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Capa do romance Pai e professor

Pai e professor

Fernando leciona em uma escola de prestígio no Rio de Janeiro. Por trás da aparência inteligente e gentil, ele esconde a angústia de estar há dois anos sem ver seu filho, Enzo, devido a intensas batalhas judiciais. Quando uma nova professora do ensino infantil chega à instituição, o coração do docente volta a pulsar com uma intensidade esquecida. Entre traumas e esperança, ele redescobre o amor enquanto luta para exercer sua paternidade negada.
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Capítulo 3

(Beatriz)

— Estou bem, mãe. – Falava com dona Marcela ao telefone, enquanto retirava meus pertences da caixa.

— Por que sumiu de repente, Bia? Veio nos visitar semana passada e quando vejo já está em outro estado. O que aconteceu? – Coloquei a ligação no viva voz, assim poderia falar com minha mãe e organizar a bagunça.

— Nada, mãe, só precisava tomar uma decisão e tomei.

— Que decisão?

Suspirei. Não queria preocupar minha mãe, não queria que ela se sentisse mal por tudo que aconteceu comigo. Não aturei tudo calada por quase dois anos para contar a ela o que eu vivia agora. Até porque acabou.

Juliana, minha amiga, havia se mudado para o Rio de Janeiro há alguns meses, e quando liguei para ela decidida a fazer o mesmo, Juju conseguiu um apartamento para mim e uma entrevista de emprego.

— Mudar de vida, ter meu cantinho, meu trabalho...

— Mas você poderia ter tudo isso aqui. Já até tinha sua casa!

— Não, mãe. A casa era do Isaías, e ele não queria que eu trabalhasse. A senhora sabe disso. – Não contaria a ela a gota d’água que me fez jogar tudo para o ar: a bofetada que levei no último fim de semana. O motivo? Fui visitar meus pais e esqueci de avisar. Ridículo, não é?

— Mas onde vai morar? do que vai viver?

Ela estava aflita, e até tinha suas razões. Até poucos dias estava do seu lado e hoje estou desempacotando o pouco do que eu tinha bem longe dela.

— A Juju arrumou um apartamento pra mim e uma entrevista de emprego. Tenho um dinheiro guardado também, o suficiente pra me virar por alguns meses, mas se tudo der certo, amanhã já terei meu novo emprego. Não me mudei no escuro, mãe. Fica tranquila.

O suspiro que ouvi pareceu de alívio.

— Está bem mesmo? O Isaías foi com você?

— Deus me livre! De que adiantaria me mudar para outro estado e viver com o mesmo homem que me proibia de tudo? – Fui até a geladeira e constatei que estava vazia, só tinha água.

Arfei.

— Mãe! – Continuei. – Preciso desligar, tem nada na geladeira, vou precisar ir ao mercado.

— Mais tarde me liga novamente, tá. Quero saber como está. Estou preocupada. – Sorri.

— Eu ligo, mas estou bem. Mande um beijo pro pai, e não o deixe preocupo por nada.

— Minha filha a quilômetros de distância não é “nada”, Bia.

— Muitos quilômetros, não é, mãe. Não pira, tá. Preciso ir, antes que fique tarde, não conheço nada aqui.

— Tá vendo, filha...

— Beijinho, mãe. Tchaaaauuuu! – Desliguei. Se não fosse assim a conversa não acabaria nunca e eu realmente precisava ir no mercado.

Abri o aplicativo de mensagens e mando uma para minha amiga.

“Ju, onde tem um mercado aqui perto?”

Deixo o celular sobre a bancada da cozinha e vou até as roupas que tinha acabado de guardar e me visto para ir na rua. Em casa estava com os cabelos presos para cima e uma camisa longa com um shortinho, não vou sair assim.

Quando volto, vestida de forma mais decente, usando uma calça jeans e uma camiseta, pego meu celular e vejo que minha amiga já respondeu, no entanto ela não disse onde era, disse que já estava vindo aqui.

Não quero dar trabalho a ninguém, mas Juliana era assim mesmo: sempre prestativa.

Passo um pente por meus cabelos castanhos e ondulados, tentando domar os fios. Passo um batom rosa claro e pego minha carteira e no instante seguinte a campainha toca. Abro a porta e do outro lado está minha amiga.

— O que achou do apê? – Ela pergunta entrando, seus olhos vagando pelas paredes. – Foi o melhor que pude arrumar com a urgência que pediu, e ainda com móveis.

— É perfeito, Juju. Preciso ir ao mercado, o armário e geladeira estão vazios, preciso abastecer, e eu não sei onde tem um.

— Vou te levar ao mercado e você vai me contando todo o babado no caminho. Não entendi por que você decidiu vir pra cá com tanta urgência e sozinha.

Todo o caminho desde a saída do apartamento até chegar ao mercado, contei tudo a ela. A forma como Isaías me tratava e como eu tentava contornar e até agradar a ele na esperança de que ele me desse alguma folga, mas com o tempo sua possessividade só piorava.

Quando falei da agressão que sofri na semana passada, o que me fez tomar a decisão de sumir, Juliana ferveu de ódio.

— Aquele traste. – Resmungou ela quando ainda estávamos no ônibus. – Sabia que ele era um chato e ciumento, mas não sabia que chegaria a te agredir.

— Nem eu, amiga. – Suspirei. – Gostava dele, sabe, mas ultimamente eu estava mais por comodismo. Ele não me permitia fazer nada, até minhas roupas estava regulando e você sabe que não gosto de roupas curtas, coladas... essas coisas.

— Sei. – Ela sorriu olhando para a janela. – Você sempre foi meio certinha, apesar de gostar de uma cervejinha.

— Não vejo nenhum problema nisso. – Rimos antes de voltar ao assunto, mas desta vez falando do que eu faria agora.

Eu queria agora uma vida nova. Não era a primeira vez que eu tentava me afastar dele, mas o maníaco perseguidor do meu ex-namorado insistiu até que eu voltasse para casa da primeira vez.

Nessa época ele ainda não havia me agredido e voltei para a casa de meus pais depois de uma discussão sobre trabalho, ele não queria que eu trabalhasse, mas acabou me convencendo e vivemos juntos por mais alguns meses até que se tornou insuportável. Nem do meu pai eu apanhei na vida, não iria aceitar um tapa que viesse de outro homem. E foi isso que me fez ligar na mesma noite para a Juju e pedir sua ajuda.

Comprei tudo o que achei necessário e chamamos um motorista de aplicativo, já que voltar para casa de ônibus, cheia de bolsas de compras não era uma boa ideia. Quando atravessamos a porta do apartamento e jogamos as bolsas na sala, minha miga se jogou no sofá.

— Animada para amanhã?

— Claro. – Sentei no outro sofá a sua frente. – Só estou um pouco tensa.

— Por quê? – Ela se ajeitou no sofá, prendendo os cabelos cacheados no alto da cabeça em um enorme coque.

— Eu pesquisei o endereço da escola e vi que fica em um bairro chique. Nunca trabalhei em uma escola assim, sempre trabalhei em escolas mais simples.

— O diretor da escola é gente boa. A minha amiga que levou seu currículo trabalha lá como serviços gerais há alguns anos e gosta de trabalhar lá. Paga direitinho e dá benefícios.

Suspirei.

— Eu sei e isso é ótimo, mas estou tensa.

Ela se esticou pegando minha mão.

— Vai dar tudo certo, ele vai gostar de você.

Assenti agradecendo a presença dela ali, e tudo o que fez por mim. Não a desapontaria, faria meu melhor no dia seguinte.

***

Já tinha três dias que eu estava no meu novo trabalho. Nunca havia trabalhado em uma escola tão grande e em um bairro rico como esse, mas no fundo era tudo igual, crianças são crianças em qualquer lugar. E como professora de ensino infantil, pude constatar isso rapidamente.

Meus pequenos se distraíam com massinha e brincadeiras, assim como as crianças das escolas que trabalhei, e eu tinha uma ajudante, a Larissa. Pelo que fiquei sabendo, Larissa assumiu a turma sozinha por duas semanas depois que a professora precisou ser internada às pressas. Sendo assim, eles estavam precisando de uma professora do ensino infantil com a mesma urgência que eu precisava de um emprego e isso foi providência divina.

A escola era na Barra da Tijuca, bem distante de onde eu morava, em Olaria, um bairro bem mais simples, levava mais de uma hora de ônibus para chegar até lá, mas com o salário, em breve poderia comprar um carro, o que facilitaria as coisas para mim.

A maioria dos professores eram meio agitados e apressados, mal paravam para falar alguma coisa, mas minha vizinha da sala ao lado, a Anna, era gente boa. Me emprestava sua ajudante quando eu precisava e eu emprestava a minha, olhávamos a turma uma da outra quando precisávamos nos ausentar por algum motivo, passávamos o intervalo e a hora de almoço conversando, e estava sendo muito bom ter uma amiga no meu trabalho.

Mas durante toda a semana uma coisa me incomodava: as mensagens do Isaías. Eu sabia que ele não ia desistir fácil. Ele ligava e eu nunca atendia, cogitei mudar meu número de telefone, mas acho que uma hora ele vai cansar. Agora ele já não ligava, mas me enchia de mensagens. Enchia mesmo, pois eu bloqueei o contato e ele não consegue mais me mandar mensagens.

Antes de bloqueá-lo, quando estava me preparando para almoçar com a Anna, eu vi suas mensagens. Incrível como elas iam mudando de tom. As primeiras era cheias de carinho, me pedindo perdão e dizendo que não vivia sem mim. Depois começou a dizer que eu não podia fazer aquilo, como se fosse minha obrigação e as últimas estavam mais ríspidas, me dizendo que eu era dele e que se eu fugi para ficar com outro homem que iria descobrir.

Não contei para a Anna o que me afligia, mas ela percebeu meu semblante desanimado e tentou mudar de assunto, me animando, mas eu também não ficaria presa a um homem como meu ex-namorado, propus a Anna que um dia desses deveríamos sair juntas, e ela topou dizendo que precisávamos nos distrair um pouco, concordei, só não sabia exatamente quando colocaríamos nosso plano em prática.

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