meu filho amanhã. Estava empolgado em vê-lo, mas o estresse da semana me deixaria louco se não me aliviasse da forma que gosto.
Trabalho hoje o dia inteiro na escola e só me resta madrugar para pegar uma onda, por isso nem espero o dia clarear para pular da cama. O dia estava meio esquisito desde o dia anterior, parece que o tempo mudou e não vai melhorar até segunda-feira, a vantagem disso para todo surfista são as ondas, então não pensei duas vezes antes de pegar minha prancha.
É bom morar no Recreio, já que não demoro muito para chegar a uma boa praia. Paro meu carro, pego minha prancha e me preparo para entrar no mar. Vejo as ondas altas quebrarem e fico satisfeito. Perfeito, bem do jeito que gosto.
— Fala aê, brow, bora cair na água. – Um dos caras que sempre vejo por aqui passa por mim correndo com sua prancha debaixo do braço.
— Bora! – Respondo.
Em seguida pego a minha e corro para o mar. Cada um desestressa do jeito que gosta: uns bebem, outros saem para dançar, o Vinícius pega mulher e eu vou pegar onda.
Entro no mar e passo minha mão livre pela superfície da água, sentindo-a fria e revigorante. Jogo a prancha na água e começo a remar rumo a primeira onda que vejo se formar. Sorrio conforme ela se torna cada vez maior. Já me sinto melhor só em estar aqui.
Depois de alguns minutos no mar, totalmente desestressado e revigorado, saio da água como um novo homem. Confiante que amanhã dará tudo certo, que verei meu filho e o levarei para passear no parquinho, no shopping, estou cheio de planos para meu dia com meu filhote. É muita saudade e eu pretendo matá-la amanhã aproveitando cada segundo do meu dia com Enzo.
Volto para casa para me arrumar rapidamente, e poucos minutos depois estou na estrada novamente rumo ao meu trabalho.
Chego na escola bem na hora. Vou até a sala dos professores guardar minhas coisas e esbarro com Jairo, o professor de física.
— Está com uma cara ótima, hoje. – Ele selecionava o livro que usaria na próxima aula, numa mesa próxima aos armários.
— Verei meu filho amanhã. – O sorriso ocupava todo o meu rosto só de lembrar que o grande dia havia chegado.
— Que bom, cara. Você tinha dito que não via o seu filho há um tempo, não é?
— Dois meses.
Pego somente o necessário para a aula e apoio nos braços, mas antes de eu ir à caminho da porta uma moça muito bonita entra na sala dos professores como um furacão.
— Bom dia. – Ela cumprimenta ao entrar.
— Bom dia. – Respondemos, mas minha voz sai como um sussurro.
Não sei o porquê, mas algo nela fez meus olhos se fixarem em cada movimento que executava ao pegar materiais no armário destinado às crianças pequenas. Seus cabelos eram escuros, ela era baixinha com o corpo curvilíneo... muito bonita, muito bonita mesmo.
Da mesma maneira que entrou, ela saiu. Meus olhos ainda estavam na porta por onde ela passou.
Vejo um guardanapo estendido na minha frente, e é aí que percebo que Jairo me olhava com um sorriso sacana.
— Pra secar a sua baba.
Empurrei sua mão.
— Para de bobagem. – Respondi meio enraivecido. Queria poder ir atrás dela, senti vontade de saber mais sobre aquela mulher, mas encontrar com as professoras do infantil era quase impossível. – Conhece ela? – Perguntei, fazendo o sorriso no rosto do meu colega se ampliar, mas não consegui frear a minha curiosidade.
— Tudo o que sei é que ela é a nova professora do infantil e começou essa semana. Não sei mais nada. – Levantou as mãos.
Suspirei, mas também não sei o que deu em mim.
— Era só curiosidade mesmo. Vou indo, daqui a pouco acabo me atrasando. – Ajeito os livros de matemática nos braços.
Começo a me mover para fora da sala e ele vem atrás de mim.
— Estou subindo também.
***
Depois de alguns alunos me questionarem se eu estava bem, percebi que ficava divagando me lembrando do rápido encontro com a tal professora do infantil. Desde que me separei de Samara, há dois anos, nenhuma mulher chamou a minha atenção. Hoje foi diferente, mas ela nem me notou. O “bom dia” não conta, foi um cumprimento educado e aposto que nem se lembra da cara dos homens ali dentro.
Mas a questão é, mesmo ela tendo chamado a minha atenção, se surgisse a oportunidade, eu teria coragem de arriscar novamente? Pois quando me apaixonei por Samara era tudo lindo, nos amávamos como dois loucos, sorríamos largamente de qualquer coisa, não havia nada que nos entristecesse ou nos desmotivasse. Éramos intensos, felizes e nos completávamos, mas tudo mudou, e não foi o nascimento do meu filho como muitos acreditam.
Ela se formou na faculdade, se especializou e abriu seu espaço de estética. A apoiei em tudo, ficava com nosso filho ainda bebê para ela atender seus primeiros clientes, mas então o pequeno espaço cresceu e se tornou uma clínica de estética e o último ano do nosso casamento foi um inferno. Ela passou a criticar nosso apartamento no recreio, a escola onde o filho estudava, que era a mesma onde trabalho desde que me formei, as regalias que eu não podia dar a ela por causa do meu salário baixo de professor, até que finalmente o casamento acabou.
Vivo em um inferno não muito diferente desde então, tendo que lutar para ver meu filho que ela faz questão de dificultar as visitas, e, para completar, acabei desenvolvendo uma insegurança em me meter em um novo relacionamento.
Como homem, vejo a necessidade de sair com algumas mulheres, mas me envolver é algo que temo desde a separação. Quando meus amigos falam que eu preciso recomeçar, eu me lembro do paraíso que se tornou um inferno e me pergunto qual a garantia que tenho que não verei a cena se repetir? E foi justamente sobre tudo isso que eu fiquei pensando quando estava sentado em minha sala de aula, a ponto de um dos alunos mais observadores, me questionarem se eu estava bem.
É claro que como profissional eu não posso levar problemas pessoais para a sala de aula, então disse que estava apenas com dor de cabeça, o que não era exatamente uma mentira, desde que considerasse que aquilo martelava em minha mente a manhã inteira.
Depois que terminou o primeiro turno, eu teria 1h e 30min de intervalo e não sabia bem se iria almoçar ou ficar pelos cantos da escola até a entrada do novo turno.
— E aí, cara, vamos almoçar? – Jairo aparece na minha sala já vazia.
— Ainda estava pensando sobre isso.
— Cara, você chegou muito animado e agora está assim... todo esquisito, parece desanimado, meio triste... sei lá.
Bufei, pois era exatamente assim que me sentia depois de tudo o que andei pensando na parte da manhã.
— Estou bem. – Falo sem convicção, mas era o que tinha para hoje e eu precisava me animar, de toda forma o encontro com meu filho será amanhã.
— Depois da escola podemos ir no barzinho de sempre, o que acha?
— Pode ser. Acho melhor almoçar, então. – Concluí.
— Boa! Então vamos logo que dá pra paquerar as garotas. – Piscou o olho para mim, sei que é com a intenção de me animar. Sorri meio sem jeito.
Pego meu material e o guardo na sala da minha próxima turma, é bem mais fácil assim do que ficar indo e vindo da sala dos professores a cada mudança de turma.
Ao sair da sala, sinto meu celular vibrar no bolso e quando o pego, vejo que é minha mãe.
— Vai indo. – Falo com Jairo. – Vou só atender minha mãe e já estou descendo.
— Ok! Te espero no estacionamento. Meu carro ou o seu?
— Tanto faz.
— O seu então, tenho que economizar a gasolina.
Reviro os olhos e atendo o telefone.
— Mãe.
— Oi, filho. Como está?
— Bem, mãe. – Escoro-me em uma parede próxima.
— Não mente para mim, Fernando.
— Não estou mentindo.
— Está. Sua voz está esquisita. E aquele seu amigo me ligou, disse que amanhã você verá meu neto. Acreditei que estaria mais alegre.
— O que o Vinícius queria? – Levanto uma sobrancelha já imaginando que teria algo de desagradável.
— Disse que te mandou mensagem e você não viu.
— Estou no trabalho, não é, mãe. Quer que eu seja demitido por ficar de conversa no celular?
— Eu sei, filho, por isso esperei a hora do seu almoço.
— Mas o que ele queria? – Disse desconfiado.
— Não sei. Ele só me falou que você veria o Enzo amanhã.
— Vou olhar as mensagens dele.
— Meu, filho, vai almoçar. Sei que daqui a pouco terá que voltar para a escola.
— Sim, mãe. Um beijo, fique com Deus.
— Fique com Ele também, filho. Beijo.
Assim que nos despedimos, abro as mensagens de Vinícius, vi que o grupo de amigos está cheio de mensagens, mas depois eu vejo isso.
“Samara não quer que você vá pegar o garoto na casa dela, precisa me dar um local de encontro.”
“Vê essa droga de celular, cara!”
“Fernando!”
“Fernando!”
“Ah, cara, preciso disso até o horário de almoço.”
“Esquece, amanhã você tenta a sorte.”
Como esse cara é chato. Será que ele não sabe que estou no trabalho? Mandei uma mensagem rápida como resposta.
“A pracinha. Ela sabe qual é, a pracinha que Enzo mais gosta.”
Guardo o celular no bolso e antes que eu alcance a rampa para descer, sinto o aparelho vibrar, sei que é ele, mas depois eu vejo. Agora vou almoçar.
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