
Onde o Amor Acabou e a Guerra Começou
Capítulo 3
Na manhã seguinte, o silêncio na casa era pesado.
Pedro não tinha saído. Dormiu no sofá.
Encontrei-o na cozinha a fazer café, como se nada tivesse acontecido. Ele assobiava uma das suas melodias.
"Bom dia," disse ele, sorrindo para mim. "Dormiste bem?"
Ignorei a pergunta. Abri o frigorífico e tirei uma garrafa de água.
"Sofia, sobre ontem à noite," ele começou, o tom agora sério e conciliador. "Eu sei como pareceu, mas estás a exagerar. A Clara é a minha parceira musical, é tudo."
"Eu vi-te, Pedro."
"Foi o momento. A emoção. Anos de trabalho a dar frutos. Tu, mais do que ninguém, devias entender isso."
Ele tentava usar a minha própria ambição contra mim.
"Eu entendo o trabalho," respondi, a voz sem emoção. "O que eu não entendo é a traição."
Fui para o nosso quarto e peguei numa mala de viagem. Abri o armário e comecei a atirar as minhas roupas para dentro, sem cuidado.
Ele seguiu-me, parando à porta.
"O que é que estás a fazer? Não vais desistir de nós por causa de um mal-entendido estúpido."
"Não é um mal-entendido," eu disse, sem olhar para ele. "É uma escolha. Tu fizeste a tua."
"Isto não é uma escolha! É a minha carreira! A editora quer que a gente vá para estúdio na próxima semana. Vamos gravar um álbum, Sofia. Um álbum! Depois vem a digressão. Isto é tudo o que sempre quisemos."
Sempre quisemos? Não. Era o que ele sempre quis. Eu só queria apoiá-lo.
Parei o que estava a fazer e olhei para ele.
"E onde é que eu entro nesse plano, Pedro? Fico em casa a pagar as contas enquanto tu vais em digressão com a tua 'parceira musical'?"
"Claro que não! Tu vens comigo sempre que puderes! Serás a minha inspiração!"
As palavras dele soavam ocas, ensaiadas.
Voltei para a mala. Fechei-a. Fui até à minha secretária e liguei o meu computador portátil. Queria apenas verificar as minhas contas bancárias antes de sair.
A nossa conta conjunta.
Havia uma transferência recente. Uma grande. Feita há dois dias.
Cinco mil euros.
A descrição dizia: "Adiantamento Equipamento Estúdio".
Eu não tinha autorizado aquilo.
Abri o extrato detalhado. O destinatário não era uma loja de música. Era uma conta pessoal. O nome associado: Clara Mendes.
O ar saiu dos meus pulmões.
Não era só traição emocional. Era roubo. Ele estava a usar o meu dinheiro, o dinheiro que eu ganhei a desenhar casas para outras pessoas, para financiar a vida dela.
Fechei o portátil. O barulho do clique pareceu ecoar no quarto silencioso.
Pedro viu a expressão no meu rosto.
"O que foi?"
Peguei na minha mala e na minha carteira. Passei por ele sem dizer uma palavra.
Ele agarrou o meu braço. "Sofia, fala comigo!"
"Larga-me," eu disse, a voz perigosamente calma.
"Não até me dizeres o que se passa."
"Tu deste-lhe cinco mil euros," afirmei, sem rodeios. "Do meu dinheiro."
Ele largou o meu braço como se eu o tivesse queimado. A culpa estava estampada na cara dele.
"Era para a banda," ele gaguejou. "A Clara precisava de um sintetizador novo. Era um investimento na nossa música."
"Na vossa música," repeti. "Com o meu dinheiro. Sem me perguntar."
Saí do quarto e fui em direção à porta da frente. Desta vez, ele não me seguiu.
Abri a porta.
"Onde é que vais?" a voz dele era pequena agora.
"Vou ter com um advogado," respondi, sem me virar. "Espero que o vosso álbum venda bem. Vais precisar do dinheiro."
Fechei a porta atrás de mim.
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