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Capa do romance Pai e professor

Pai e professor

Fernando leciona em uma escola de prestígio no Rio de Janeiro. Por trás da aparência inteligente e gentil, ele esconde a angústia de estar há dois anos sem ver seu filho, Enzo, devido a intensas batalhas judiciais. Quando uma nova professora do ensino infantil chega à instituição, o coração do docente volta a pulsar com uma intensidade esquecida. Entre traumas e esperança, ele redescobre o amor enquanto luta para exercer sua paternidade negada.
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Capítulo 1

(Fernando)

— Tudo Pronto, Fernando. A audiência está marcada para semana que vem, mas seria interessante se vocês entrassem em acordo.

Vinícius, meu amigo e advogado fala ao se sentar em sua cadeira novamente.

— Não sei por que ela faz isso, cara. – Respondo levantando os óculos e pressionando meus olhos em seguida com o indicador e o polegar.

— Isso é típico, amigo. Ela quer dificultar as coisas pra você, é isso. E é por isso que eu não quero casar.

Falou dando-me seu sorriso de cafajeste. Balanço a cabeça em negação. Entre meus amigos sempre fui o mais certinho, todos sempre falavam isso e até implicavam comigo, Vinícius era o contrário: cafajeste até a última gota de sangue.

— Você ainda não encontrou a pessoa certa, Vinícius, aquela que vai mexer com você. Por isso fala dessa forma.

— Samara mexeu bastante com você, não é. – Falou recostando-se e cruzando os braços. – Mexeu com sua cabeça e com seu bolso.

— Eu era muito jovem. Me casei aos 26 anos, fui pai aos 27. Era para ter esperado mais, mas ela parecia tão perfeita, tão linda e inteligente... – Divaguei lembrando-me da Samara por quem me apaixonei, totalmente diferente da mulher que ela é hoje.

— Você ainda gosta dela, não é?

— Infelizmente. – Puxo o ar profundamente. – Mas não era a mesma já havia muito tempo.

— O casamente de vocês durou muito pouco tempo. Foi o quê? Três anos?

— Quatro. E parece que foi ontem que nos separamos, mas já se foram dois anos.

— E ela ainda não te deixa em paz.

— Não. Ela quer dinheiro, coisa que não tenho. – Apoio as mãos nos braços da cadeira e me levanto, pegando a bolsa de livros ao meu lado. – Vou indo. Preciso te deixar trabalhar e eu tenho que trabalhar também.

— Vou ligar para ela e propor uma reunião para amanhã, pode ser?

— Pode. Queria ver meu filho essa semana ainda. Já faz dois meses que não o vejo.

— Vou fazer o possível para que você veja seu filho. Topa sair para beber hoje à noite?

Eu ri e balancei a cabeça.

— Quando quero esfriar a cabeça vou para o mar, não tenho grana pra doses caras de bebida.

— Vamos cara, eu pago. – Olhei de lado para meu amigo. – Vai ter umas gatinhas por lá, quem sabe você não gosta de uma delas. – Pisca para mim. Ele não presta mesmo. Acha que estou com cabeça para mulher.

— Estou precisado beber mesmo, eu acho. Te encontro lá mais tarde.

— É isso, amigo. – Ele se levantou me acompanhando até a porta. Nos despedimos e fui em direção ao elevador.

Aproveitei meu horário de almoço para ver como anda meu processo de visitação. Se a pensão alimentícia cair faltando dez centavos, ela liga fazendo escândalo, mas faz de tudo para atrapalhar a visitação de meu filho. Tenho direito e vou lutar por ele.

Mas como resultado de sair na hora do almoço, vou ter que pegar qualquer coisa no meio do caminho para enganar a fome.

Peguei meu carro na garagem do prédio e segui para a escola onde trabalho. Na estrada passei em um drive-thru e comprei batatas e refrigerante, sei que não é um almoço saudável, mas por hoje teria que bastar.

Enquanto dirigia, fui comendo meu lanche super saudável à caminho da escola, por sorte, não peguei retenção no trânsito e cheguei bem na hora.

Sentei-me em minha cadeira e me preparei para mais um dia de aula. Beber hoje à noite com os caras seria uma boa ideia, pois eu não teria como pegar onda hoje, então o jeito pra relaxar era com uma boa bebida.

***

Parei o carro em frente ao bar, ainda em dúvida se entraria ou não. Beber me pareceu uma boa ideia, até que me lembrei que não sou bom com bebidas. Um carro parou atrás de mim buzinado.

— Droga! – Liguei o carro e entrei no estacionamento do bar. Parece que não tinha mais jeito.

Entrei no local e os caras já estavam lá. Vinícius me viu assim que cheguei e acenou para que eu fosse até onde estavam, como se eu não os estivesse vendo.

Andei até eles e me acomodei no banquinho alto. O som do bar, o cheiro de álcool e todo aquele falatório não me deixavam muito à vontade. Tentei participar da conversa na medida do possível, sempre me perdia em pensamentos.

Vinícius havia me mandado uma mensagem dizendo que Samara tinha aceitado a reunião e isso me deixava abalado de maneiras diferentes: era a chance de acertar uma saída com meu filho antes de audiência, mas também eu a veria e eu não sei como seria para mim.

Já fazia bastante tempo que não a via e eu já tinha me habituado a não vê-la, mas como seria quando a visse novamente? Reacenderia meus sentimentos por ela? Aquela mulher voltaria a assombrar meus sonhos?

— Tudo bem aí, cara. – Gael, que estava na minha frente, perguntou.

— Ele está assim por causa da mulher. – Falou Vinícius.

— Ex-mulher. – Corrigi.

— Ih, chega tá nervosinho! – Comentou Jason.

Senti tapinhas em meu ombro, olho para o lado e vejo que é John.

— Fica calmo, amigo.

Virei meu drink garganta a baixo e decidi não beber mais que aquele copo. Eu iria para casa dirigindo, e era perigoso encher a cara e pegar no volante. Dali pra frente seria só água com gás. E a conversa continuou rolando entre os caras, agora o assunto da vez era eu. Pressionei as têmporas me arrependendo de ter ido até ali. Era melhor madrugar pra pegar uma onda logo cedo.

***

No dia seguinte, como não trabalhava na parte da manhã, estava disponível para a reunião com Samara. Eu tinha esperanças de ver meu filho ali mesmo, mas ela não o levou, era pra eu ter imaginado.

Sentei-me com Vinícius ao meu lado e Samara com sua advogada ao lado dela. A mulher de cabelos escuros curtos me encarava com olhar severo, Samara deve ter falado mil e uma atrocidades sobre mim pra que ela destilasse tanto ódio como fazia agora.

Evitei olhar para a mulher à minha frente, mas sentia seus olhos verdes sobre mim. Eu mantinha os meus em meus dedos, que travavam uma verdadeira batalha devido ao nervosismo.

Vinícius expunha de forma técnica todo o acontecimento e a advogada rebatia tudo com informações que às vezes eu queria levantar meu olhar, mas não fazia. Em silêncio ouvi todas as atrocidades ditas e Vinícius as rebatendo com provas.

Após uma conversa longa entre os advogados, eu e Samara teríamos que falar e não tinha mais como fugir de seu olhar.

— A semana é muito agitada para mim, só Deus sabe quantos clientes tive que reagendar para estar aqui hoje. – Ela falava naturalmente. – Enzo estuda longe... não tem como fazer o que ele quer.

— Ele só quer mais proximidade com o filho. – Vinícius rebateu.

— Mas não dá. Não tenho como ficar reagendando clientes a cada minuto que ele decidir ver o filho. – Ela suspirou. Parecia indignada. – Eu trabalho muito para dar conforto ao meu filho, sabia.

— Você não faz isso sozinha. Dou a pensão dele mensalmente e daria mais se ele passasse mais tempo comigo.

Ela riu, quase gargalhou.

— O quê? Essa miséria que você paga? Isso não compra nem o lanche dele da escola.

A fúria subiu fazendo meu sangue ferver. Eu dava um bom valor, baseado naquilo que eu ganhava como professor e não era uma miséria de forma alguma.

Respirei fundo para não fazer uma besteira ali mesmo. Era incrível como era conflitante estar diante dela: ao mesmo tempo que eu me lembrava do nosso amor, de como ela é linda, ela me faz sentir uma raiva fora do normal.

— Ele paga o valor estipulado pelo juiz. – Retorquiu meu advogado. – E como ele disse, daria mais, se não fosse sua insistência em afastar o menino dele.

— Eu não o afasto do pai. Não tenho culpa se estou dando a meu filho a melhor educação possível. No sábado ele tem curso de inglês e de natação. Aos domingos ele já se acostumou a passar o dia na casa da avó, não posso interferir na rotina dele, a psicóloga disse que ele tinha que ter uma rotina.

Vinícius suspirou, acho que nem ele imaginou que seria tão difícil conversar com ela.

— Vocês poderiam combinar algum horário no final de semana, por favor. Acho que se ele faltar o curso um dia não haverá problema. Ele tem apenas 5 anos, acredito que a presença do pai neste momento é muito mais importante.

Meu advogado tentou solucionar.

— Mas... – Ela começou, mas foi interrompida por sua advogada que falou algo em seu ouvido. Derrotada, ela me olhou, enrolou uma mecha de seu cabelo liso e loiro nos dedos e falou, cedendo. – Tudo bem. Podemos combinar um horário nesse final de semana.

Um alívio tomou meu coração, eu veria meu filho em poucos dias.

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