
O Veneno da Vingança, o Doce Amor
Capítulo 2
Na comunidade onde nasci, a capoeira era mais do que uma dança ou uma luta, era a pulsação da vida, o ritmo que ditava os dias e as noites. Minha avó, Mestra Jurema, era a figura mais respeitada do bairro, não só pela sua ginga, mas pelo seu "dom", uma intuição mística que lhe permitia ver o futuro e a saúde das pessoas. Ela era uma benzedeira, uma curandeira, uma lenda.
Esse dom deveria ter passado para suas netas, mas o destino foi seletivo.
Minhas duas irmãs mais velhas, Clara e Sofia, foram abençoadas. Clara, a mais velha, lia os búzios com uma precisão assustadora, desvendando os caminhos que os orixás traçavam para cada um. Sofia, a do meio, tinha o poder de ver a doença no corpo das pessoas antes mesmo que ela se manifestasse, e sabia curá-las com suas ervas e rezas. Elas eram a luz da família, o orgulho da nossa avó.
E havia eu. Ana.
Para mim, não sobrou dom algum. Nenhum brilho, nenhuma visão. Eu era a "inútil", a que só servia para lavar, passar e cozinhar. Enquanto minhas irmãs eram reverenciadas, eu era a sombra que se movia pela casa, esquecida e desprezada.
Naqueles dias, a comunidade fervia. O Líder do bairro, um político corrupto e poderoso, estava doente, quase no leito de morte, e uma nova eleição para o seu cargo estava prestes a acontecer. A sucessão era o assunto em todas as rodas de conversa, em cada esquina. O poder dele era imenso, e quem o sucedesse controlaria a vida de todos nós.
Foi então que o chamado veio. O Líder, em sua cama, convocou as três netas de Mestra Jurema. Sua voz era fraca, mas a ordem era de ferro. Ele queria que cada uma de nós escolhesse um candidato para se casar. Um casamento que seria uma aliança, uma forma de garantir o apoio da nossa família e perpetuar a sua influência através do novo líder.
Chegamos ao casarão do Líder. O ar era pesado, cheirava a remédio e a poder em decomposição.
Clara foi a primeira a escolher. Ela fechou os olhos, jogou seus búzios num pequeno tabuleiro de madeira e sorriu.
"Eu escolho o que tem o 'axé' mais forte."
Seu dedo apontou para um empresário rico, dono de metade dos imóveis do bairro. Um homem com poder e dinheiro, uma escolha óbvia e segura.
Sofia foi a segunda. Seus olhos, de um castanho estranhamente claro, examinaram os candidatos um a um. Ela não precisava de búzios, ela via a energia, a aura.
"Eu escolho o que tem a 'aura' mais saudável, o mais promissor."
Sua escolha foi um jovem advogado, cheio de ambição e com uma saúde de ferro. Outra escolha inteligente, pensando no futuro.
Todos os olhares se voltaram para mim.
Sobrou apenas um. Um idealista, um sonhador que todos chamavam de "ingênuo". Um homem sem posses, sem sorte, sem um pingo de malícia no olhar. Um candidato que ninguém levava a sério.
Clara riu, um som seco e debochado.
"É claro que sobrou o pior para a Ana. Ela não tem 'visão' para escolher nada. Sua sorte está por um fio, irmãzinha."
Sofia concordou com um sorriso de pena.
"Coitada. Sempre pega as sobras."
Eu olhei para o candidato "ingênuo", depois para minhas irmãs, e por fim para o homem que morria na cama. Um sorriso misterioso surgiu em meus lábios, um sorriso que elas nunca tinham visto antes.
Ignorei o candidato que me foi destinado. Caminhei até a beira da cama do Líder e fiz uma reverência.
"Quero me casar com o senhor, Líder. Desejo a sua proteção."
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