Capa do romance Oblíquo

Oblíquo

8.3 / 10.0
Augusto Cipriatti é um poderoso empresário e lutador clandestino marcado por um passado trágico. Órfão após a morte do pai criminoso, ele cresceu em um abrigo onde formou um laço eterno com Dominic e Marco. Juntos, construíram um império que une a construção civil ao submundo do crime. Rude e intenso, Augusto vive entre a culpa e a brutalidade, ciente de que seu universo sombrio pode destruir qualquer um que tente se aproximar de sua vida caótica.

Oblíquo Capítulo 1

CAPÍTULO 1 - Augusto Cipriatti

Sangue tem cheiro.

Alguns homens passam a vida inteira sem perceber isso.

Eu não.

Aprendi cedo demais.

O gosto metálico ainda permanecia na minha boca enquanto eu pressionava a mão contra as costelas e tentava ignorar a dor que queimava por dentro. A cobertura inteira cheirava a whisky, cigarro e ferrugem. Sangue.

Muito sangue.

Do outro lado do quarto, Polo me encarava como se estivesse prestes a me matar.

— Quando é que vocês vão parar de se arriscar desse jeito? — ele ralhou.

— “Vocês”, não. Eu não tenho nada a ver com isso. — Dom ergueu as mãos imediatamente, sentado na ponta da minha cama. — Eu sou um cidadão exemplar.

Soltei uma risada rouca antes de gemer de dor.

Filho da puta.

Talvez eu realmente tivesse quebrado alguma coisa.

Ainda assim, o sorriso voltou ao meu rosto no instante em que me lembrei da expressão do idiota caído no chão do ringue. Ensanguentado. Sem conseguir respirar direito. Implorando para que eu parasse.

Aquilo sempre fazia alguma coisa dentro de mim silenciar.

Dentro do ringue, não existia passado.

Não existia culpa.

Não existia vazio.

Por alguns minutos, existia apenas violência.

E eu era bom naquilo.

Bom demais.

— Eu já falei que vocês dois são irritantes pra caralho? — resmunguei. — Agora deem o fora daqui. Amanhã já vou estar ótimo.

Polo soltou uma risada sem humor.

— Ótimo? Você mal consegue respirar, Guto.

— Drama.

— Você provavelmente quebrou umas costelas. Vou ligar pro Watson.

— Não precisa dessa porra.

— Precisa, sim.

Ele saiu do quarto bufando, batendo a porta atrás de si.

Observei o teto escuro da suíte enquanto a dor pulsava dentro do meu peito.

Mesmo sendo o mais velho entre nós três, Polo sempre agiu como se precisasse manter tudo de pé.

Talvez porque alguém precisasse.

Dominic era impulsivo.

Eu era destruição.

E Marco…

Marco era o único capaz de transformar caos em estratégia.

No fundo, parte de mim odiava saber que fui eu quem arrastou os dois para dentro desse inferno.

Quando criamos a Magma Enterprises, o plano era simples.

Uma construtora de fachada.

Lavagem de dinheiro.

Nada além disso.

Mas o problema da ambição é que ela cresce.

E cresce rápido.

Hoje, a Magma era uma das maiores construtoras do Reino Unido. Projetos milionários. Contratos internacionais. Capas de revista. Eventos luxuosos. Homens engravatados apertando nossas mãos enquanto fingiam não saber exatamente de onde vinha parte daquele dinheiro.

O mundo corporativo era tão podre quanto o crime.

A única diferença era o perfume caro.

— Porra, Guto… — Dom me arrancou dos pensamentos. — Você devia ter visto a cara daquele cara quando você jogou ele contra a grade.

— Eu vi.

— Acho que ele vai precisar reaprender a mastigar.

Um sorriso torto puxou o canto da minha boca.

Dom soltou uma gargalhada.

Ele sempre fazia isso.

Transformava tragédia em entretenimento.

— Você é um psicopata do caralho, sabia? — ele disse.

— E você continua aqui.

— Porque alguém precisa garantir que você não morra antes dos quarenta.

Balancei a cabeça negativamente.

Dom se levantou e caminhou até o bar da suíte, servindo duas doses de whisky como se estivesse na própria casa.

Na verdade, ele estava.

Nós três éramos assim.

Sem divisões.

Sem portas fechadas.

Sem necessidade de pedir permissão.

Família não fazia cerimônia.

Polo sempre foi assim.

Tentando cuidar da gente.

Desde o orfanato.

Vinte anos antes

— Guto, socorro!

A voz desesperada de Polo ecoou pelo pátio antes mesmo de eu entender o que estava acontecendo.

Quando virei a esquina, encontrei Hill em cima dele.

Aquele filho da puta era dois anos mais velho.

Maior.

Mais forte.

Mas eu estava com raiva.

E raiva sempre foi suficiente.

Avancei sem pensar.

Derrubei aquele desgraçado no chão e comecei a socar.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Até alguém me arrancar de cima dele.

Lembro do gosto de sangue na boca.

Dos gritos.

Das mãos tentando me segurar.

E lembro, principalmente, de Polo me olhando como se eu tivesse salvado a vida dele.

Aquilo bastou.

Duas semanas de isolamento não significavam nada.

Não quando se tratava deles.

Por Dom e Polo…

Eu faria qualquer coisa.

— Ei, acorda.

A voz de Dom me puxou de volta.

— Tá pensando em quê, idiota? Tô falando sozinho aqui.

Passei a mão pelo rosto.

— Vai se foder, Dom.

— Nossa, que grosso. As costelas quebraram, mas a arrogância continua intacta.

Revirei os olhos.

A porta se abriu novamente.

Polo entrou já mexendo no celular, com aquela expressão séria que praticamente fazia parte do rosto dele.

— O Watson está a caminho.

— Vocês dois são insuportáveis.

— E você é irresponsável pra caralho — Polo rebateu. — Não esquece que amanhã temos o evento no Mayfair Club.

Suspirei.

O Mayfair Club.

Mais uma noite cercado de políticos, empresários e parasitas sociais fingindo serem homens respeitáveis.

— Alguns acordos importantes serão fechados amanhã — Polo continuou. — Sua ausência nem sequer é cogitada.

— Relaxa. Até amanhã eu já vou estar inteiro.

— Você nunca esteve inteiro.

Meu olhar encontrou o dele.

Por alguns segundos, o quarto mergulhou em silêncio.

Polo desviou primeiro.

Ele fazia isso às vezes.

Falava coisas que pareciam simples, mas que acertavam exatamente onde doía.

— Eu preciso ir — ele disse logo depois. — Ainda tenho muita coisa pra resolver antes do jantar.

Observei enquanto saía do quarto.

Marco Polo.

O cérebro da Magma.

O homem mais inteligente que eu conhecia.

Ele chegou ao orfanato sem sobrenome, sem passado e sem ninguém.

Uma folha em branco.

Talvez por isso tivesse se tornado tudo aquilo.

Diferente de mim.

Eu carregava sangue ruim no sobrenome.

Aos dezesseis anos, quando meu tio apareceu no orfanato, eu finalmente entendi o peso que existia em ser um Cipriatti.

Meu pai não tinha sido apenas um criminoso.

Ele tinha sido um dos homens mais perigosos do Reino Unido.

E parte dele vivia em mim.

Sempre viveu.

Foi naquela época que nós três começamos a desenhar o que viria a ser a Magma Enterprises.

Dom cuidava dos projetos.

Polo da estratégia.

E eu…

Eu fazia o que precisava ser feito.

Dominic Belmont era um gênio da engenharia.

Boa parte dos empreendimentos milionários da Magma existiam por causa dele.

Já Polo dominava sistemas, informações e pessoas como ninguém.

Hackers invadiam computadores.

Marco invadia vidas.

Nós três juntos construímos um império.

Um império sustentado por concreto, dinheiro e sangue.

Hoje tínhamos policiais na folha de pagamento.

Políticos.

Advogados.

Médicos.

Homens importantes demais para terem seus nomes associados ao nosso.

No final das contas, o mundo inteiro funcionava na base da corrupção.

Alguns apenas escondiam melhor.

Uma batida na porta interrompeu meus pensamentos.

Watson entrou carregando sua maleta preta.

Velho.

Discreto.

Leal.

Qualidades raras.

— O que aconteceu dessa vez? — perguntou enquanto colocava os óculos.

— Guto resolveu brincar de gladiador de novo — Dom respondeu antes de mim.

Watson soltou um suspiro cansado.

— Um dia você ainda vai acabar morto.

— Todo mundo acaba.

Ele ignorou meu comentário e começou o exame.

A dor veio forte quando pressionou minhas costelas.

Prendi a respiração.

— Fraturou uma costela — concluiu. — Vai precisar evitar esforço físico.

Dom começou a rir.

— Boa sorte convencendo esse animal disso.

Watson anotou algumas coisas em uma receita antes de me encarar.

— Estou falando sério, Augusto.

Assenti sem realmente prestar atenção.

Repouso nunca combinou comigo.

Assim que Watson foi embora, Dom terminou o whisky dele e se levantou.

— Mais tarde a gente se encontra no Camp Town.

Concordei com a cabeça.

O Camp Town era um dos poucos lugares onde conseguíamos conversar sem olhares curiosos.

Oficialmente, o pub pertencia a outra pessoa.

Na prática, tudo naquela cidade acabava passando pelas nossas mãos.

Quando finalmente fiquei sozinho, caminhei até a enorme janela da cobertura.

Londres brilhava lá embaixo.

Milhões de luzes.

Milhões de pessoas.

E ainda assim, eu nunca tinha me sentido realmente parte daquele lugar.

Às vezes, tudo aquilo parecia uma fantasia cara demais.

Os ternos.

Os carros.

Os eventos.

As mulheres.

No fundo, eu ainda era o garoto de Kilburn correndo descalço pelas ruas e tentando sobreviver mais um dia.

Meu celular vibrou sobre a bancada do banheiro.

Nataly.

Ignorei.

Minutos depois, ela ligou de novo.

Ignorei outra vez.

Nataly era uma socialite famosa em Londres.

Linda.

Gostosa pra caralho.

E completamente incapaz de entender limites.

Nós transávamos há meses.

Talvez mais.

Eu honestamente não sabia.

Nunca fui o tipo de homem que conta tempo quando se trata de mulheres.

Sexo era simples.

Fácil.

Sem promessas.

Sem cobranças.

Relacionamentos exigiam coisas que eu não sabia oferecer.

Paciência.

Cuidado.

Amor.

E homens como eu não nasceram para amar.

Nasceram para destruir.

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