
Os Pecados do Meu Marido, A Vingança do Meu Coração
Capítulo 3
Ponto de Vista: André Bastos
O pânico me dominou no momento em que vi seus olhos abertos. Estavam fixos em mim, mas vazios, desprovidos do calor e do amor que sempre foram minha âncora.
— Helena — sussurrei, minha voz falhando. — Meu bem, você acordou. Você me matou de susto.
Estendi a mão, meu polegar acariciando suavemente sua bochecha, enxugando uma lágrima que eu não tinha visto cair. Sua pele estava fria.
Uma onda de culpa e terror me invadiu. O que eu tinha feito? Como pude ser tão estúpido, tão imprudente? Era apenas um sedativo leve, algo para ajudá-la a dormir, para acalmá-la depois da cena no café. Karina tinha sido tão insistente, tão perturbada. Ela chorou, ameaçou nos expor se eu não provasse minha lealdade. Em um momento de fraqueza, de querer silenciá-la, eu concordei.
— Sinto muito, Helena — engasguei, caindo de joelhos ao lado da cama dela. Enterrei o rosto nos lençóis brancos e impecáveis, meu corpo tremendo com soluços fabricados. — Tive uma emergência de última hora no trabalho. Tive que ir. Tranquei a porta do ateliê sem pensar, é apenas um hábito de quando temos visitas, para proteger seu trabalho. Quando cheguei em casa, encontrei você... Sinto muito, muito mesmo.
A mentira tinha gosto de cinzas na minha boca, mas era necessária. Eu não podia perdê-la. Não agora. Nunca. Ela era a esposa perfeita, a mãe perfeita para meu filho. Ela era a base da vida perfeita que eu havia construído.
Olhei para ela, meus olhos suplicantes. Seu olhar era perturbadoramente firme. O silêncio se estendeu, denso com acusações não ditas. Ela tinha que acreditar em mim. Ela me amava. Ela sempre me perdoava.
Nos dias seguintes, não saí do seu lado. Dei-lhe caldo na boca, li sua poesia favorita e recontei histórias de nossos momentos mais felizes. Eu era o marido perfeito e penitente, e lentamente, vi o gelo em seus olhos começar a derreter. Ou assim eu pensava.
Então veio a ligação do meu escritório em Londres. Uma crise que exigia minha presença imediata.
— Tenho que ir, meu bem — eu disse, beijando sua testa. — Só por algumas horas. Volto antes que você perceba.
Ela simplesmente assentiu, os olhos fechados.
Saí do hospital e fui direto encontrar Karina. Ela estava me esperando em uma clínica particular, o rosto pálido.
— Estou grávida, André — ela sussurrou, os olhos arregalados.
O mundo parou. Outro filho. Um menino, talvez. Meu filho. Uma onda de orgulho triunfante me atravessou. Eu, André Bastos, era poderoso o suficiente, viril o suficiente, para criar duas novas vidas, para garantir meu legado duas vezes.
Caí de joelhos, minha mão instintivamente indo para sua barriga lisa.
— Um bebê — suspirei, minha voz cheia de uma admiração genuína que surpreendeu até a mim mesmo. — Nosso bebê. — Eu teria tudo. A esposa perfeita e a amante excitante. O herdeiro legítimo e o filho secreto. Era perfeito.
Estava tão perdido em minha fantasia triunfante que não vi a sombra no corredor. Não vi Helena parada ali, seu rosto uma máscara pálida e sem emoção, observando toda a minha performance.
Ponto de Vista: Helena Salles
Eu o observei ajoelhar-se diante dela, sua expressão de pura e genuína alegria. Era o mesmo olhar que ele teve quando eu lhe disse que estava grávida. A mesma admiração terna, o mesmo orgulho possessivo. Não era único. Não era especial. Não era nosso. Era um roteiro que ele interpretava, e ele acabara de encontrar uma nova protagonista.
Meu coração, que eu pensei já ter sido estilhaçado em pedaços irreparáveis, de alguma forma encontrou uma maneira de se quebrar ainda mais.
Meu celular vibrou. Uma mensagem de Karina.
Era a foto de um prédio recém-construído, uma estrutura elegante e moderna de vidro e aço. Meu projeto. Uma galeria de arte particular na qual eu vinha trabalhando há meses, uma surpresa para André.
O texto abaixo dizia: "Ele construiu para mim. Um lugar para exibir minha arte. E em breve, um lugar para nosso filho brincar. Ele chama de 'Centro Karina'."
A dormência se espalhou por mim. Chamei um táxi, minha voz monótona enquanto dava o endereço.
Quando cheguei, a festa estava a todo vapor. Os amigos de André, nossos amigos, estavam todos lá. Estavam reunidos em torno de Karina, rindo, parabenizando-a, tocando sua barriga. Todos eles sabiam. Todos em nossa vida, todos em quem eu confiava, faziam parte da mentira. Eu era a única tola.
— Ela é arretada — disse um dos sócios de André, dando um tapa em suas costas. — Deve ser um menino. Você terá dois filhos, André! Um para o dia, um para a noite!
A multidão explodiu em gargalhadas.
André sorriu, envolvendo um braço protetor nos ombros de Karina.
— Veremos — ele disse, sua voz presunçosa. — Tenho que manter minha esposa feliz durante o dia, mas minhas noites... — Ele piscou para Karina. — Minhas noites são para minha rainha.
Eles falaram sobre eles. Sobre suas noites. As coisas que ele fazia com ela. Os sons que ela fazia. Detalhes íntimos de seu caso, servidos como conversa de festa para nossos amigos mais próximos.
Minha mão foi para o grande e ornamentado lustre pendurado acima da multidão. Era uma peça personalizada que eu havia encomendado da Itália. Eu conhecia suas falhas. Eu conhecia a fraqueza estrutural precisa na corrente que o sustentava.
Com uma força que eu não sabia que possuía, encontrei o guincho de manutenção escondido atrás de uma cortina de veludo. Dei um puxão forte e decisivo.
Houve um gemido de metal sob tensão, depois um estalo doentio. O enorme lustre de cristal balançou e depois despencou.
Estava vindo direto para mim.
Naquela fração de segundo, vi a cabeça de André se virar. Nossos olhos se encontraram do outro lado da sala lotada. O pânico brilhou em seu rosto. Ele começou a vir em minha direção, um grito gutural rasgando seus lábios.
— Helena!
Mas então, Karina gritou. Um som agudo e penetrante de terror.
O corpo de André vacilou. Ele parou. Ele se virou.
Ele a escolheu.
O mundo explodiu em uma chuva de cristal e luz. A dor, branca e absoluta, me consumiu. A última coisa que vi antes da escuridão me levar foi André, protegendo Karina com seu corpo, de costas para mim enquanto meu mundo desabava.
Eu estava sendo levantada, as vozes ao meu redor um rugido abafado. Eu estava em uma maca. André segurava Karina, que havia desmaiado, balançando-a gentilmente.
— Ela está bem? — ele perguntava aos paramédicos, sua voz frenética. — Verifiquem ela primeiro! Ela está grávida!
Eles começaram a me levar para passar por ele.
— Espere — ele ordenou, parando na frente da maca. Seu rosto era uma máscara furiosa.
— Sr. Bastos, sua esposa está gravemente ferida — disse um paramédico, tentando passar. — Precisamos ir.
— Não — a voz de André era de aço. Ele se abaixou e me puxou da maca, meu corpo batendo no chão de mármore frio com um impacto brusco. Minha cabeça bateu no chão, e a sala girou violentamente.
— Ela pode esperar — ele rosnou, pegando a inconsciente Karina em seus braços. — Cuidem da Karina primeiro. Meu filho está ali.
Ele passou pela minha maca, pelo meu corpo quebrado deitado em uma poça do meu próprio sangue, e a carregou para a noite.
Eu fiquei ali, o gosto de sangue na boca, as risadas de nossos amigos ainda ecoando em meus ouvidos. O homem que eu amei, o homem com quem me casei, o pai do meu filho, acabara de me deixar para morrer no chão de um prédio que eu projetei, em favor da mulher que destruiu minha vida.
Naquele momento, eu soube. O André que eu amava realmente se fora. E em seu lugar estava um monstro.
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