
O Vazio Que Ele Deixou
Capítulo 2
Acordei com o cheiro de desinfetante e o som de um bip constante.
Uma luz branca e fria feria os meus olhos, e eu senti um vazio estranho e oco na minha barriga.
O meu bebé. Onde estava o meu bebé?
Tentei sentar-me, mas uma dor aguda atravessou o meu corpo. Uma enfermeira entrou a correr.
"Calma, menina Ana. Não se esforce. A senhora teve uma reação alérgica muito grave."
A voz dela era suave, mas as palavras eram pesadas.
"O meu marido," consegui dizer, com a garganta seca. "O Leo. Ele está aqui?"
A enfermeira evitou o meu olhar, o que já era uma resposta.
"Tentámos contactá-lo várias vezes. O seu telemóvel está desligado."
O meu coração, que eu pensava já estar partido, afundou-se ainda mais.
Lembrei-me da noite anterior. O jantar que o Leo encomendou para mim, dizendo que tinha uma reunião de trabalho de última hora.
"É o teu restaurante favorito, amor. Pedi o prato do costume."
O prato do costume não tinha marisco. Eu era mortalmente alérgica a marisco. O Leo sabia disso melhor que ninguém.
Lembrei-me da primeira garfada, do sabor estranho, da minha garganta a fechar-se.
Liguei-lhe. Uma, duas, dezoito vezes. Cada chamada ia para o correio de voz.
A última coisa de que me lembro é de rastejar até à porta e de a abrir, antes de tudo ficar preto. A minha vizinha, a Dona Elvira, encontrou-me. Foi ela que chamou a ambulância.
Não o meu marido.
Um médico entrou no quarto, com uma expressão séria. Ele olhou para os meus exames e depois para mim.
"Senhora Ana, conseguimos estabilizá-la. A reação foi severa, mas a senhora vai recuperar."
Ele fez uma pausa.
"Mas lamento informar. Devido ao choque anafilático e à falta de oxigénio... perdemos o bebé."
As palavras dele não fizeram barulho. Elas simplesmente pousaram no silêncio do quarto e esmagaram tudo.
Eu não chorei. Apenas assenti.
O vazio na minha barriga agora fazia sentido. Era um túmulo.
Peguei no meu telemóvel, que a enfermeira tinha colocado na mesa de cabeceira. Abri o Instagram.
Não precisei de procurar muito.
Sofia, a afilhada dos pais do Leo, a sua "irmãzinha", tinha publicado uma story há poucas horas.
Era uma foto de um bolo de aniversário, com velas acesas. Na legenda, "Obrigada ao melhor homem do mundo por esta surpresa! @LeoMartins".
Na foto seguinte, o Leo estava ao lado dela, a sorrir, com o braço à volta dos ombros dela. No fundo, via-se o logótipo do restaurante de luxo onde ele supostamente tinha a sua "reunião de trabalho".
Ele não desligou o telemóvel. Ele simplesmente ignorou as minhas chamadas para a morte.
Fechei a aplicação.
Abri os contactos.
Apaguei o nome "Amor <3".
Digitei "Leo Martins".
E bloqueei o número.
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