
O Veneno da Vingança, o Doce Amor
Capítulo 3
O silêncio na sala foi total, denso como um nevoeiro. Podia-se ouvir a respiração ofegante do homem na cama e o zumbido de uma mosca perto da janela.
Minhas irmãs me olharam como se eu tivesse acabado de anunciar que podia voar. Louca. Era a única palavra que passava por suas cabeças. Querer se unir a um homem que já tinha um pé na cova? Era o cúmulo da estupidez.
O Líder, que parecia quase adormecido, abriu os olhos turvos. Ele se esforçou para focar em mim. Sua voz saiu como um sussurro arrastado, um som de folhas secas se quebrando.
"Ana... eu te pergunto novamente... quem você escolhe?"
A pergunta pairou no ar, uma última chance para eu voltar à razão, para aceitar o candidato desprezado que me restou.
Mas eu não hesitei. Inclinei-me mais uma vez, a reverência profunda e respeitosa.
"Escolho o senhor, Líder. Por favor, me aceite."
A reação dele foi imediata e chocante.
O rosto pálido e doentio do Líder se transformou. Uma alegria assustadora, quase maníaca, iluminou suas feições. Ele ignorou a própria fraqueza e agarrou a mão de sua esposa, a Primeira Dama, que estava ao seu lado com uma expressão de pedra.
"Você ouviu? Você ouviu?" ele exclamou, a voz ganhando uma força que ninguém esperava. "A neta de Jurema me escolheu! Eu sou o verdadeiro líder! Eu ainda tenho muito a viver! Viverei para sempre!"
A Primeira Dama forçou um sorriso, tentando acalmar o marido. Seus dedos apertaram a mão dele com força.
"Meu Líder, suas palavras são sábias. Este bairro é seu, e você viverá para sempre."
Mas as palavras dela soaram vazias, um eco oco na euforia delirante do homem.
Clara, minha irmã, não aguentou. O deboche em seu rosto deu lugar a uma fúria gelada. Ela me via não como uma louca, mas como uma ameaça. A escolha dela, o futuro dela, tudo dependia da estabilidade que a morte iminente do Líder proporcionaria. Minha atitude desequilibrava o jogo.
Ela avançou em minha direção com a rapidez de uma cobra.
"Sua inútil! O que você está falando?"
A mão dela voou e atingiu meu rosto com uma força brutal. Clara, acostumada a lidar com as energias dos búzios e dos orixás, tinha uma força física impressionante. A bofetada me fez ver estrelas, o zumbido em meu ouvido foi mais alto que a voz do Líder.
Ela não parou por aí. Virou-se para o homem na cama, a raiva dando lugar a uma súplica calculada.
"Meu Líder, me perdoe! Minha irmã Ana não herdou o dom de nossa avó, ela é uma inútil! Para não manchar o nome de nossa família, peço que a puna por sua insolência!"
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