
Os Pecados do Meu Marido, A Vingança do Meu Coração
Capítulo 2
Ponto de Vista: Helena Salles
Respirei fundo e de forma constante ao sair do escritório do advogado, o ar fresco da manhã fazendo pouco para esfriar o fogo em minhas veias. Os papéis estavam assinados. O processo estava em andamento. Não havia mais volta.
Caminhei até o "Doce Encontro", o pequeno café onde André e eu tivemos nosso primeiro encontro. Era o nosso lugar. A dona, uma doce senhora chamada Maria, sorriu radiante quando me viu.
— Helena, minha querida! Você está brilhando! — ela exclamou, correndo para me abraçar. — André esteve aqui ontem mesmo, comprando todas as minhas tortinhas de limão. Ele disse que você estava com desejo. Aquele homem te mima demais.
Forcei um sorriso, mas meus olhos ardiam. Me mimar. Sim, ele havia construído uma bela gaiola para mim e a forrado com seda e ouro. Uma lágrima escapou e traçou um caminho frio pela minha bochecha.
— Oh, querida, o que há de errado? — Maria perguntou, a testa franzida de preocupação.
Antes que eu pudesse responder, uma sombra caiu sobre nossa mesa.
— Acredito que isto seja seu, Sra. Bastos.
Olhei para os olhos grandes e falsamente inocentes de Karina Couto. Ela segurava uma cadeira, aquela com a placa de latão que dizia: "Reservado para Helena". Minha cadeira. Ela a colocou ao lado dela com um sorriso açucarado.
— Eu só queria te agradecer novamente por tudo — ela disse, sua voz escorrendo gratidão falsa. — André tem sido tão generoso. Ele até pagou meu novo apartamento. Disse que era o mínimo que podia fazer depois que eu salvei seu maior projeto.
Outra mentira. Uma pequena, mas que caiu como uma pedra no meu estômago. André me disse que tinha dado a ela um bônus em dinheiro. Ele nunca mencionou um apartamento.
Karina deslizou um envelope pardo grosso pela mesa.
— Pensei que você deveria ter isto.
Minhas mãos pareciam pesadas enquanto eu abria o fecho. Dentro havia dezenas de fotografias brilhantes. Fotos dela e de André. Na nossa cama. No escritório dele. No banco de trás do carro dele. Eram explícitas, íntimas e projetadas para infligir a dor máxima. Cada imagem era um corte preciso, rompendo mais um fio do meu passado.
Olhei para cada uma delas, minha expressão indecifrável. Quando terminei, empilhei-as ordenadamente e as deslizei de volta para o envelope. Eu não senti nada. A parte de mim que podia sentir esse tipo de dor havia morrido na noite anterior, assistindo a um monitor granulado em uma sala de segurança escura.
— Ele é obcecado por mim — disse Karina, inclinando-se para a frente com um sussurro conspiratório. — Ele diz que nunca se sentiu assim por ninguém. Ele diz que você é... fria. Como uma bela estátua. Fácil de admirar, mas impossível de amar. — Ela sorriu com desdém. — Mas não se preocupe. Tenho certeza de que você será uma ótima ex-esposa. Sra. Bastos soa bem, mas acho que vou me acostumar a ser a Sra. Salles.
— É tudo seu — eu disse, minha voz calma. — O nome, o homem, a vida. Pode ficar com tudo.
O sorriso dela vacilou, substituído por um lampejo de fúria. Minha compostura estava arruinando sua vitória. Ela agarrou seu café gelado, os nós dos dedos brancos, claramente com a intenção de jogá-lo em mim.
Mas então seus olhos se voltaram para a porta, e sua expressão mudou em um instante. A raiva desapareceu, substituída por um olhar de puro terror teatral. Com um grito gutural, ela virou a xícara inteira de café na frente de sua própria blusa branca.
— Helena, como você pôde? — ela gritou, lágrimas brotando em seus olhos.
A porta do café se abriu com um estrondo. Era André. Ele viu a cena — eu, calma e seca; Karina, soluçando e encharcada de líquido marrom — e seu rosto endureceu.
Mas ele não correu para ela. Ele correu para mim.
— Helena, você está bem? — ele perguntou, suas mãos pairando sobre meus ombros, seus olhos me examinando em busca de qualquer sinal de ferimento. — Ela te machucou? O que aconteceu?
— Ela... ela jogou o café dela em mim! — Karina lamentou do chão, agarrando o estômago. — Ela disse que eu estava tentando roubar você dela!
André lançou-lhe um olhar de puro gelo.
— Saia, Karina — ele ordenou, sua voz perigosamente baixa. — Nunca mais chegue perto da minha esposa.
Ele me ajudou a levantar, seu braço firmemente em volta da minha cintura, e me guiou para fora do café, deixando Karina chorando no chão. Ele me levou para casa, a testa franzida em uma performance perfeita de preocupação.
— Não acredito que ela faria isso — ele murmurou, me conduzindo para nossa sala de estar branca e impecável. — Eu vou resolver isso. Vou mandá-la embora amanhã. Ninguém ameaça minha família.
— Estou cansada, André — eu disse, minha voz sem expressão. — Quero ir para o meu ateliê. — Era um cômodo que ele raramente entrava, meu santuário.
— Claro, meu bem. Vá descansar.
Ele me seguiu até a porta, prometendo consertar as coisas, se vingar por mim. Ele até se ofereceu para me fazer uma massagem nos pés mais tarde. O marido amoroso e dedicado, desempenhando seu papel com perfeição.
Senti uma onda de exaustão me invadir, um cansaço que ia até os ossos. Eu só queria dormir. Escapar do pesadelo acordado em que minha vida havia se tornado.
Ele me trouxe um copo de água, seu toque gentil no meu braço.
— Aqui, beba isso. Você parece desidratada.
Bebi sem pensar. A água tinha um leve gosto amargo, mas eu estava cansada demais para me importar. Deitei-me na chaise longue do meu ateliê, e um sono pesado e antinatural me dominou.
Acordei no meio da noite com uma dor lancinante no abdômen. Era uma cãibra violenta e torturante que me roubava o fôlego. Gritei por André, mas não houve resposta.
Tropecei até a porta do ateliê, minha mão agarrando minha barriga. Estava trancada por fora. O pânico arranhou minha garganta. Eu estava presa.
Gritei o nome dele de novo e de novo, batendo na pesada porta de carvalho até meus punhos ficarem em carne viva. A dor se intensificou, uma agonia implacável e ardente que trazia pontos pretos à minha visão. Minhas pernas cederam, e eu desabei no chão, o mundo se dissolvendo em um vórtice de dor.
Meu último pensamento consciente foi uma oração pelo meu bebê.
Quando acordei, o cheiro estéril de antisséptico encheu minhas narinas. Eu estava em um quarto branco e estéril, um soro intravenoso no meu braço. Ouvi vozes do corredor, baixas e urgentes.
Era André. E Karina.
— Você está feliz agora? — a voz de André estava tensa de irritação. — Eu coloquei um sedativo na água dela, como você queria. Ela ficou apagada a noite toda. Isso prova que eu te amo?
— Você tinha que fazer isso — a voz de Karina era um ronronar triunfante. — Ela precisava aprender uma lição. Ela não pode simplesmente sair impune depois de me humilhar.
O mundo ficou em silêncio. O ar em meus pulmões se transformou em gelo. Um sedativo. Ele havia me dopado. Sua esposa grávida. Tudo para apaziguar sua amante. Tudo para me punir por um crime que eu nem cometi.
Um grito cru e primitivo se formou em meu peito, mas eu o sufoquei. Em vez disso, cravei as unhas na palma da minha mão, fazendo crescentes profundos na carne macia. A dor aguda me ancorou, um ponto focal em um universo de dor.
A porta se abriu com um rangido, e André entrou, seu rosto uma máscara de devoção preocupada. Ele viu meus olhos abertos e correu para o meu lado.
— Helena! Oh, meu Deus, meu bem, você acordou. Você me deu um susto tão grande.
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