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Capa do romance Os Imortais

Os Imortais

Liliana Bari vive sob a sombra da imortalidade na Londres atual. Dividida entre o antigo amor pelo lendário Drago Farkas e seu dever como agente do enigmático Rei Logan Stuart, ela testemunha a Sociedade Vampírica ruir em meio a traições. Enquanto o monarca tenta pacificar magos e humanos, Liliana encara profecias esquecidas e lealdades perigosas. Nesta trama de poder e desejo, ela descobre que o destino é implacável e que certos amores eternos são verdadeiras maldições.
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Capítulo 2

Norte da Itália, 1825.

Vinte e cinco anos haviam se passado desde aquele inverno em que a profecia se cumprira. Liliana Bari caminhava pelo acampamento como sempre: pequena, mas de presença magnética; pele clara como porcelana, cabelos longos em tom de chocolate escuro que caíam em ondas sobre os ombros, e olhos verdes com toques de mel que brilhavam com vivacidade e desafio. Ao mesmo tempo sonhadora e rebelde, era conhecida pelo sorriso travesso, pelas respostas afiadas e pela audácia que irritava e encantava o clã.

Naquele dia, Liliana estava à beira do rio, jogando pedras na água e observando os círculos se abrirem e sumirem, como se o rio fosse o único capaz de ouvir seus pensamentos sem julgá-la.

Logo, vieram as risadinhas familiares — as moças do acampamento, enfeitadas, já casadas, e perigosamente entediadas. Aproximaram-se em grupo, trocando olhares mal disfarçados de ciúme.

— Vinte e cinco anos, Liliana! — disse uma, ajeitando o lenço de seda na cabeça. — Ainda esperando o tal Drago? Ou vai se casar com o rio de uma vez?

Liliana ergueu o olhar, calma como sempre, arqueando uma sobrancelha com um sorriso que misturava doçura e desdém.

— Casar com o rio parece tentador — respondeu. — Ele não interrompe, não dá conselhos tolos e, veja só, nunca tenta me dizer o que devo fazer.

As moças riram, meio por nervosismo. Uma delas retrucou, a voz fina de inveja mal disfarçada:

— É fácil falar assim quando todos os rapazes do acampamento te olham como se você fosse o sol.

Liliana soltou uma risada breve, inclinando a cabeça.

— Ah, é? Então talvez seja por isso que vocês vivem na sombra.

Houve um silêncio curto, seguido por um riso engasgado de uma das mais jovens. Outra, a mais ousada, deu um passo à frente:

— Se você fosse um pouco menos orgulhosa, Liliana, já estaria casada como o destino quis.

— E perder toda essa diversão? — respondeu ela, jogando outra pedra no rio. — Além do mais, gosto de ver o destino se contorcendo quando alguém não obedece de primeira.

— Um dia, Drago vem buscar você — disse uma, meio debochada. — Aí quero ver se ainda vai rir.

Liliana fingiu pensar por um momento, o sorriso se abrindo lentamente.

— Talvez eu ria mais. — Ela piscou. — Dizem que ele é bonito o suficiente pra compensar a tragédia.

As moças gargalharam — algumas de verdade, outras só para esconder o incômodo.

Do outro lado do acampamento, a voz de Milena Bari ecoou, firme:

— Liliana! Filha! Não me faça te procurar de novo!

Liliana suspirou, sacudindo a saia antes de se levantar.

— Pois é, meninas… o dever chama. — E, antes de sair, lançou um último olhar provocador: — Tentem não falar muito de mim depois que eu for, sim? Ou o rio pode ficar com ciúmes.

As jovens se entreolharam, divididas entre a irritação e o riso. Liliana atravessou a margem com a leveza de quem sabia o próprio valor.

Milena a envolveu num abraço apertado, e Liliana, travessa, murmurou entre risos:

— Prometo, mãe, não vou virar pedra no rio. Ainda tem muita língua pra eu deixar enrolada por aqui.

Milena suspirou, mas o sorriso traiu o sermão que não veio. Liliana era fogo — e o rio, talvez, o único capaz de não se queimar.

Pouco depois, Liliana foi conduzida à tenda comunal. Aromas de ervas e incenso preenchiam o espaço, e lamparinas lançavam luz trêmula sobre os rostos sérios do patriarca, da drabarni e de seus pais. A vidente ergueu os olhos, âmbar e penetrantes, e falou com firmeza:

— Liliana, tive uma visão. Drago está próximo. A profecia deve se cumprir.

Por um instante, o ar pareceu fugir dos pulmões de Liliana. Ela piscou, confusa, a pedra que segurava escorregando de sua mão e caindo na terra úmida com um som seco. Ficou imóvel, tentando decifrar o que ouvira — como se a frase ainda ecoasse dentro dela, estranhamente distante e inevitável.

— Drago? — repetiu, a voz um pouco mais baixa, quase incrédula. Depois, franziu a testa, cruzou os braços e retomou o tom firme, agora com um fio de tensão que traía o desconforto. — Um guardião do clã? Por que eu? Por que essa profecia me escolheu? Por que não outro?

A pergunta saiu quase como um desafio — não apenas ao destino, mas à própria ideia de que sua vida pudesse ser decidida por visões e tradições antigas.

O patriarca respirou fundo e, apoiado em seu cajado, começou a explicar com solenidade:

— Drago não é apenas um guardião. Ele é um Strigoi, um vampiro milenar. Sua existência atravessa séculos, e durante todas essas gerações ele protegeu nosso clã. Ele é a sombra que vigia nossos inimigos, a força que nos mantém vivos quando o mundo se fecha contra nós. Sem ele, os Kalderash não teriam sobrevivido.

A drabarni acrescentou, a voz carregada de peso ancestral:

— Ele não é um homem comum, Liliana. Ele é força e vigilância, silencioso e impassível. Por muitas gerações, devemos a ele nossa vida. E agora, você — a criança da profecia — cresceu. O equilíbrio entre mundos depende de você e de seu destino com ele.

Liliana mordeu o lábio, o coração acelerado, mas a ponta do lábio curvava-se num sorriso travesso, mesmo diante da magnitude da revelação:

— Equilíbrio entre mundos? E se eu não quiser? E se eu me recusar a me tornar parte desse tal equilíbrio? — ela ergueu os ombros, desafiadora, mas havia um leve tremor em sua voz.

O patriarca respirou fundo, sério:

— Liliana, algumas forças são maiores que nosso querer. O destino escolhe antes de nós. Sua força, sua coragem, sua vida… tudo isso é parte de algo maior. Drago protegerá você, e você completará aquilo que começou no instante em que nasceu.

Liliana fechou os olhos por um instante, respirando fundo, como quem saboreia a contradição antes de engoli-la. Quando voltou a erguer o olhar, a rebeldia ainda cintilava ali, viva e provocante. Um canto de sorriso se formou, carregado de sarcasmo.

— Então, que seja — disse, com um suspiro teatral. — Mas que fique claro: aceitar não é o mesmo que concordar.

Ela deu de ombros, girando o colar entre os dedos com desdém controlado.

— E se o destino quer me usar como peça, que ao menos saiba… eu não jogo fácil.

A noite caía espessa sobre as Dolomitas, e o acampamento cigano ardia sob o brilho das fogueiras. As mulheres dançavam em círculo, saias rodadas e véus coloridos girando em torno das chamas, enquanto flautas e tambores traçavam o pulso antigo dos cânticos Kalderash. Risadas, passos e o cheiro de madeira queimada se misturavam no ar vibrante.

No centro, Liliana Bari girava entre as outras, leve e intensa, o fogo refletido nos olhos verdes com toques de mel. Pequena e graciosa, atraía olhares sem esforço; seu sorriso e o ritmo natural dos movimentos davam a impressão de que a própria dança nascera com ela — como se o sangue ancestral guiasse cada gesto.

Enquanto o clã se entregava à festa, ninguém percebeu primeiro a presença dos estranhos que surgiu no limite da clareira, entre sombras e árvores. Vestido com mantos escuros que se misturavam à noite, ele montava sua postura inconfundível, alta e elegante, acompanhado de seu bando, cada um movendo-se com a precisão silenciosa e quase sobrenatural de quem está acostumado a vigiar e proteger. A luz da fogueira refletia em sua pele clara e em seus olhos penetrantes, revelando uma beleza impossível de ignorar, uma aura que parecia atravessar o tempo.

Drago observava o círculo de mulheres dançantes com a paciência silenciosa de um predador antigo, cada movimento refletindo no brilho âmbar de seus olhos. O fogo iluminava rostos, tecidos, risos — tudo se misturava em um só pulsar de vida. E então, num instante que pareceu suspender o tempo, ele a viu.

Liliana.

O olhar dele se fixou nela como se o mundo ao redor tivesse perdido a cor. Algo em seu corpo — talvez o próprio sangue ancestral — reconheceu antes mesmo que a mente pudesse reagir. Ela não dançava: flutuava. Pequena como uma bailarina de caixa de música, sim, mas com uma presença tão intensa que o ar ao redor parecia se dobrar para acompanhá-la.

Cada giro deixava um rastro de luz no olhar de Drago; cada risada contida, uma nota que o feria de espanto e fascínio. Havia nela algo que não pertencia inteiramente àquele tempo — algo que ele lembrava das visões, das vozes antigas que murmuravam sob a lua.

E foi ali, entre o fogo e o canto distante, que ele soube.

Sem precisar de confirmação, sem dúvida alguma: a criança da profecia estava diante dele.

Adulta agora — e tão viva, tão diferente do que sonhara — que, por um breve segundo, Drago esqueceu o próprio destino e apenas a observou, tomado pela certeza de que nenhum presságio o havia preparado para aquilo.

O canto e a dança continuavam, mas a chegada de Drago e seu bando logo se fez notar. Murmúrios surgiram, e homens e mulheres do clã se moveram com precisão para organizar a recepção, como se toda a festa tivesse sido ensaiada para aquele instante.

Dois silêncios distintos surgiram junto com o vento frio: duas carroças enormes, estranhamente sem janelas, apenas com uma porta de madeira simples para entrar e sair, foram trazidas pelos cavaleiros de Drago. A madeira escura refletia a luz da lua e das fogueiras de forma sombria, e o ar ao redor parecia mais denso. Ninguém ousava se aproximar demais. A sensação era de que as carroças guardavam algo ancestral, vivo e temível.

Liliana continuava no círculo, mas agora os olhos verdes com toques de mel estavam fixos em Drago. Ele parou alguns metros à frente, imóvel, cada gesto calculado, cada detalhe seu emanando autoridade e algo hipnotizante. A respiração da moça acelerou, e por um instante, parecia que a festa inteira se transformara em uma dança silenciosa ao redor dele.

O patriarca se aproximou, erguendo a voz para organizar o clã:

— Kalderash! Recebam Drago Farkas e seus companheiros! Honrem sua chegada!

Homens afastaram carroças e organizaram os animais; mulheres estenderam mantos coloridos para receber os visitantes. O ar se encheu de expectativa e reverência.

Drago observava tudo com olhos atentos, como um predador avaliando seu território, mas seu olhar voltou-se inevitavelmente para Liliana. O fascínio que sentira à distância intensificou-se com cada gesto dela, cada pequeno movimento da moça rebelde que ainda se mantinha parcialmente dentro do círculo de dança.

Drago desviou os olhos apenas para confirmar o que seu coração já sabia. No colo de Liliana, próximo ao ombro, a marca da lua crescente se mostrava com clareza. Seu instinto nunca falhava. E havia nela aquele cheiro inconfundível e arrebatador: Um perfume delicado, de notas florais e cítricas, pairava no ar — lírios, flores de laranjeira e um toque quase etéreo de vento após a chuva. Era um aroma vivo, fresco e envolvente, que parecia sussurrar segredos antigos apenas a ele.

Ele avançou, e parecia que uma montanha inteira se erguia diante de uma única flor. O magnetismo e a autoridade que emanava eram quase tangíveis. Liliana nunca tinha visto um homem tão belo antes. Ela sentia seu cheiro, Um perfume masculino de notas amadeiradas — cedro, âmbar e um leve toque de tabaco — envolvia-o como uma assinatura silenciosa. Era um aroma quente e limpo, que evocava força contida e tempo antigo, provocando nela um arrepio involuntário. Mesmo assim, não recuou. Mantinha a postura firme, o olhar desafiador, como se desafiar o desconhecido fosse a única resposta possível.

O patriarca percebeu a postura de Liliana e deu um passo à frente, apoiado em seu cajado, tentando quebrar a tensão:

— Drago… quero lhe apresentar Liliana Bari, filha de Milena e Ruvim Bari.  Permita-me pedir desculpas pela insolência da menina. — Ele olhou para Ruvim, que assentiu em concordância. — Ela sempre foi… intensa, irreverente. Não é fácil domar o espírito dela. Ela é assim desde criança: livre, inquieta, questionadora.

Drago inclinou levemente a cabeça, analisando Liliana com a calma e precisão de alguém que observava uma força rara e antiga. Um leve sorriso curvou seus lábios, quase imperceptível, mas carregado de fascínio:

— Não há necessidade de desculpas. A força que ela emana não deve ser contida. A audácia, a rebeldia… são a essência do povo que vive em liberdade. Ela tem o direito de questionar, de desafiar, de existir plenamente.

Liliana sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Aquele homem não apenas a encarava, como a compreendia, sem medo de sua insolência. E, pela primeira vez, a presença de alguém parecia equilibrar sua própria força. Mas nada falou.

Drago deu um passo à frente, seu olhar intenso prendendo cada centímetro dela:

— E é exatamente por isso que deve ser respeitada. Forte, indomável, viva… você é tudo o que este povo precisa para continuar existindo. Mas também… você é minha responsabilidade agora.

Liliana sentiu o peso dessas palavras. Um calafrio percorreu sua espinha, mas ela não recuou, mesmo diante daquele Strigoi milenar, cuja presença parecia distorcer o ar ao redor.

— Sua responsabilidade? — disse ela, a voz carregada de desafio. — E se eu não quiser que seja sua responsabilidade? E se eu quiser escolher meu próprio caminho?

Drago sorriu levemente, olhos penetrantes fixos nos dela:

— Isso não muda o que você é, nem o que nasceu para ser. Você pode questionar, desafiar, tentar fugir… mas a força que existe em você foi moldada para este momento, para este encontro. Nada nem ninguém pode mudar isso.

Liliana mordeu o lábio, respirando fundo, o coração acelerado, mas ainda firme em sua rebeldia. A tensão entre eles era quase tangível, como se a própria noite segurasse a respiração.

Drago aproximou-se mais, sem quebrar a distância necessária, e sua presença parecia puxá-la como ímã, fascinante e intimidante. O bando dele permanecia silencioso e imponente, sombras à volta das carroças sem janelas, reforçando a sensação de que nada na noite era comum.

O encontro entre eles não era apenas o cumprimento de uma profecia, mas um choque de forças, um jogo de vontades e resistência, onde nenhum dos dois cederia facilmente.

O canto e o ritmo dos tambores recomeçaram suavemente, como se a própria festa sentisse a presença de Drago e tentasse envolver a tensão crescente. Liliana voltou a girar no círculo de mulheres, mas agora com o coração acelerado, cada passo sentindo o peso dos olhos dele sobre ela. Drago se manteve alguns metros à frente, imóvel, observando cada movimento, cada gesto. A fumaça da fogueira misturava-se à noite fresca, criando um véu de mistério ao redor do Strigoi.

Ela rodopiou mais uma vez, o vestido rodado saltando em cores, e lançou um olhar desafiador:

— Está me observando há quanto tempo? — provocou, tentando domar o turbilhão que sentia. — Vai ficar aí parado só para me assustar ou vai finalmente falar?

Drago deu um passo, o suficiente para aproximar-se, sem romper a distância necessária, voz baixa, firme e carregada de autoridade:

— Observo desde que cheguei. Cada gesto seu confirma o que sempre soube: você é indomável, intensa e irresistível. — Sua respiração era quase imperceptível, mas cada palavra parecia atravessar a noite.

Liliana sorriu, misturando ironia e fascínio.

— Irritante e irresistível… interessante combinação. — Ela girou de novo, cabelos saltando, provocando-o. — Mas não pense que vou me curvar por causa de profecias ou de olhares penetrantes.

Drago sorriu levemente, olhos penetrantes fixos nos dela, admirando a audácia:

— Não espero que se curve. Quero que permaneça assim: forte, viva, rebelde. Mas saiba que não poderá escapar do que nasceu para ser.

O grupo de músicos começa a tocar uma nova melodia: uma canção cigana, lenta, pulsante e carregada de desejo, lembrando uma bulería flamenca que parece reverberar no próprio ar. Liliana sorri, vira-se de costas para Drago e desliza em direção à grande fogueira, deixando a saia girar em ondas sedutoras. O fogo estala e dança, refletindo chamas douradas sobre sua pele, enquanto cada passo seu parece hipnotizar a noite.

Drago entra na roda com determinação, batendo palmas e marcando os pés no ritmo da música. O som ecoa como um chamado, e ele se aproxima, cada movimento seu respondendo ao dela como uma conversa silenciosa. Aos poucos, os outros ciganos recuam, formando um círculo que os transforma no único ponto de vida e energia no espaço, como se tudo ao redor tivesse desaparecido.

O calor do fogo envolve seus corpos, a batida da música pulsa em suas veias, e cada giro, cada passo, cada gesto é carregado de tensão, desejo e promessa. Eles dançam frente a frente, em um jogo de olhares e movimentos, como se o tempo tivesse parado, e o mundo inteiro se resumisse à chama da fogueira e à música que os une.

Os olhos dela encontraram os dele — e, por um instante, o mundo ao redor pareceu desaparecer. O fogo se intensificou, o ar vibrou, e alguns dos presentes recuaram instintivamente, sentindo algo que não compreendiam.

Quando a música atingiu seu auge, Drago a puxou para perto, os rostos quase se tocando. Ela sentiu o frio do corpo dele, e ele, o calor pulsante do coração dela — um coração que, inexplicavelmente, ainda batia.

O toque durou segundos, mas pareceu uma eternidade.

Então, a música cessou.

Silêncio.

O clã observava, imobilizado. O som do vento entre as árvores era o único ruído.

Alguns homens murmuravam entre si, inquietos. Outros trocavam olhares apreensivos, conscientes de que presenciavam algo além da compreensão — um presságio, talvez.

As mulheres, por sua vez, mantinham os olhos fixos em Liliana. Sabiam, no instinto, que algo havia mudado.

A festa, que até então celebrava a vida, tornara-se algo diferente: um ritual involuntário, uma colisão entre eras.

Drago ainda segurava a mão dela. A luz da fogueira desenhava reflexos dourados sobre sua pele pálida.

— Nunca dancei assim — murmurou ele, quase para si mesmo.

Liliana arqueou uma sobrancelha, o sorriso sutil.

— Talvez nunca tenha encontrado uma parceira à altura.

Por um instante, ele nada respondeu. Limitou-se a fitá-la, o olhar misto de admiração e perigo.

— Ou talvez — disse, enfim, baixando o tom — tenha encontrado algo que nem mesmo um milênio pôde me preparar para enfrentar.

Ela recuou um passo, o coração acelerado, mas o olhar firme.

— Então aprenda, Drago. Nem todas as forças do mundo estão sob o teu controle.

Antes do amanhecer, o patriarca ordenou que os homens preparassem as carroças para Drago e seu bando. Sem janelas e com portas robustas, os veículos pareciam absorver a própria escuridão, protegendo seus ocupantes e mantendo o mistério.

Drago entrou primeiro, mas antes de desaparecer, aproximou-se de Liliana. Com um gesto suave, tomou sua mão entre as dele e inclinou-se, depositando um beijo frio e breve sobre a pele.

— Até que nos encontremos de novo, minha pequena flor — murmurou, com voz baixa, carregada de significado. 

Em seguida, entrou na carroça, seguido pelo bando, cada gesto irradiando autoridade e presença quase sobrenatural. Liliana permaneceu imóvel, sentindo a eletricidade do contato e o reconhecimento silencioso que ninguém mais poderia transmitir. O vento frio e as últimas faíscas das fogueiras tornavam a noite inesquecível, carregada de tensão, promessa e perigo.

Enquanto a festa ecoava ao longe, Liliana sabia que aquela noite marcaria o início de algo impossível de ignorar.

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