
Oblíquo
Capítulo 3
CAPÍTULO 3 - Augusto Cipriatti
O problema do crime organizado é que ninguém nunca dorme.
Sempre existe alguém querendo mais dinheiro.
Mais território.
Mais poder.
E naquela noite, os Albaneses queriam entrar no meu império.
Meu celular vibrou sobre a bancada da cozinha enquanto eu terminava uma dose de whisky.
Dom: “Cadê você, caralho?”
Revirei os olhos.
Eu: “Em casa. Saindo em alguns minutos.”
A resposta veio imediatamente.
Dom: “Os Albaneses já estão aqui e Polo quer começar a reunião. Eles odeiam atrasos e você sabe disso.”
Ignorei.
Os dois sabiam que eu apareceria.
Mais cedo ou mais tarde.
A verdade é que eu estava completamente esgotado daquela rotina.
As pessoas olhavam para o tráfico como se fosse apenas dinheiro fácil, carros importados e homens perigosos usando ternos caros.
Idiotas.
O verdadeiro inferno estava na logística.
Rotas.
Subornos.
Distribuição.
Controle de fronteiras.
Polícia.
Políticos.
Gente demais.
Detalhes demais.
E eu odiava cada segundo daquela reunião antes mesmo dela começar.
Os Albaneses vinham insistindo havia meses naquela parceria.
Meses.
A Albânia era um dos poucos territórios europeus onde ainda não operávamos diretamente. Não por falta de interesse financeiro.
Mas porque máfia antiga era igual religião.
Todo mundo dizia seguir códigos de honra enquanto se matava nos bastidores.
Durante anos, o território deles foi instável demais até para nós.
Mas então Reno Assalani assumiu o comando após a morte do tio.
Jovem.
Ambicioso.
Inteligente.
Perigosamente ambicioso.
E agora queria expandir operações.
Anfetaminas.
Distribuição internacional.
“Uma parceria milionária”, como ele mesmo havia definido.
Cacete.
Peguei a chave do meu Porsche GT3 e saí da cobertura sem olhar para trás.
Londres estava fria naquela noite.
As ruas molhadas refletiam as luzes da cidade enquanto eu acelerava pelas avenidas quase vazias.
Durante alguns minutos, o ronco do motor foi suficiente para silenciar minha cabeça.
Só durante alguns minutos.
Quando parei em frente ao Camp Town, o pub já estava lotado.
A fila dobrava a esquina.
Música alta.
Luzes neon atravessando a fumaça dos cigarros.
Perfume caro misturado com álcool e desejo.
O pub pulsava.
E, honestamente?
Aquilo tinha muito da nossa cara.
Entreguei a chave para o valet enquanto alguns olhares se voltavam automaticamente para mim.
Eu já estava acostumado.
Dinheiro chama atenção.
Poder chama ainda mais.
Duas garotas na fila me encararam imediatamente.
Bonitas.
Jovens.
Perigosamente interessadas.
Uma morena e uma ruiva.
Aproximei devagar, observando as duas me analisarem sem qualquer vergonha.
— Vocês parecem entediadas — falei.
A ruiva sorriu.
— E você parece exatamente o tipo de problema que a gente procura.
Meu sorriso aumentou.
Melhor ainda.
Passei por elas devagar, aproximando meu rosto apenas o suficiente para sentir o perfume doce da morena.
— Entrem comigo.
As duas trocaram um olhar animado antes de me acompanharem para dentro.
— Estamos te devendo um favor, gostoso — a ruiva sussurrou no meu ouvido.
— E pretendemos agradecer direito — a morena completou.
Sexo.
Simples.
Fácil.
Sem perguntas.
Do jeito que eu gostava.
Eu precisava descarregar aquela tensão em algum lugar.
E sexo sempre foi meu método favorito de destruição.
Me afastei delas antes que começassem a achar que aquilo significava alguma coisa.
Subi as escadas laterais do pub em direção ao rooftop privado.
O som da música foi ficando distante conforme eu avançava pelo corredor escuro.
A área superior era completamente diferente do restante do pub.
Mais silenciosa.
Mais exclusiva.
Mais perigosa.
Poucas luzes iluminavam o terraço parcialmente coberto.
Whisky caro.
Homens armados.
Dinheiro demais em cima da mesa.
Reno Assalani levantou os olhos na minha direção assim que me aproximei.
Ao lado dele estavam dois homens enormes que claramente tinham sido treinados para matar pessoas sem remorso.
Reno, no entanto, era pior.
Porque homens inteligentes sempre eram mais perigosos.
— Boa noite, senhores. Desculpem o atraso.
— Augusto Cipriatti… — Reno abriu um sorriso discreto. — Cada vez mais imponente. Londres realmente está te tratando bem.
Sentei na poltrona em frente à dele sem desviar o olhar.
— Vamos direto ao assunto.
O sorriso dele aumentou minimamente.
Bom.
Ele também odiava perder tempo.
Reno apoiou os braços sobre a mesa.
— Faz muito tempo que eu queria essa reunião. A Albânia está pronta para expandir negócios.
— A Magma também sabe expandir negócios — respondi friamente. — Dependendo das condições.
Polo permaneceu sentado ao meu lado mexendo no notebook como se estivesse em outro universo.
Mas eu sabia que ele estava ouvindo absolutamente tudo.
Sempre estava.
Dom encostou no bar ao fundo, bebendo whisky e observando o ambiente em silêncio.
Reno cruzou os dedos.
— O fornecimento de anfetaminas para nossos territórios pode gerar cifras extremamente interessantes para ambos os lados.
“Cifras extremamente interessantes.”
Criminosos adoravam transformar sujeira em linguagem corporativa.
— Nós aceitamos iniciar a operação — falei. — Duas semanas para organizar logística, rotas e distribuição.
Polo finalmente ergueu os olhos da tela.
— Talvez menos.
Reno assentiu satisfeito.
Mas antes que ele pudesse continuar, inclinei o corpo levemente para frente.
— Mas existe uma condição.
Os olhos dele encontraram os meus imediatamente.
Silêncio.
Tensão.
Até Dom parou de beber.
— O tráfico humano acabou? — perguntei diretamente.
Os dois homens atrás dele endureceram na mesma hora.
Reno permaneceu imóvel.
— Sim.
— Porque se eu descobrir qualquer mulher sendo traficada dentro dessa parceria… o acordo acaba no mesmo instante.
Minha voz saiu fria.
Controlada.
Perigosa.
— E eu começo uma guerra pessoalmente.
Reno sustentou meu olhar durante alguns segundos.
Então sorriu de lado.
— Seu tio realmente tinha razão sobre você.
Meu maxilar travou imediatamente.
Eu odiava quando mencionavam minha família.
— O tráfico humano está fora dos nossos negócios — ele respondeu. — O FBI pressionou demais nos últimos anos. Não vale mais o risco.
Filhos da puta.
O fato dele tratar aquilo como questão financeira me dava vontade de quebrar os dentes dele ali mesmo.
Mas Polo já tinha investigado tudo antes da reunião.
E até agora, as informações batiam.
— Ótimo — respondi secamente.
Reno se levantou primeiro.
— Então temos um acordo.
Apertei sua mão apenas pelo tempo necessário.
Negócios.
Nada além disso.
— Agora, se me dão licença… — ele sorriu levemente. — Gostaria de conhecer melhor a famosa noite londrina.
Filho da puta.
— Sintam-se à vontade — Dom respondeu antes que eu mandasse todos eles para o inferno. — Reservei uma mesa mais afastada para vocês.
Reno assentiu satisfeito antes de descer com os homens dele.
Esperei eles desaparecerem pela escada antes de soltar o ar lentamente.
— Filho da puta… — rosnei.
Dom começou a rir imediatamente.
— Ah, para com isso, Guto. O cara só quer beber e comer gente bonita. Você faz exatamente a mesma coisa.
Virei o rosto lentamente na direção dele.
— A diferença é que eu nunca comprei mulher nenhuma.
O sorriso dele desapareceu um pouco.
Bom.
Era exatamente essa a reação que eu queria.
— Isso ficou no passado — Polo interrompeu calmamente enquanto digitava alguma coisa no notebook. — Passei a reunião inteira monitorando movimentações na deep web. Pelo menos até agora, o tráfico humano realmente foi encerrado na Albânia.
— Menos mal.
Passei a mão pela nuca tentando aliviar a tensão acumulada.
Aquela parceria ainda me incomodava.
Muito.
Mas dinheiro movia o mundo.
E impérios não sobreviviam sem expansão.
— Agora chega dessa reunião de merda — falei. — Já garanti minha distração da noite e sinceramente estou precisando esquecer essa porcaria toda.
Dom arqueou as sobrancelhas.
— Distração?
— Duas, na verdade.
O desgraçado começou a gargalhar.
— Você tem uma costela quebrada! Como exatamente pretende sobreviver a isso?
— Minha costela está quebrada — rebati enquanto caminhava em direção à escada. — Meu pau não.
Ouvi a gargalhada de Dom ecoar atrás de mim.
— Vai se foder, Augusto!
Levantei a mão sem olhar para trás.
Polo soltou um suspiro cansado.
— Amanhã temos o evento da Deep’s no Mayfair Club. Tentem não aparecer mortos.
— Sem promessas.
Desci novamente para o salão principal do pub.
A música vibrou no mesmo instante.
Luzes vermelhas.
Corpos dançando.
Álcool.
Luxúria.
Caos.
Era engraçado.
As pessoas olhavam para lugares como aquele e enxergavam diversão.
Eu enxergava fuga.
Porque a verdade era simples:
Eu precisava me manter ocupado.
Sexo.
Violência.
Whisky.
Qualquer coisa servia.
Porque no instante em que eu parava…
Os fantasmas voltavam.
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