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Capa do romance Oitenta e Oito Traições, Uma Fuga

Oitenta e Oito Traições, Uma Fuga

Após ser abandonada no cartório pela 88ª vez, descobri que meu noivo e sua irmã adotiva planejavam me obrigar a criar o filho deles após uma laqueadura forçada. Ele ignorou tentativas de envenenamento contra mim e me trancou em um porão escuro, explorando minha fobia para me punir. Cansada de tanta crueldade, aproveitei sua ausência para aceitar um emprego distante e fugir. Com as malas prontas, enviei um aviso final: nossa história acabou para sempre.
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Capítulo 2

Ponto de Vista: Juliana

Naquela noite, Arthur bateu na minha porta. Ele segurava um copo de leite morno, algo que costumava fazer quando eu não conseguia dormir. O gesto parecia uma zombaria agora.

"Posso entrar?", ele perguntou, a voz suave.

Fiquei em silêncio, bloqueando a passagem.

Ele interpretou meu silêncio como permissão e tentou entrar, mas eu não me movi. Seus olhos, cheios de uma tristeza falsa, encontraram os meus. "Juliana, você pensou sobre o que eu e a Cláudia dissemos?"

"Você quer dizer a proposta onde eu sou esterilizada para criar o filho bastardo de vocês?" As palavras eram ácido na minha língua.

Ele se encolheu. "Não é assim. É a melhor solução para todos. Para a nossa família."

Nossa família. As palavras eram uma piada.

"E se eu disser não?", perguntei, minha voz sem emoção.

Seu rosto endureceu, a súplica suave substituída por um lampejo do empresário implacável que ele era. "Então não podemos nos casar, Juliana. Eu não posso abandonar meu filho. Você não me pediria para fazer isso."

Aí estava. O ultimato. Meu futuro em troca da conveniência dele. Uma dor fria e aguda atravessou meu peito, tão intensa que me fez ofegar. Ele estava disposto a jogar fora tudo o que tínhamos, tudo o que eu pensei que tínhamos, por este... este arranjo grotesco.

"Vou pensar sobre isso", eu disse, a mentira deslizando facilmente dos meus lábios. Eu precisava de tempo. Precisava que ele me deixasse em paz para que eu pudesse terminar de fazer as malas.

O alívio tomou conta de suas feições. Ele pensou que tinha vencido. Ele sempre vencia. "Eu sabia que você entenderia, meu amor." Ele se inclinou para me beijar, mas eu virei a cabeça, e seus lábios roçaram meu cabelo. "Eu sei que isso é difícil, mas é o único jeito. A Cláudia é minha irmã. Minha responsabilidade. Você e eu... somos diferentes. Nós vamos ser marido e mulher."

Marido e mulher. As palavras não significavam nada.

"Estou cansada, Arthur", eu disse, minha voz oca. "Quero dormir."

Ele parecia querer dizer mais, mas apenas assentiu, colocando o copo de leite na mesa de cabeceira. "Ok. Conversamos mais amanhã."

Ele saiu, fechando a porta suavemente atrás de si. Fiquei olhando para o copo de leite, um símbolo de um cuidado que nunca foi real. Eu queria espatifá-lo contra a parede. Em vez disso, apenas o deixei lá, intocado.

Alguns minutos depois, houve outra batida, mais suave. Meu coração afundou. Pensei que fosse Arthur, de volta para mais uma rodada de manipulação.

Abri a porta e encontrei Cláudia parada ali, um sorrisinho presunçoso no rosto.

"O Arthur me disse que você está considerando nossa proposta", disse ela, os olhos brilhando. "Eu sabia que você era uma garota esperta."

Eu apenas a encarei. "O que você quer, Cláudia?"

Ela se encostou no batente da porta, a mão descendo novamente para a barriga. "Eu só queria ter certeza de que você entendeu a situação claramente. Veja, este bebê...", ela fez uma pausa, deixando o silêncio pairar no ar. "Este bebê pode ser do Arthur, mas foi concebido porque ele estava pensando em mim."

A insinuação pairou no ar, vil e sufocante. Uma onda de náusea me atingiu. Parecia um soco físico no estômago, roubando o ar dos meus pulmões.

"Você está mentindo", sussurrei, embora uma parte fria de mim soubesse que não.

Seu sorriso se alargou. "Será? Pergunte a si mesma, Juliana. Para quem ele volta para casa? Por quem ele cancela a vida dele? Você é apenas um tapa-buraco. Um tapa-buraco conveniente e bonitinho até ele perceber quem ele realmente queria." Ela se inclinou para mais perto, a voz baixando para um sussurro conspiratório. "Você tem coragem de perguntar a ele, Juliana? De perguntar em quem ele estava pensando naquela noite?"

"Saia", eu disse, minha voz tremendo com uma raiva tão profunda que parecia que ia me despedaçar. "Saia do meu quarto."

Ela riu, um som leve e tilintante que irritou meus nervos. "Claro." Ela se afastou, os quadris balançando, deixando-me parada na porta, tremendo.

Bati a porta com força, minhas costas pressionadas contra a madeira. A mentira que eu vinha contando a mim mesma por anos desmoronou ao meu redor. As ligações tarde da noite que ele atendia em outro quarto. A maneira como seu braço demorava um segundo a mais em volta da cintura dela. Os olhares trocados em uma mesa de jantar que continham um mundo de significados dos quais eu nunca participei.

Eu tinha justificado tudo. Eles eram irmãos. Eram próximos. Eu estava sendo paranoica.

Mas não era paranoia. Era a verdade, me encarando o tempo todo. Uma verdade tão feia, tão distorcida, que eu não me permiti ver. Pensar neles juntos, daquela forma... uma repulsa vil e física subiu pela minha garganta.

Nesse momento, a porta se abriu novamente com um estrondo. Arthur estava lá, o rosto contorcido de raiva. "O que você disse para a Cláudia? Ela está lá embaixo chorando, dizendo que você a ameaçou!"

Ele nem mesmo perguntou a minha versão. Ele nunca perguntava.

Olhei para ele, para seu rosto bonito e furioso, e uma calma estranha se apoderou de mim. A dor ainda estava lá, uma dor surda e latejante, mas agora estava distante.

"Você está certo, Arthur", eu disse, minha voz uniforme. "Eu vou fazer. Vou concordar com a cirurgia."

Sua raiva desapareceu, substituída por um sorriso brilhante e aliviado. "Ah, Juliana. Meu amor. Eu sabia. Eu sabia que você me amava."

Ele correu para frente e me puxou para um abraço. Fiquei rígida em seus braços, meu corpo sem resposta.

"Podemos nos casar imediatamente", disse ele, a voz tonta com sua vitória. "Amanhã, não, depois de amanhã. Finalmente estaremos casados."

Ele pegou minha mão, o polegar acariciando meus nós dos dedos. Sutilmente, puxei minha mão. "Deveríamos esperar", eu disse, minha voz ainda estranhamente calma. "A saúde da Cláudia é a coisa mais importante agora. Não deveríamos apressar as coisas enquanto ela está tão frágil."

Ele olhou para mim, os olhos brilhando de adoração. Ele pensou que eu estava sendo altruísta. Ele não tinha ideia.

"Você está certa", disse ele, beijando meu cabelo novamente. Aquele beijo, que uma vez pareceu uma promessa, agora parecia uma violação. "Você é sempre tão atenciosa."

Do corredor, pude ver Cláudia espiando pela esquina, o rosto uma máscara de choque. Ela não esperava que eu concordasse tão facilmente. Ela queria uma briga.

Ela rapidamente se recompôs e se aproximou, agarrando-se ao braço de Arthur. "Já que a Juliana está se sentindo melhor, podemos ir às compras amanhã? Preciso de algumas roupas de maternidade novas."

"Claro", disse Arthur instantaneamente, sem nem olhar para mim. "Juliana, você vem com a gente. Você pode ajudar a Cláudia a escolher algumas coisas."

A ideia de passar um dia assistindo-os brincar de família feliz era nauseante. Mas eu assenti. Eu representaria meu papel até poder escapar.

O dia seguinte no shopping foi um inferno particular. Eles caminhavam na minha frente, o braço dele em volta dela, rindo e sussurrando como um casal de verdade. Eu os seguia, um fantasma invisível. Deveríamos estar comprando roupas de maternidade para ela, mas logo eles estavam em uma joalheria, olhando pulseiras de bebê.

Esta era a vida que ele havia planejado para mim. Uma vida como babá glorificada de sua prole incestuosa. Uma vida de desespero silencioso, de assistir o homem que eu amava amar outra pessoa. Uma dor tão aguda e súbita atravessou meu coração que tive que parar e pressionar a mão no peito, apenas para ter certeza de que ainda estava batendo.

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