
Onde o Amor Acabou e a Guerra Começou
Capítulo 2
A estatueta de metal polido parecia fria na minha mão. Pesava mais do que eu esperava.
"Prémio Arquiteto Revelação do Ano."
Ganhei. Depois de anos a trabalhar até tarde, a sacrificar fins de semana, a investir cada cêntimo que tinha nos meus projetos.
Conduzi para casa com um sorriso que não conseguia tirar do rosto. O rádio tocava uma música qualquer, mas eu não ouvia. Só conseguia pensar na cara do Pedro quando lhe mostrasse o prémio.
Ele ia ficar tão orgulhoso.
Estacionei o carro e subi as escadas do nosso prédio, dois degraus de cada vez. A porta do apartamento estava entreaberta.
Música alta vinha de dentro. A música dele.
Entrei, pronta para gritar a novidade, mas as palavras morreram na minha garganta.
Pedro não estava sozinho.
Ele e a Clara, a vocalista da banda dele, estavam a dançar no meio da sala. Garrafas de champanhe vazias na mesa de centro, que eu tinha desenhado. Restos de comida nos pratos que a minha avó me deu.
Eles não me viram. Estavam no seu próprio mundo.
Pedro pegou na Clara pela cintura, levantou-a no ar. Ela riu, um som agudo que encheu o nosso apartamento.
"Conseguimos, Clara! Uma editora! Uma editora a sério!"
Ele beijou-a.
Não foi um beijo de amigos. Foi um beijo longo, profundo. Um beijo que eu conhecia bem.
O troféu escorregou da minha mão.
Caiu no tapete felpudo com um baque surdo.
O som foi suficiente. Eles separaram-se bruscamente. Os olhos do Pedro encontraram os meus. Pânico, depois irritação.
"Sofia. Já chegaste."
Não era uma pergunta. Era uma acusação.
Clara ajeitou o vestido, um sorriso presunçoso nos lábios. Ela olhou para o troféu no chão.
"Oh, o que é isso? Ganhaste um pisa-papéis novo?"
Pedro lançou-lhe um olhar de aviso, mas não disse nada para a repreender.
"O que é que se passa aqui, Pedro?" a minha voz saiu trémula.
"Calma, Sofia. Não é o que estás a pensar," ele disse, as palavras automáticas de qualquer culpado. "A Clara e eu estávamos só a celebrar. A banda conseguiu um contrato discográfico."
Ele disse isto como se explicasse tudo. Como se o sucesso dele justificasse a cena à minha frente.
"A celebrar? Na nossa casa? Com o nosso champanhe?" apontei para a mesa. "E com ela?"
"A Clara faz parte da banda. Ela faz parte do sucesso," ele disse, defensivo. "Tu sabes o quanto eu trabalhei para isto."
Eu sabia? Eu é que paguei por este apartamento. Eu é que paguei pelo estúdio de gravação no quarto dos fundos. Eu é que paguei pelas guitarras dele, pelas aulas, pelas contas enquanto ele "perseguia o seu sonho".
"E o meu sucesso?" perguntei, a voz a ganhar força. "O prémio que eu ganhei hoje? Aquele que te liguei a dizer que tinha sido nomeada, e tu disseste que não podias ir à cerimónia porque tinhas um 'ensaio importante'?"
Ele desviou o olhar. "Sofia, isso é ótimo. Fico feliz por ti, a sério. Mas isto é diferente. Isto é a minha vida."
A minha vida. E eu, o que era eu na vida dele? A patrocinadora?
"Saiam," eu disse, a voz baixa e fria. "Os dois. Saiam da minha casa. Agora."
Clara riu. "Da tua casa? Pensei que esta era a casa do Pedro."
"Clara, cala-te," Pedro disse, finalmente mostrando alguma decência. Ele virou-se para mim. "Sofia, não sejas dramática. Estás cansada. Vamos falar sobre isto amanhã."
"Não há nada para falar," respondi, olhando para o homem que eu amava e vendo um estranho. "Pega nas tuas coisas e sai. A festa acabou."
Você pode gostar





